ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Lau Siqueira


Sete poemas    

O MELHOR DO FILME

 

Meu amor acolhe sempre
o rastro das miríades...

E lá se vão luas e noites
onde debelo as sombras
do meu dia.
 
Vou extrair do infinito
o alimento que felina
minha calma.

Em cada momento tu és uma nova luz.
Um espetáculo de afetos engole meus
líquidos, direciona lábios e língua para
o que em ti é emoção e linguagem.

Tu és o caminho.
A vontade de caminhar.

Meu amor desloca teu corpo no espaço.
Treme em minha pele. Geme em falsete
quando dispo a nudez dos disfarces.

Sinto que farejas
o suor da minha alma
quando o corpo clama.

Tudo em mim te ama.

Pássara. Sempre voas. Sempre mais.
Toda vez, todavia, toda vida, quando
nua, vestes o tecido da minha carne.

Dessarte retornas para onde
sabes o que é permanente.

(...)

Ela sempre me leva ao cinema.
E é sempre ela o melhor do filme.

 

 

 

 

 

 

GREGÓRIO BEZERRA

 

Não é que sejamos mais fortes.
O que eles temem é exatamente
a nossa fragilidade.

Delicadeza contamina e toda
arte é sempre um começo
de revolução.

A poesia não rompe o cerco,
mas pisoteia baionetas. Até
secar a sangria dos pés.

Até que o osso rache no ácido
pedregoso do próximo passo.

No arrasto que ainda hoje
me trava os punhos.

 

 

 

 

 

 

INSULTO

 

a imagem
é áspera

eles mijam
na rua

fodem na
calçada

cagam
nas praças

e dormem
com fome

e com sede

cabeça estirada
no fio da navalha

(viver é bom
mas às vezes
falha)

 

 

 

 

 

 

ESTATÍSTICA

 

Escrever poemas não vale
um corpo caído no asfalto.
Sinais de sangue no sapato.
Riso apagado no ato.

Escrever poemas não vale
a memória dos inimigos da
horda jogados na caldeira
dos silêncios.

Escrever poemas não vale
a noite incômoda e feroz
dos que dormem cobertos
de luas e estrelas.

Escrever poemas não vale
um único segundo de um
dia inteiro penando
injustiças...

Escrever poemas não vale
a primeira sílaba da palavra
morte - derradeira dormida
do corpo e da alma.

Não vale o poema. Não
vale o silêncio sob o manto
dormente das milícias.

Não vale a outra face
navalhada no tapa. Não
vale a pele do mapa.

Não vale a trapaça
da dor, ferida aberta
na couraça.

 

 

 

 

 

 

A PESTE

 

quando tudo
isso acabar

não seja mais
o mesmo

nem volte pro
mesmo lugar

 

 

 

 

 

 

UMA MÁSCARA
CAIRÁ SOBRE O SEU
ROSTO

 

Os dias se arrastam
numa velocidade
sem limites. No entanto,
sabemos que nada saiu
do lugar.

As ruas estão plenas:
caos e silêncio na espera
de uma normalidade tão
mais louca que a memória
das noites sem estrelas,
sem nuvens, sem lua...

Aquelas que pesam. Perdem
altitude. As que escondem
nossos passos. Comem nossas
sombras e prometem não
amanhecer.

Um inimigo invisível corre
pelas calçadas com motivos
para destruir. Devastando
o silêncio que somos quando
nos tiram o ar.

A morte e a vida caminham
lado a lado. Trocam flores
e trocam tapas. Se escondem
no medo de nunca mais voltar.

(suspiro)

Hoje foi um dia sisudo.
Troquei sementes de cedro
e jacarandá. Não porque
sejam eternas, mas por
serem a própria resistência.

A farsa grotesca da miséria
não esconde a tristeza ou
a tatuagem sangrada dos
que não temem a eternidade.

Mas quando amanhecer
ainda estaremos aqui.
Vamos comer o que sobra
da vida que pouco temos.

Outros serão metade, ou
quem sabe até bem menos.
Alguma coisa invisível
nos jogou contra a parede.

Tudo é mar e tudo é sede.

No alto de um prédio
tremula uma sentença.
Estamos seguros como
o suicida antes do salto.

É bárbaro o que não voa,
mas nos joga pelos ares.
Como se fôssemos
a dobra de toda leveza.

A vida é um susto.
E eu abri mais uma
cerveja.

 

 

 

 

 

 

ITABUNA

 

Se me perguntam
o que senti em Itabuna,
cidade que gerou Jorge
Amado, direi que fui
amado na terra
de Jorge.

Acha pouco?

Saravá, Seu Jorge
Guerreiro! Marceneiro
a esticar no torno da
palavra escrita a madeira
sem lei da história...

Do povo que nasce, morre,
volta, revolta e organiza o
quilombo na própria pele.

A cidade anda um tanto
descuidada. Mas, o Rio
Cachoeira ainda corre,
ainda belo, ainda
esquecido...

Talvez não saibam
que as melhores
paisagens de Itabuna

são as pessoas.

Pessoas que plantam flores,
que fazem amor, que sonham
com as cores e os perfumes
do acaso.

Planta, bicho, gente. Somos
a mesma multidão. Candomblé
na alma do povo. No que
mesmo derramado se agrupa
e fortalece. Na permanência
que passa como um raio, mas
tatua a cidade na memória.

Em Itabuna a leveza
do vento carrega de
aventura o cheiro
do ar...

Itabuna é um cerco do olhar.

Cidade que geme de dor,
também goza. No ar que se
respira. No vento que vai em
Ilhéus só pra ver o mar...

E depois
volta pro mesmo lugar.

 

 

Lau Siqueira, escritor e poeta brasileiro, é gaúcho de Jaguarão e reside na Paraíba. Publicou oito livros de poemas e teve poemas incluídos em antologias no Brasil e exterior. Escreve semanalmente para a Revista Crônicas Cariocas e quinzenalmente para a revista Mallarmargens. Atualmente toda a sua obra poética pode ser adquirida na Editora Casa Verde, casaverde@casaverde.art.br

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Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


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