ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


EDITORIAL    

Um dos factos mais importantes da vida política portuguesa dos últimos meses é a candidatura de Ana Gomes à Presidência da República. Ana Gomes é uma figura malquista do aparelho do seu partido, o Partido Socialista. Acusam-na de populista. Porém, a verdade é que o seu populismo se limita à luta sem tréguas contra a corrupção em Portugal e nos países da lusofonia, não poupando gente do seu próprio partido. É frontal, direta e incómoda, um perfil contrário ao dos videirinhos e até corruptos que pululam no PS e noutros partidos. Nada estranho, por isso, o não ter o apoio do aparelho partidário do PS.


Mas é muito importante para os defensores da liberdade, da justiça e da solidariedade, é muito importante para Portugal a sua candidatura, pois entra num campo que tem sido reservado á extrema direita: a luta contra a corrupção. Até agora, tem sido o candidato do Chega a voz que mais se faz ouvir contra a corrupção. E isso é grave por duas razões: a primeira é que a corrupção é algo estrutural à direita, sobretudo à extrema direita, que consegue aliar a corrupção moral à corrupção material, pelo que tal combate  aparente só pode ser qualificada de cinismo. A segunda é que a esquerda parece desvalorizar essa luta como se não fosse algo de essencial à vida dos portugueses, como se estes não tivessem de suportar o preço da corrupção que atinge quer a administração central quer as autarquias, quer os organismos de regulação quer as empresas.


Ana Gomes, mal quista pelo aparelho do PS é, no entanto, bem quista pelo povo. E este, certamente, não deixará de reconhecer nas urnas a honestidade e a coragem de Ana Gomes na sua luta por um país melhor.


BRASIL: RELIGIÃO E CORRUPÇÃO


Suspeito de corrupção, o Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, eleito por um partido que se diz cristão, o Partido Social Cristão, PSC, foi afastado do cargo pela justiça no final de Agosto. Por sua vez, o prefeito do Rio de Janeiro e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Marcelo Crivella, foi alvo de buscas e apreensões, por grave suspeita de corrupção que envolve o montante de cerca de seis mil milhões ( no Brasil bilhões) de reais.

Espera-se o seu afastamento da prefeitura pela Justiça.


Até aí nada de extraordinário, porque isso é o dia a dia do Brasil. O que é realmente relevante é a ligação de ambos às seitas evangélicas, e o facto de a IURD ser suspeita de lavagem do dinheiro resultante da corrupção imputada a Crivella.


Nada que não se soubesse já. Mas o facto de, pela primeira vez, a Justiça brasileira ligar a corrupção na administração pública a uma seita religiosa é algo de novo que merece ser ressaltado. Espera-se que leve este seu ato de coragem até ao fim.

 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Setembro de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alejandra Correa ; Rolando Revagliatti, entrevista, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Bárbara Lia, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Pessoa Rosa, Cecília Barreira, Clécio Branco, Danyel Guerra, Edna Bueno, Faysal Rouchdi, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fiori Esaú Ferrari, Guilherme Preger, Henrique Dória, Jaime Munguambe, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luís Correia Mendes, Mabanza Xavier Esteves Kambaca, Marinho Lopes, Miguel Ângelo, Milton Lourenço, Myrian Naves, Myrian Naves, org.; arrudA, Nilma Lacerda, Rafael Flores Montenegro, Rafael Rocca dos Santos, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Ronaldo Werneck


Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR