ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Myrian Naves


Lançamento Brasileiro: Procurando Pessoa, de
José Alfredo Santos Abrão    

Lançamento Brasileiro
Myrian Naves, pelo conselho editorial

 

 

 

“Procurando Pessoa”, de José Alfredo Santos Abrão

 

Uma novela inspirada no (des)encontro entre o poeta Pessoa e o mago Crowley. E um excerto.

 

O redator, escritor e artista visual brasileiro José Alfredo Santos Abrão lança seu sétimo livro, Procurando Pessoa, pela Kotter Editorial. O lançamento (virtual) foi feito em entrevista (ao vivo) entre o editor Daniel Oziecki e o autor no perfil da Kotter no Instagram na noite de quarta-feira, dia 2 de setembro de 2020 – data em que o encontro histórico entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley completou 90 anos.

“Nessa novela, um anjo casual narra esse encontro fatídico entre o poeta português e o mago britânico, acontecido em 1930. A narrativa reconta fatos reais, enfocando o ‘golpe publicitário’ que Crowley pretendia perpetrar com a cumplicidade de Pessoa: o lançamento de uma novela policial, a partir do suposto suicídio do mago na Boca do Inferno.

O pretexto para esse suicídio seria o amor não-correspondido do mago inglês pela maga alemã Hanni Jaeger, sua assistente na viagem a Lisboa – uma figura sedutora, embora paranoica e instável, que desperta a maior atração em Fernando Pessoa. A partir dessa trama, o autor desenvolve uma narrativa puramente ficcional: Pessoa desiste do golpe – e, para escapar do assédio de Crowley, passa despistar o mago por meio de seus heterônimos, em manobras ‘diversionistas’.“

“Como anota o escritor José Paulo Cavalcanti Filho, autor do prefácio, ‘a partir de ingredientes exóticos, entre tantos personagens instigantes, as mãos hábeis de José Al­fredo Santos Abrão tecem uma trama inventiva. E muito bem articulada, nessa novela que vai prender o leitor, desde o começo e até a última página. Em resumo, literatura de primeira qualidade.’”

Excerto de “Procurando Pessoa”

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Pessoa se sente partido ao meio, premido entre o desconforto da situação e um orgulho quase incontível; mas segue imerso em sua síndrome de anfitrião contrariado; afinal, não leva o menor jeito para lidar com personalidades, ainda mais com uma estrela esdrúxula como Aleister Crowley. Para se ter uma ideia de seu constrangimento na situação, vale lembrar a descrição desse encontro pelo escritor João Gaspar Simões: ‘Em terra, um Fernando Pessoa transido e tímido vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra, cujos olhos ao mesmo tempo maliciosos e satânicos o fitam repreensivamente’.

Há que se levar em conta que o mago inglês é performático; tanto que, logo depois desse ‘climão’, ele brinca para aliviar o visível desconcerto do português: Então, que história foi essa de me mandar um nevoeiro lá em cima!?... Pessoa até que se sai bem na resposta: Ora, quem me dera, ‘sir’; quem sou eu para governar os humores de Netuno?... E assim o encontro começa a ter um tom mais cordato: Muito prazer, meu caro, sou Aleister Crowley, seu admirador à distância... Esta é minha assistente, Miss Hanni Jaeger – mais conhecida nos círculos esotéricos como a Mulher Escarlate.

Mais à vontade com a receptividade do casal, Pessoa faz questão de mencionar sua estima pelas obras de Crowley, bem como seu encanto pela alemãzinha. Na verdade, é um elogio sincero; de imediato, nosso poeta sente muita atração pela beleza – e até pela estranheza – daquela mulher. Por sua vez, ela percebe o fraquejo do gajo e se envaidece, enquanto o mago se diverte com o trânsito de olhares furtivos.

O trio embarca num táxi a caminho do hotel de L’Europe, na praça Luís de Camões, com Pessoa se sentindo bem melhor entre os viajantes; Crowley lhe é todo atencioso: Fernando, quero agradecer, agora pessoalmente, por sua correspondência – pela delicadeza de me enviar sua observação tão apurada sobre os dados de meu mapa astral... Seu conhecimento de astrologia me impressiona sobremaneira, meu caro – tanto que fiquei curioso em saber como foi sua iniciação... Mesmo se sentindo lisonjeado, Pessoa não deixa de ser modesto: Ora, ‘sir’, não sou exatamente um iniciado, sou mais um curioso; desde minha juventude em Durban, sou alguém que fuça sozinho os livros, as revistas e o que mais lhe cai aos olhos ou às mãos... Mas o senhor sim, tem sido inspiração constante em meu caminho, com sua doutrina bem fundamentada na gnose, seu paganismo assumido, sua coragem de enfrentar os dogmas da igreja, a hipocrisia da sociedade... Já a resposta de Crowley vem em outros tons, com carregada soberba e despachado desprezo: Ah, as crenças vãs da sociedade burguesa!... O credo cristão, o temor do inferno, o desespero crônico dos ‘fiéis’ – tudo nesse mundo contribui para contaminar a mente do cidadão comum, intoxicando sua alma escrava e o mantendo em condição degradante, condenado a ser mais uma cabeça de gado em meio ao imenso rebanho humano, atolado até o pescoço no excremento geral das ‘regras’ mundanas... Submisso pela culpa, atado pela repressão do desejo, preso pela sublime ilusão de salvar sua alma aflita no Juízo Final, esse coitado integra, afinal, uma enorme legião de oprimidos, chafurdando na mais abjeta mediocridade.

Como um quase cavaleiro templário, Pessoa sente um certo desconforto com o exagerado desdém do mago inglês pela condição humana, sem a menor compaixão, e tenta amenizar a coisa a seu modo: Sir Crowley, esse mundo é mesmo feito de coisas mesquinhas; mas, mesmo em sua miséria, haverá um meio de se fazer a vida valer a pena – até porque não há outra vida, outro mundo...Ao que Crowley responde com um comentário seco, em tom lúgubre: Você acha, é?... Miss Jaeger surpreende a ambos, repetindo o verso pessoano:‘tudo vale a pena, se a alma não é pequena’.

Como se flutuasse no assento dianteiro do táxi por uns segundos, Pessoa encara a moça com fascínio; quando se recompõe, comenta a coisa meio sem graça, meio sem jeito: Interessante saber que, além de tão bela, Miss Jaeger aprecia o enlevo de nossa poesia... Ao que ela responde com sua face mais enigmática: Sim, um verso luminoso e delicado às vezes me toca fundo; mas prefiro os poemas mais obscuros, mais dilacerantes... Me alimento deles, pois toda dor me diverte. 

 

O escritor José Alfredo Santos Abrão

O escritor brasileiro, paulistano, José Alfredo (1958) mudou-se para Florianópolis (1990), depois passou a viver na cidade do Recife (2012). Em poesia, no período florianopolitano, publicou Pegadas de palavras (1991) e Dias com nuvens (1999), ambos em edições do autor. Mais recentemente, lançou Três poemas esparsos em tercetos imperfeitos (Semprelo, Florianópolis, 2019).

Em prosa, José Alfredo publicou três livros: a novela Outro norte profundo (Barabô, Salvador, 2012), Cronomáticas e outros contos (Cepe, Recife, 2016), finalista do III Prêmio Pernambuco de Literatura, e o volume Sete relatos enredados na cidade do Recife (Laranja Original, São Paulo, 2019).

O autor atuou muitos anos como publicitário, participou de salões e exposições de arte, escreveu e dirigiu trabalhos em vídeo e cinema. Ficou em primeiro lugar no concurso nacional ‘100 anos da Semana de Arte moderna’ (o último certame literário realizado pelo MinC, em 2018), com a novela inédita Andares entre dois Andrades. Também foi premiado no concurso ‘200 anos da Independência’ (Secretaria Especial de Cultura, vinculada ao Ministério da Cidadania, em 2019), com o poema longo “Ave Nossa Senhora da Independência”.

 

 

                                           

 

Livro:                   Procurando Pessoa
                   novela, 84 páginas
Autor:         José Alfredo Santos Abrão
Editora:      Kotter Editorial
                   Instagram Kotter
@kotter_editorial
 Lançamento on line: https://www.instagram.com/p/CEp0sdwH9U3/

 

José Alfredo Santos Abrão

Escritor brasileiro, paulistano, José Alfredo (1958) mudou-se para Florianópolis (1990), depois passou a viver na cidade do Recife (2012). Em poesia, no período florianopolitano, publicou Pegadas de palavras (1991) e Dias com nuvens (1999), ambos em edições do autor. Mais recentemente, lançou Três poemas esparsos em tercetos imperfeitos (Semprelo, Florianópolis, 2019).

Em prosa, José Alfredo publicou três livros: a novela Outro norte profundo (Barabô, Salvador, 2012), Cronomáticas e outros contos (Cepe, Recife, 2016), finalista do III Prêmio Pernambuco de Literatura, e o volume Sete relatos enredados na cidade do Recife (Laranja Original, São Paulo, 2019).

O autor atuou muitos anos como publicitário, participou de salões e exposições de arte, escreveu e dirigiu trabalhos em vídeo e cinema. Ficou em primeiro lugar no concurso nacional ‘100 anos da Semana de Arte moderna’ (o último certame literário realizado pelo MinC, em 2018), com a novela inédita Andares entre dois Andrades. Também foi premiado no concurso ‘200 anos da Independência’ (Secretaria Especial de Cultura, vinculada ao Ministério da Cidadania, em 2019), com o poema longo “Ave Nossa Senhora da Independência”.

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Colaboradores de Setembro de 2020:

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Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


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