ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Nilma Lacerda


Ponte aérea Jorge Vicente - Alexandre Brandão    

Se, como Jorge Vicente, tivesse a escolha entre
“ser humano e ser presa de um destino
de pequenos nadas”
e
“... um cavalo que passa devagar
e que me desabriga de mim mesmo”
iria como ele ao lado do cavalo, devagar, sem qualquer certeza sobre o ativo ou o passivo de escolher, menina debruçada sobre cartazes à frente de algumas construções – “Aqui há Otis” – e propagandas de revistas: “Modess: o suficiente para um mês custa menos que um vidrinho de esmalte”. Eu não perguntava o que estava por trás dessas palavras, ninguém me esclarecia. Foram meus primeiros poemas. 

O cavalo de Jorge Vicente é ofício sem arroubos, pede linguagem radical, sem fingimentos, despojada das cercas da cultura e que atinja a pele no lugar em que ela não recobre uma estrutura corpórea, mas em que deixa ver
“aqui um homem e a matéria dentro dele:
uma supernova”
Fruto de um
“acto de amor inacabado”,
para ele a poesia é clara quanto à oposição entre
“a linguagem e a natural visceralidade do poema”,
que não tem a dar
“senão o próprio desejo de
viver”.

Este desejo de viver me faz, às vezes, ficar suspensa daqui pra lá, de lá pra cá. Viajar foi prazer e busca autorizados na maturidade, pagas as contas das filhas crescendo, os empregos (ou desempregos) garantidos. Veio, por outro lado, como prêmio de trabalho, em consideração às práticas e reflexões acumuladas. Em certo momento, a supernova mostrou-se e sem pejo lá se foi o corpo para a ponte aérea. Numa dessas, estou em Lisboa, o amigo do Rio recomenda, “vê se encontra o Jorge Vicente, um cara legal, tenho trocado umas coisas com ele”. Obediente e amiga, pego o contato, qualquer um desses contatos eletrônicos, eficiente, ágil, o poeta logo responde, informa do lançamento de seu livro. Não poderei estar presente, prometo comprá-lo mais tarde, antes de voltar ao Brasil. Cumpro minha promessa, a livraria Leituria é um lugar agradável, o Vítor veio me atender fora de horas, para que não voltasse de mãos abanando.

Chego ao Brasil, aviso o meu amigo de que o livro está comigo, “vou ler, depois te dou”. Não demorei a ler, demorei a fazer isso que faço agora, colocar no texto de Jorge Vicente minhas marcas de leitora. E realizar também aqui a devida ponte aérea, falando a Jorge Vicente da poesia de Alexandre Brandão, que avisa não ser poeta, mas em salvaguarda dá ao volume que editou não faz muito o título de Nenhuma poesia: uma antologia. Brandão não é poeta, mas escreve poesia, conforme admite. E o livro é uma coletânea de seus quarenta anos na cidade do Rio de Janeiro. Esta cidade que já foi das melhores do Brasil e hoje é..., hoje é não sei o que diga. No arco de tempo que vai de minha juventude a esta maturidade impaciente, assisti a degradação se instalar na minha cidade, o rasurar diário do que é decência, esperança e confiança. Tenho visto – e continuo a ver – governantes impudicos e incompetentes em total desprezo pelos cuidados com a cidade. Crimes, alguns aterradores, são cometidos contra a população; balas saem às soltas à cata da vítima incauta a caminho do trabalho, de levar filho à escola etc. etc. etc.

Como Brandão, sou um
“andrajo celestial”,
busco “A matéria do poema” e
“Não sei nada disso:
Ando escrevendo muito
E não estou triste
– estou é puto.”

Confio no texto para deixar claro que no Brasil puto não tem o mesmo sentido que em Portugal. E me valho deste metapoema para cumprir o objetivo de toda ponte aérea, levar de um lugar a outro, trazer de volta ao lugar de partida. Trago para Alexandre o livro de Jorge Vicente, levo a Jorge Vicente o livro de Brandão.  

Brandão, este servidor da literatura, que entre outras tarefas manteve o projeto “E tome palavra”. Convidava a poeta ou o poeta, dava uma palavra para que em poucos caracteres se desenvolvesse um texto, publicava em seu blog. Primorosa divulgação de nomes e bons trabalhos.  A Jorge Vicente coube “Nódoa”. Aqui (link ao final), como nos exorcismos de cavalo que passa devagar, viver não é (não deve ser) “a dupla matéria de escrever”, mas o ato de dar “órgãos e pele” para desenhar numa folha em branco “o corpo desejoso da escrita”. Uma das âncoras do poeta, o repúdio à dor fingida replica-se em sua página de Facebook: “Poesia é vivência”. Sem canal para a metafísica, o poema sai para seu destino de matéria insubmergível destinada a fazer-se ao largo. Pode ser que encontre na praia o cavalo
“... assaltando
vidas e casas e paisagens
e talvez um pouco desta ordem
natural das coisas”

         Esta ordem natural das coisas estarrece Brandão, em “Matar”: 
“Neste outono dominado pelo verão
enquanto suo, escrevo e guardo o choro
vejo a alegria mórbida de uns tantos homens e
penso que, se me fosse dado o direito de tirar a vida de alguma coisa,
sangraria a palavra alma”.

Vivência e memória, a matéria deste poeta, que se reconhece
“... gaiola e não passarinho”

         Espaço de contenção, o cara de Minas tem o mar de um falso Rio para contemplar. Retém a memória, o tempo, e como tantos outros mineiros que vieram para o Rio conserva essa necessidade de diálogo com o tempo, nos grãos de vida armazenados ante seu consentimento. Com cerimônia, Brandão pede à Senhora do Tempo:
         “... árvore e sombra
apenas por um instante.” 

Abrasado pelo calor, sob a sombra, em refrigério, dobrado sobre si, este poeta do Rio oferta à cidade, à família, a quem o lê, fragmentos oscilantes da linha chamada vida. 

         A viagem foi tranquila, vocês como boa companhia durante o percurso. Abri os livros, exibi trechos indicados por minhas satisfações e agonias. Espero que sigam as pistas, mesmo sem indicação de título ou página, como se deve fazer com qualquer livro, especialmente estes, que rasgam o espaço aéreo entre Portugal e Brasil para aproximar dois poetas. Um trata a poesia como vivência, expressão visceral, e sabendo de seus limites de ação recusa o engajamento, assim como reconhece não trazer nada que mude a história da literatura. Opta por “um cavalo que passa devagar”. A salvo da subjetividade, tanto quanto da objetividade, devagar constrói a poesia que vá, jangada, a caminho do mar, esse mar português que ao Brasil é dado ver sempre do outro lado.

         O outro poeta, que conheço de perto em amizade de mais de 30 anos e leitura de seus outros volumes de contos e de crônicas, congrega em Nenhuma poesia a vivência do poliedro vertiginoso que é uma grande cidade, e onde cabem igualmente as quedas pessoais e outras coisas. O mar não é um caminho para o poeta do Rio. Nos diálogos com o tempo, a memória aponta a volta àquele espaço que talvez não consigamos deixar nunca, um tempo pleno de cavalos passando devagar.

         Conversam bem, em bom quilate, os dois poetas.

http://noosso.blogspot.com/2018/06/e-tome-palavra-com-jorge-vicente.html

Acesso em 01/09/2020

 

 

Nome do livro: “Nenhuma poesia, uma antologia”
Autor: Alexandro Brandão
Editora: Patuá
Ano de edição: 2020
123 páginas
 

 

 

Nome do livro: “Cavalo que passa devagar”
Autor: Jorge Vicente
Editora: voltad’mar
Ano de edição: 2019
Link para o artigo de lançamento na edição 81  de InComunidade: http://www.incomunidade.com/v81/art.php?art=203&fbclid=IwAR1EJgCH_XsWwcS8HP1hN_LvvHg8WgJFKBSakcMsx5HnAvNGldV3OnFQb44

 

 Nilma Lacerda

 

 Jorge Vicente

 

 

Alexandre Brandão

 

Nilma Lacerda: Escritora brasileira, nascida no Rio de Janeiro, autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, Pégaso na sala de jantar. Tradutora, ensaísta, recebeu os prêmios Jabuti, o Prêmio Rio, o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil e outros. Escreve para a Revista Pessoa de Literatura Lusófona (www.revistapessoa.com) e São Paulo Review (www.saopauloreview).

Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Com Mestrado em Ciências Documentais, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas, participando, igualmente, nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. Faz parte da direcção editorial da revista online Incomunidade. Tem cinco livros publicados, sendo o último cavalo que passa devagar (voltad’mar: 2019).
Contacto: jorgevicente.seacarrier@gmail.com

Alexandre Brandão, escritor brasileiro, estreou na literatura nos anos de 1980 publicando poemas no Suplemento Literário de Minas Gerais. Depois disso, lançou sete livros (dois com a Patuá) de contos e crônicas. Agora, ao completar quarenta anos de Rio de Janeiro, para onde se mudou saindo de Minas Gerais, reúne, como uma trilha sonora da vida, sua esparsa poesia.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Setembro de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alejandra Correa ; Rolando Revagliatti, entrevista, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Bárbara Lia, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Pessoa Rosa, Cecília Barreira, Clécio Branco, Danyel Guerra, Edna Bueno, Faysal Rouchdi, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fiori Esaú Ferrari, Guilherme Preger, Henrique Dória, Jaime Munguambe, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luís Correia Mendes, Mabanza Xavier Esteves Kambaca, Marinho Lopes, Miguel Ângelo, Milton Lourenço, Myrian Naves, Myrian Naves, org.; arrudA, Nilma Lacerda, Rafael Flores Montenegro, Rafael Rocca dos Santos, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Ronaldo Werneck


Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


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