ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Rafael Rocca dos Santos


O íntimo repulsivo: Três porcos de Marcelo Labes    

 

Marcelo Labes. Três porcos. Florianópolis: Caiaponte Edições, 2020.

         Na primeira página do novo romance de Marcelo Labes, lemos a epígrafe que o autor retirou do romance intimista Demian, de Hermann Hesse: “És um porco, um porco, igual a mim. Somos todos porcos”. Nesse romance do autor alemão, trata-se de uma irrupção contra a suposta superioridade de um dos personagens e seu interlocutor lhe brada categoricamente que “Você também tem seus vícios, eu sei! Age como um sábio e, em segredo, chafurda na mesma lama que eu e os outros!” Segue-se a acusação de que “somos todos porcos”. No entanto, uma outra passagem do romance Demian poderia ilustrar ainda mais fortemente o conteúdo e o caráter do texto de Marcelo Labes. Ela se encontra ao final do segundo capítulo do romance:

Ah, hoje sei: nada no mundo é tão repulsivo ao indivíduo do que percorrer o caminho que o leva a si mesmo!

         Pois que o mais recente romance de Marcelo Labes é precisamente isto: uma caminhada repulsiva a um interior repulsivo de um narrador dilacerado pelo trauma dos múltiplos abusos sexuais em sua infância.

         Dotado de uma prosa crua e cruel, taquigráfica, como um jorrar semiconsciente de acontecimentos desordenados, seguimos a mente do narrador que, após anos de experiências traumáticas no passado e mal compreendidas e trabalhadas, decide acertar contas com sua própria vida e relata publicamente, à maneira de acusação, qual foi o tal caminho para si mesmo que leva ao desfecho trágico.

Como memória, é um texto fragmentado em episódios do presente narrativo e de episódios do passado, aos quais ainda se misturam considerações sobre o próprio ato de narrar (por exemplo o Capítulo 5). Formalmente, o romance de Labes é convencional no sentido de adotar técnicas de composição correntes entre os romancistas deste novo decênio. Ser “novo”, “vanguardista”, no entanto, não é uma qualidade em si e nem necessariamente a finalidade da arte, como apregoam alguns, e Marcelo Labes não se propõe revolucionário da forma narrativa. O grande trunfo de seu romance está em seu conteúdo e em seu assunto.

         O assunto do romance é o abuso sexual infantil de crianças do sexo masculino. Por si, o tema tem uma grande importância no panorama cultural ocidental, já que, em relação à sua contraparte feminina, é pouco tratado na literatura ficcional. Os motivos pelos quais o assunto do abuso de meninos menores de idade encontra pouca guarida em representações artísticas deverá ser assunto de pesquisas sociológicas mais aprofundadas. Podemos, porém, ressaltar uma visão, até certo ponto positiva em certos círculos, da iniciação sexual do menino à tenra idade por pessoas muito mais velhas. É o caso do romance Amar, verbo intransitivo de Mário de Andrade, no qual se narram as primeiras aventuras sexuais do narrador com uma prostituta alemã adulta. O romance é, quando lido, relativamente bem aceito pelo público leitor. No entanto, quando o relato dessa experiência é homossexual, as críticas à narrativa assomam-se, como se o primeiro caso fosse em si “pior” que o segundo. Parece clara a posição de que em ambos os casos o que se tem é abuso de menores, não importando o gênero do abusador.

         Conquanto essas pesquisas estejam ainda por fazer, a narrativa de Três porcos pode ser considerada uma excelente introdução à fragmentação, culpa, remorso e dilaceramento resultantes de abusos sexuais, considerados pelo narrador como criminosos.

         O romance de Marcelo Labes, no entanto, não suscita aquela crítica quanto ao gênero do abusador. Narram-se vários episódios de abuso sexual do menino – no momento da narração adulto. A maior parte deles ocorre entre indivíduos do mesmo gênero. As idades são variadas, desde o primo alguns anos mais velho até um adulto supostamente formado, que possui um local apropriado para a prática de seus atos com os meninos e adolescentes que seduz. Nos episódios em que se relatam as experiências infantis, vê-se a aposta dos mais velhos na inocência e na falta de conhecimento de vida do menino-narrador adulto, que entende somente de modo parcial aquilo que lhe está ocorrendo, ou seja, as manipulações, a falta de controle dos desejos sexuais dos adultos problemáticos e a corrupção moral necessária para a atração dos menores – não sem uma crítica à, por assim dizer, “economia do abuso”, pela qual a diferença entre camadas sociais legitima certos “gostos peculiares”, isto é, atos criminosos, dos aliciadores.

         Nos episódios de abuso, como é comum acontecer segundo o que lemos na literatura especializada, a autoculpabilização da vítima é um dos sentimentos resultantes mais frequentes. Ela pode vir conjuntamente a manias de limpeza, melancolia, tristeza e depressão, sendo reprimidas ou não as memórias nítidas dos abusos. Para o narrador de Marcelo Labes, a culpa é o motor subterrâneo da narrativa. Assim o lemos no “Prólogo”:

Há muitos que não sobrevivem, isso é fato. Seja porque os matam seus abusadores – para comoção de muitos e silêncio de outros tantos –, seja porque se tornam vítimas de si mesmos, dando voz a dores inominadas, disformes, mas ainda dores, pois mesmo que não tenha nome, uma dor se sente muito antes que seja possível descrevê-la, como uma dor de dente que progride para uma enxaqueca, como uma enxaqueca que faz esquecer que o dente dói. Uma dor é sempre uma dor, e se não há remédio para curá-la, o doente, cansado, acaba por procurar sentir dor nenhuma. Prazer nenhum também, posto que a morte encerra todos os sentidos. (p. 11)

         O “Prólogo” do romance nos coloca em uma espécie de medias res mental do narrador e forma a base de sustentação, desde o princípio, das reflexões, das ações e dos sentimentos relatados. O substrato emocional já está trabalhado nesse introito e o que o narrador nos demanda é percorrer com ele o caminho repulsivo que nos levará a si.

Pelo bem-escrito dos capítulos somos impulsionados, não sem nos sentirmos terrivelmente incomodados, pela sucessão imagética dos episódios traumáticos. A linguagem, nesse ponto, torna-se rápida e muito vívida, descrevendo quadros e cenas com um teor de real que desperta sensações inquietantes. É possível mesmo enxergar a cena de abuso do Capítulo 4 descrita em detalhes e repugnar os “diálogos” (existe “diálogo” entre abusador e abusado?) sórdidos, tétricos e lôbregos, porque reais e comuns nesses casos. Essa impressão se dá pelo trabalho de frase próprio do romancista, que também é poeta conciso. A sucessão de frases curtas, períodos inacabados e quebras repentinas é acompanhada de um vocabulário pustulento que enoja, arrepia e, ao mesmo tempo, clamando às profundezas sórdidas da curiosidade humana, prende e retém a atenção.

Outra tendência do romance contemporâneo, a divisão do texto em dezenas de capítulos, como curtas cenas cinematográficas, não é negativa no romance de Labes: precisamente o caráter fragmentário da memória traumática, que o narrador se esforça – e fracassa – em dar uma ordenação, justifica a forma adotada pelo escritor. Aliado à fragmentação, frequentes repetições de termos – como “culpa” e a imagem dos porcos – intensificam o poder de transmissão do relato proposto pelo autor e, principalmente, emula a reiteração neurótica do sentimento de culpa da qual o narrador padece durante o relato inteiro.

         Essa culpa é o que faz o narrador despertar outro sentimento, igualmente basilar: a vingança. No capítulo 15, lemos:

Quem diz que se cura escrevendo está mentindo. Quem escreve mente, antes que tudo. Escrevemos para que sintam pena de nós e nos amem – idolatrem, até –, mas a medida de equilíbrio é sempre ignorada, então não é possível dizer se é pena ou amor o que as pessoas sentem por quem escreve. Eu escrevo para me vingar. Porque justiça é um cálculo por demais subjetivo. [...]

Eles têm comigo uma dívida que não pode ser paga senão pela violência, por isso esse texto, esse livro. [...]

Portanto, leitora, leitor, não há o que encontrar aqui senão esse ranço, essa raiva. [...]

Sim, eu sou esse coitado que implora um pouco de atenção e um pouco de carinho. Para mim. Para meus inimigos, os homens que me roubaram tantos anos, para esses eu desejo dor – aquela dor contínua do luto, da perda de um filho, de um irmão – incessante, lacerante e real. (pp. 88-89).

         O processo de trabalho terapêutico é negado pelo narrador. Mais: a própria terapia é ridicularizada pelo narrador como apenas um recurso que a classe média, indefinida, usa para sanar problemas existenciais. O narrador também recusa a maior parte da ajuda oferecida a ele, talvez uma decorrência de desconfiança também advinda dos episódios de abuso. Essa reação – a de rechaçar o afeto oferecido pelos outros – é uma manifestação infantil de uma criança a quem, segundo o narrador, foi negada a infância, devorada por porcos e mosquitos (segundo nos informa o belo Capítulo 13).

         A animalização é a tônica do processo criador do narrador ao tentar trabalhar e ordenar as suas memórias. Surgem animais repugnantes e uma miríade de insetos, a cujas ações o abuso sexual é comparado. A capa física do romance, que mostra um porco cinza, morto ou moribundo, cercado de flores, com uma mosca pousada próximo à orelha do porco, que por sua vez está deitado em um líquido pegajoso de cor de vinho, já é, por si, reflexo do grotesco da narrativa. A imagem, pelo nojo, que é um sentimento que nos aproxima da morte (conforme Martha Nussbaum), traduz um contraste que não é verificado na narrativa em si, pois que o tom cruel é constante do início ao fim. Esse elemento extratextual transforma a capa do volume em parte da criação da ambientação narrativa grotesca que Marcelo Labes pretendeu para seu romance.

A solução encontrada pelo narrador para seu mundo grotesco é projetar em seus inimigos, os abusadores, a razão de sua existência, o que por outro lado não deixa de significar que ele convive com tais inimigos constantemente. Evidente, todos os traumas do passado não foram trabalhados adequadamente, e o narrador recai em um radicalismo que o levará cabalmente à destruição. A culpa que sente, transmutada em vingança ao invés de suicídio, como o indica o “Prólogo”, reaparece em cenas de autodepreciação em que o narrador relata o fracasso de seu casamento com as mulheres. Esse fracasso decorre do constante remoer, talvez inconsciente, dos abusos do passado e de suas ramificações psicológicas (o abuso de drogas, o alcoolismo, o retraimento, o descuidado com sua vida). No entanto, esses episódios, que parecem não haver espaço no romance, deixam explícita uma das consequências do abuso – e de seu não tratamento – nas relações adultas, em especial a (auto)imagem do abusado quando resolve confidenciar o caso à parceira: “Desde que soube quem era Bruno, e isso já fazia um bom tempo, as coisas haviam mudado entre a gente: ela já não me via mais como um homem [...], mas como um aleijado” (p. 117).

         O rumo ao desfecho – que não será comentado aqui – intensifica a sucessão de imagens cruas, de pensamentos cruéis, de representação explícita e linguagem acelerada que culminará em um clímax talvez ambíguo. Pode-se pensar, para o encaminhamento final da narrativa, em um paralelo linguístico (mas não temático) com o romance Deus foi almoçar de Ferréz (publicado no Brasil em 2012 pela Editora Planeta; inédito em Portugal). Em ambos, a linguagem torna o leitor apreensivo e o sufoca, sem que isso seja uma característica negativa: precisamente esse efeito busca reproduzir o pensamento do próprio narrador, que se sente sufocado e afogado em suas experiências traumáticas. Dessa maneira, ressalta-se o trabalho linguístico do livro de Labes: econômico, entrecortado, de léxico simples, que transmite a ideia de incômodo e de inquietação, ou seja, a própria atmosfera do romance criada com habilidade.

         O romance de Marcelo Labes, portanto, é uma contribuição importante não somente para a nova literatura contemporânea em língua portuguesa, mas também para chamar a atenção para um assunto pouco trabalhado na literatura de ficção e, de maneira abrangente, na cultura ocidental. Sendo o segundo romance do autor, Marcelo Labes é indiscutivelmente um forte candidato a se tornar um ponto de referência no romance contemporâneo.

 

Marcelo Labes é brasileiro nascido em Santa Catarina. Seu primeiro texto em prosa, Paraízo-Paraguay (2019, Caiaponte Edições), recebeu a segunda colocação no importante Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional, demonstrando o reconhecimento de sua potência literária. Na poesia, o autor foi finalista do Prêmio Jabuti com Enclave (2019, Editora Patuá).

Rafael Rocca dos Santos é formado em Direito e Letras (alemão/português), ambos pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP/FFLCH-Bauhaus-Universität Weimar (Alemanha). Doutoramento em Estudos Literários e Culturais na USP/FFLCH sobre literatura de testemunho do Holocausto. Tradutor do inglês, alemão, latim e espanhol. Edita a seção Transmargens da Revista Mallarmargens. É Vice-Diretor da Casa Brasileira Fernando Pessoa

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Paginação:

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