ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Calí Boreaz


9 poemas de Calí Boreaz + 1 videopoema do livro tesserato (Caos & Letras, Brasil 2019/2020)    

 

 

ainda sou muito nova para escrever este poema
percebo que a melancolia é um excesso
— de espaço e de tempo
percebo que sou dos cavalos que precisam
não do toque do chicote ou mesmo do sangue a rachar os ossos
mas do próprio desaparecimento
— para iniciar o trote
percebo e procuro seguir o conselho de ferlinghetti
ouvir meu próprio respirar e, de ouvido no chão, o girar da terra
depois, desaparafusar as portas mas não
jogar fora os parafusos
que eu ouça bem isto: não jogar fora os parafusos
não destruir o mundo se não tiver algo melhor para colocar no lugar dele
— é que por enquanto não tenho mesmo nada melhor em mente
estou aqui (onde mesmo?) com um saquinho de parafusos
pendurado ao pescoço (e é pesado)
mais uma vez, mais uma vez
o dedo suspenso a um milímetro do botão da bomba
e não estou conseguindo interpretar os sinais
sou ainda muito nova para escrever este poema
mas já sei que o canto dos pássaros é de desespero
também já percebi que saber não chegar é tão
bonito quanto: chegar
de boniteza estamos bem, lá isso estamos
the boniteza is the new felicidade
a cidade anda medindo meus passos
de lupas nas pontas dos tentáculos
de cima de baixo dos lados e na diagonal
sobretudo na diagonal: a luz mesmo a raspar
mas sem aderir à minha pele
que é real
que é real
ter medo é ainda desconhecer
corrijo: ter medo é ainda precisar conhecer
eu não estou conseguindo interpretar os sinais
corrijo: talvez não existam mesmo papéis dobradinhos atirados do além
é só isto: enquanto uso palavras, as palavras
usam-me
enquanto pergunto à montanha, a montanha
pergunta-me
enquanto continuo aqui, o aqui
continua-me
ah, ouve bem isto:
ver tudo bonito é ter descoberto a beleza das coisas feias
mas hoje eu estou cansada
então, dou o sorriso dos miseráveis e canto como quem desiste secretamente
não nos iludamos, meus vizinhos:
acabaremos sempre um pouco antes do fim
serei sempre muito nova para escrever este poema

 

 

 

 

 

 

mamihlapinatapai

 

em russo, há uma palavra específica para o afeto que se tem por alguém que se amou. em tcheco, há uma palavra para um certo tipo de angústia diante da própria mediocridade ou falta de habilidade (lembro de kundera falar dele). na escócia, parece que há uma palavra para o tique do lábio superior que indica a antecipação da alegria. em albanês, há alegres 17 e 27 palavras respectivamente para sobrancelhas e bigodes. em romeno, há sei lá quantas que significam, todas elas, neve, mas cada uma para especificar um certo tipo de neve, que por aqui (ao sol marinheiro da língua portuguesa) não distinguimos por desnecessidade. e se o russo olha para o amor antigo, veja bem: o japonês inventou uma palavra para um sentimento de pré-amor. em yagan, idioma indígena falado por um povo da tierra del fuego, mamihlapinatapai é aquele olhar trocado por duas pessoas quando ambas querem que a outra tome a iniciativa de fazer algo que ambas sabem que querem mas.

mas: o que é a coisa menos a palavra? a palavra menos a língua? isso que se percebe num repente e não tem esqueleto nem contorno para apoiar sua existência — não existindo, pode ainda resistir? se a língua nos funda a humanidade, e se há quem saiba que neve não é simplesmente neve, como amor não é simplesmente amor, assim como a saudade não é só uma falta, e calunga não é só saudade mas também abismo e deus... como posso eu

dizer algo agora daqui de onde estou?


 

 

 

 

 

[dum lugar íntimo do espanto]

 

no vazio pachorrento que te fura
por ali passa a centelha
e enquanto passa
dilata-o

janelitude

 

ei ei você
tu, sim
vem cá
apoia-te aqui
no parapeito deste poema
descansa um pouco
posso servir um café, queres?
espera, não vás
pode ser chá
chuva
chocolate
também prefiro
também me acalma
isso, apoeta-te aqui
não bate o sol aqui
aqui é sempre meio madrugada
meio lusco-fusco
sim, também estou em trânsito
embora esteja aqui à janela
mas repara ela não tem vidro
porque isto não é uma casa
isto é um poema
espreita aqui
vês? não há móveis
também não há portas
por que eu chamo isto de janela
então?
boa pergunta
então fica mais um pouco
pousa esse peso
desamarra o cabelo
oi : )
eu reparei logo em ti, sabes
estavas a caminhar com muita pressa de
nada
eu também ando assim
e depois às vezes entro num poema
há vários vazios por aí
nunca tinhas reparado?
é porque nunca tinhas parado
se não se parar como é que se vai reparar
está pronta a chuva
pronto
chuva e chocolate é receita certa de parança
dizes tu portanto que
se não há portas cá dentro
não pode isto ser uma janela pra fora
pois não existindo assim
o próprio dentro e o próprio fora
não haveria precisança de janela
o próprio conceito de janela se tornaria absurdo
sem o dentro e o fora que a condicionam
à função de ser janela
isso está tudo muito certo
do ponto de vista arquitetônico
mas já te disse — isto
não é arquitetura
isto é um poema
achas que só o ramo é que está na árvore?
a árvore toda ela está no ramo esquartejado
assim como um país inteiro está no exilado
e a vida toda se deixa conter num segundo de ponteiro
assim como o universo cabe no teu cabelo
assim desamarrado
então
não são só o dentro e o fora que têm uma janela
a janela também tem em si o dentro e o fora
mesmo que neste preciso momento
a gente já não saiba quem
está fora e quem
está dentro
e por isso é que isto
é a janela de um poema
serve apenas pra parar
pousar o peso
desamarrar o cabelo
descansar um pouco
tomar chuva e chocolate
e prestar atenção nos deuses que
não te prestam a menor atenção

 

 

 

 

 


abismo

 

à beira do abismo sentei olhos
e pedi-lhes que me contassem da vista
eu não fui — mandei só os olhos
que aos olhos não há nada que resista
mas não me voltaram os olhos
(há quem os tenha visto fecharem-se)
agora sem olhos nem procurá-los posso
um dia se me voltarem os olhos
devem me dar por conselho:
contra o abismo de nada servem olhos
contra o abismo põe os olhos no espelho


 

 

 

 

 

desaforismo

 

horizontalmente,
o frio está sempre a aquecer \ o quente não pára na quentura
o dia cada vez mais dia \ cada vez mais atinge \ a noite
a doença é um processo de cura \ a sanidade, de loucura
a solidão mira na multidão \ e vice-versa
e se há uma certeza, é a da calma que vem depois do desespero
há um (inconcluso) equilibrismo (quântico) que busca o zero — de tudo
e depois o próprio zero é transistor para um outro deslimite qualquer
verticalmente.
e aqui, no nadir do nada
na calada dos cálamos do pó do éter
é quando começamos a definir e tudo começa a deixar de fazer sentido
como quem encontra e nisso não conseguisse mais situar-se em relação a isso
mas diz que deixando o oco fermentar, e fermentar, há quem
se encha de edifícios
e ao contrário do contrário sempre a contrariar
— o que, veja bem, faz pensar que amar e não amar é,
no fundo do fundo sempre a afundar,
a mesma coisa


 

 

 

 

 

balada dos vadios quadridimensionais

 

estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar

: na visão do pássaro a passar entre os fios da fiação-elétrica-sobre-azul
: na janela do 8º andar por onde cai lentamente alguém — em forma de nada
: no momento em que uma cor se apaga e outra se acende no semáforo
: no vidro a emudecer o frenesim do lançamento na livraria-café
: na fé quanto à necessária inutilidade de toda a poesia ali contida
na medida em que ela é
o contributo humano à infinitude do mundo — e para que serve
o infinito

eu estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar

: na intermitânsia do letreiro a anunciar o café curativo da ansiedade
: na busca alheia do gesto que livre a palavra do livro
: no suave compadrio entre o que arde em cada coisa da cidade
: na cidade como arte do encontro de linhas geométricas mas não de gente
: na tampa do esgoto que não explode pouco antes que eu pise nela
: no fogo a comer a outra parte da cidade enquanto esta sofre de esgotamento tampado, enquanto eu

continuo muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar

: na rasteira balística dos bilhões de sapatos ritmados a desarrumarem-se rumos
: na consciência da carteira vazia de notas e moedas e mesmo do que as precede
: na súbita e esmagadora surgência de um prédio abandonado
: na súbita e esmagadora percepção da beleza que há num prédio abandonado
: no que há de súbito e esmagador em perceber que no abandono assim muito assumido nos livramos de quase tudo e quase nada nos falta,
só um pouco de ar, e por isso é que eu

ainda estou muito compenetrada na imagem suspensa de um hipercubo a girar

atenta, a ver se a aresta-âmago a-que-brilha pára de frente pra mim
parece simples mas estou há oito mil anos nesta vã guarda
e depois não sei — penso que brilharei e esmerilharei todas as formas
da leveza
e da inutilidade inaugurais
penso que até sou capaz de pular carnavais (outra vez)
assim como quem se expande a partir de um 8º andar
levando consigo os pássaros os semáforos
os estilhaços dos vidros — e da poesia
as tampas dos esgotos    pelo ar
e os passos dos funâmbulos finalmente
a desabar
e os fogos todos soltos
a confiarem-se as danças dos grandes vazios dos grandes lugares
o café os livros o poder de compra
recalculadamente
a brincarem de avoar com as crianças
ah, depois não sei — penso que a cidade toda será
não o chroma key do artista mas
a carótida das profundas crianças que nada sabem da língua e
só querem o abandono da cambalhota no ar, e rir
e rir demasiado
.
o que sei é que no desmazelo poético da cidade
o hipercubo continua a girar e eu, aqui à margem de tudo,
largar-me!
não me posso distrair
é que se não tivesse já parado, ainda podia parar
.
com uma vénia ao equilibrista
está tudo justificado


 

 

 

 

 

geotectónica

 

existimos porque alguém
pensa em nós
não o contrário
.
mexer-se por dentro da cabeça
até a combustão
não te dá uma partícula de existência
pelo contrário — tira-te
quanto mais as coisas pensadas
existem
ao pensá-las
cada vez mais adias
a tua existência
inclusive se quiseres desaparecer
do mundo o que podes fazer é
pores-te num canto a pensar
só a pensar
/ solidão virá de solidificar
existências — outras
às vezes o passado é sólido
num presente pastoso
às vezes são os presentes paralelos que
demasiado concretamente
se assemelham aos telhados confusos
que olhamos da janela
num lugar oblíquo — íntimo — da cidade
quando olhar pela janela se torna propriamente
um lugar
e o porvir que às vezes perpendicula
ao posto burocrático
como um cínico regato, assim fugidiço
quantas vezes
não sentiste os pés levemente molhados de
um futuro que nunca existirá?
nunca ninguém pensou nisso   nos estados
da imatéria?
também há gente estonteantemente rochosa
que não arreda pé de nos furar o ar respirável de
ofegante existência \
se quiseres desaparecer
do mundo o que podes fazer é
pores-te num canto a pensar
só a pensar, dizia eu
enquanto isso vais ver como vais
mirrando
e (sisifiana mente)
en volvendo a ti mesmo
chega uma hora em que vais evaporar
num interstelar sopro mudo
mudo ainda por cima:
ninguém vai re parar
é a chamada
— desistência
ao contrário, quanto mais
pensarem em ti mais
real serás mais
acesa tua constelação de partículas
— de existência
.
mas e quando duas pessoas estão
cada uma em seu canto
apenas pensando
uma na outra?
aí acontece o fenómeno buraco negro
(onde o tempo pára e o espaço rara)
nem existes
nem desapareces
insistes

 

 

 

 

 

balada ôntica em que a dada altura me cruzei com
Matryoshka e Marelle

 

desde a concepção (o ser dentro do corpo dentro de outro corpo) ao nascer (o ser dentro só do corpo) à infância (o ser dentro do corpo protegido num lugar) à adultez (o ser dentro do corpo desprotegido em tantos lugares) ao exílio (o ser dentro do corpo livre do lugar) ao momento de morrer (o ser livre do próprio corpo), está-se sucessivamente a des-ser — a sair de dentro de envoltórios mais ou menos duros, caindo no mundo, caindo em si, e debaixo da terra. o corpo, o penúltimo dos envoltórios. é que a concepção, como diz o nome, criou um conceito — e se criou um conceito é porque havia algo que irradiava e precisava ser contido. foi assim que, um dia, se entrou dentro do ser — o primeiro logo último envoltório. sem paredes significativas (= cativas de significado), então, nada seremos. puro brilho, descontido.

 

ressalva-me o que ainda é — está contido — em mim, cheio, por isso, da obesa ambrosia conceitual, que há lúcidas vezes em que o plano último de descontenção se dá antes do penúltimo. chamam-lhes os loucos, des-sidos de todos os conceitos mas ainda dentro do corpo. a loucura é a única libertação possível antes da morte.

ou — se muito intensos —
1) a chuva, e o espanto perante a chuva
2) o amor, e a excitação perante o amor
3) a poesia (um pouco antes de ser escrita), e a capacidade, mesmo sem chuva e sem amor, não de estar em silêncio, mas de ser o próprio silêncio, esquecido, por momentos, da memória que mede os homens, e as coisas, podendo, assim, inaugurá-los


algures depois \oscilografia

 

 

 

(foto de Júlia Bicalho Mendes)

 

calí boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direito, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco. Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua e literatura romenas e tradução literária. No virar de 2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e ao ofício do teatro. Na literatura, traduziu do romeno os romances O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal], de Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, Brasil], de Mihai Zamfir. Seu livro de estreia, outono azul a sul [ed. Urutau, Portugal & Brasil, 2018], é um relato poético do exílio e da clandestinidade, e tem posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira. calí integra a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle [2019] com o conto islandeses. Em 2020, surge, pela Caos & Letras, seu segundo livro de poesia, tesserato, uma reunião de tentativas poéticas acerca da suspensão e do deslocamento na imobilidade. Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, portuguesas, galegas e mexicanas, bem como em exposições  de Portugal e da Índia. Criou e apresenta o programa de poesia atual ainda somos muito novos para escrever estes poemas. [casas virtuais: caliboreaz.com | instagram.com/caliboreaz]

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Colaboradores de Agosto de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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