ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Carlos Alberto Gramoza


Passos oblíquos    

TRANSFIGURAÇÃO

 

Desperto, e não ouço mais
Música nenhuma, está tudo calmo.
A madrugada volta:
Ou acorda outra vez. Umedecida
De orvalho
Salpicado de pingos de luz
De estrelas cadentes
amadrugadecidas.
A madrugada acorda outra vez:
E a voz grossa e rouca do velho
Isaías: que atravessava a rua
Para o outro lado da calçada
E fazia-me todo encolhido na rede,
Num quarto, na casa de minha avó.
Na rua do Azeite. Eu criança,
Meus primos vizinhos e as outras
- Olha o velho Isaías...diziam-nos
Sempre, em avisos que nos metiam medo....
“O velho Isaías comia meninos chorões,
zuadentos e que não queriam dormir”. – Olha o velho
Isaias! Diziam-nos sempre ...e todos nós
(crianças), tínhamos medo da voz grossa e rouca do velho Isaías.
O velho Aureliano, do morro da Cruz,
Contador de estórias de Trancoso;
E os seus personagens fantásticos.
Uns nos tomavam de encantos
Que vinha de encontro:
E tomava conta de nossas imaginações.
E com os quais sonhávamos. De outros achávamos graça.
E de outros tínhamos medo:
Quando ficávamos sós
No quarto, à hora, na qual íamos dormir.
Balbino, Raimundo Popota, João Mamão, Luiza Miguel,
Doca Pega-ema, Maxi, O Tim, Zefa Caixa, Benedito orelha
De Coelho, ...e outras vozes mais.
São agora partes do silêncio
Que escorre, manto do tempo povoando a madrugada.
Fixos silêncios dessas vozes:
Sobre as suas sepulturas,
Desdobradas nos cemitérios;
No municipal
E São Gonçalo de Amarante.
Ah! O cantar desses galos,
Anunciando, marcando
Os instantes do amanhecer.
Preciso ouvir mais cantos de pássaros nativos:
Saltitando no meu silêncio,
E na minha solidão. Que dolorido parto crucial de outro amanhecer
Que espero: para o qual querem os meus olhos descerrar.
Nesse bem-vindo amanhecer
Fluindo paz por todos os meus poros;
Campeando esses universos amotinados, em seus diversos matizes
Diferentes, humanos e pastorais nesses suspiros amanhecentes.
Ah! Essas madrugadas, encantos
De estrelas em orvalhos sutis; orvalhando as esperanças. Ah! Essas vozes aterradas de silêncios, em locais escuros que nos aguardam.
Nas casas de seus dependentes: os seus retratos vivos guardados,
Ou pendurados, ladeados nas paredes:
Ou (tão) apenas
Na memória e no coração.
Ou será que estão noutro mundo,
Noutro tempo: ora no viver do seu dia-a-dia;
Ora entre lembranças do tempo passado aqui.
Chiados dos grilos, e outras vozes...
Vêem no silêncio desse tempo
Que foi passado (aterrado). Ressonando na tona do curso desse hoje
Com os ruídos de outras lembranças.


 

 

 

 

 

FÊNIX

 

A terra
E suas mãos que a lavram.
As sementes e suas mãos
Que as lavram na terra.
A mesa
E suas mãos que a põem,
Farta alimentando
Muitas entranhas:
E a sua parca.
São poesias lindas
A serem valorizadas
Em elevadas recompensas.
A terra, a lavra
As sementes frutescidas
Mesas fartas
Postas pelas suas mãos
E a sua parca:
Que permanece e sobrevive.
Aflorações duradouras:
Poesia – Fênix.

 

 

 

 

 

 

CINGIDOS

 

Tua pele parece com a noite
E na tua boca da noite
Os sorrisos
Da lua cheia clareando...
Luzes solitárias da cepisa
Bancos da praça
Bate-papos
Músicas chegando do bar
Do hotel pousada Velho Monge
Músicas apaixonadas
Paixões e cachaças
Teus sorrisos dos galhos
Nossos abraços da noite
Com o rio. Abaixo e acima
Tu és a terra morena brasileira:
Mulher, amante
Terra – mãe natureza.
E begônias invisíveis
Equilibrando nossas temperaturas.
Gostosos momentos
Na beira-rio dessa cidadezinha:
Sazonados
Por essas ventilações suaves,
Com esse gosto que bebo
Na tua boca...músicas que chegam;
E o rio fluindo
De mãos dadas com a noite tenra.
Depois tem os meus olhos,
As cismas concentradas
Do luar sobre a cidade,
Seus becos e ruas vazias
No manto da noite solitária
Em seus silêncios cingidos.
Essas casas desdobradas
Vistas dos morros entre as luzes.
A noite escorre lenta como o rio
E as contrições...
O rio
O silêncio
Calmas
Solidão
Calor imenso
 - cingidos.
E o ressonar...
E a lua sobre a cidade
- lua cheia
Que eu queria de venturas:
No coração
De todas as criaturas.

 

 

 

 

 

 

NOTURNO FLUVIAL

 

Noite, abóbodas das folhagens
Das arvores envolvidas nas margens.
As torres da Igreja
De São Gonçalo de Amarante: e a casaria
Concentrada à sua volta.
Sadias areias
                   Coroa do Parnaíba
                   Luzes da cepisa,
                   Nas suas águas refletidas
Ventilações suaves:
Músicas das barracas chegando nelas:
Verão de julho
Lâmpadas acesas nas barracas;
Lembram lamparinas ou candeeiros,
Acesos lá dentro
                   Nas balsas de buriti
                   Ancoradas
Desdobradas na beira
                   Na margem direita do rio.
                   Colados nas areias,
                   Corpos em ardências e gemidos
                   De quem procura
                            No sexo
Em delírios o seu orgasmo.
Bate-papo, ruídos dos barcos na travessia;
Silêncio, os astros refletidos
                   Nas águas do rio
A lua parece vir na flor das águas:
Fluir...esses sopros suaves
                   Pelo dorso do rio sereno
                   E por mim.
Nos cingindo esse gosto
Dessa paz boa, nessa canção
                   Que escorre nesses sopros leves.
Tocando o tempo e o silêncio:
Entre uma gelada
         Ou uma quente.

 

 

 

 

 

 

CREPÚSCULOS

 

Essas plantas me abraçam
Com os seus galhos: braços
E me afagam com eles, e ventos leves
E me beijam com os seus lábios.
E me exalam deles o perfume de suas flores,
As paixões obcecadas, ou precisamente
Loucas ou serenas vez em quando,
Definidas ou à toa.
Viver se quer, direito se tem
Viver não é fácil, querer a morte também.
Estou na praça Padre Vírgilio,
Lá um tanto distante os tambores umbandistas
No silêncio, no marasmo dessa cidade
Na noite dessa sexta-feira negra:
Na tenda as horas se ativaram.
Amarante racista, classista e preconceituosa
Em sua solidão de burguesa reacionária;
Naufragada em loucas fantasias:
Outra D. Maria I, rainha louca de Portugal.
Os tambores continuam...
Incomodam muito, perto ou longe dalí.
Pois das suas óticas em torpores;
Envolvidas em crespúsculos:
São apenas zoeiras, barulhos, exotismos.
Que incomodam com os grilos.
Os tambores continuam...renascendo esfuziantes
Os corações naquelas tendas, misturando
As suas batidas às batidas dos tambores. E cantos.
Amarante indiferente, orgulhosa solitária
Orgulho de ferro: com as suas ruelas
Sem probabilidades:  Amarante / nordeste / Brasil.
Naufragados no fundo do fundo dos seus medos
Seus gritos loucos se perdem
Nesses silêncios que nascem deles.
 Amarante / nordeste / Brasil.
Com seus medos de mergulhares
No fundo do fundo
Das águas de suas semelhanças,
Nos sopros de emoções
No rio invisível, cortantes como navalhas.
Afogados se atracando
Com outros afogados
Em seus desesperos de salvamentos:
Nesse navio, que nessa tempestade
No bater irado das vagas, se dilacera.
Os tambores ganham a madrugada
E eu gosto de ouvir os tambores:
Evocam os meus antepassados
E me colocam em contato, tácito com eles,
Me levam, e elevam-me
Às suas almas vivas me envolvendo
Num fervedouro vivo por meu ser.
Envolvendo-me com seus braços:
Galhos das plantas
E ventos em carícias leves
E me beijam com seus lábios,
E exalam eles o perfume,
De suas flores estremes.
E dão os seus ventres
Para a fecundação de renovos
Para o nascer de outro tempo
Que tem como o fim da gestação:
O parto, o chegar da paz
Em sua luz forra, sem   marca
Desses ralos espinhos.


 

 

 

 

 

OS ALÍSIOS

 

Quem decifra
As partituras desse silêncio?...
Concentrado nessa noite,
Desde o entardecer.
Que dedos regem essas notas
Dessa quietude do entardecer.
Músicas dolentes na Igreja matriz
Entoadas no tempo
Na sonata maior do seu silêncio:
Que escorre pelas horas
Na noite paralisada
Com ruídos de lembranças.
Cadê aqueles circos, aqueles parques,
Que passavam dias...
Os amores da adolescência...
As balsas que desciam lentas
Como nuvens brancas
Fluindo pelo céu azul.
Quem rege os chiados dos grilos
Nessa noite?...em seu silêncio
Ruas e becos vazios
E casas dispostas os ladeando,
E a correnteza do rio...
Que dedos a teceram?...
Que dedos regem a música
Dessas águas...embolada por gargarejos
E murmúrios indecifráveis
E com a voz do vento
E do vento nas árvores
E das gentes das suas margens
De quem esses dedos?...
de Oxumaré, de Iemanjá, Oxum,
de Inaé ou Orugan?
Quem rege invisível essas notas:
Ora aquelas silenciosas
Ora essas sonorosas.
Mas de repente os alísios...me deitam
As suas forças, sempre recobradas:
E me sacodem sempre, como fazem com os
Galhos...e apontam fortes e tenros;
O seguir determinado noutro tempo.
Há sempre em mim o soprar
Desses alísios: e sigo
Com eles a longa estrada.
Mas os alísios convincentes
Me despertam outra vez
Para o dia que há de clarear.
E aí os alísios me despertam
Nessa paragem: essa paragem
Em que na qual, meu barco outra vez
Levanta âncoras: é novamente o presente.
E outra vez essas lembranças,
Vão dos meus olhos ficando para longe...
Com as margens; dos meus olhos: ante
O presente persuasivo, em que se adentram
Se arremete em seu mar
De descompassos ejaculados,
Que inevitável, me deixo alcançar
Pelas suas vagas velozes, tresloucadas
Em outras incursões
Levando multidões...
Mas os alísios despertam outra vez
Em mim, esse dia que há de clarear.

 

 

Carlos Alberto Gramoza Vilarinho - Nascido em 08 de Janeiro de 1958.

 Nascido em Boa Esperança – Distrito de Amarante, Piaui-Brasil.

- Publicações: “Tempos Perplexos” – poesias
                     “Passos Oblíquos”
                     “Ressacas” – Poesias

- Participou da antologia “Baleia Verde”: poesia ecológica Tv Educativa produtora intervídeo e Editora Shogum Arte Rio de Janeiro;

- “Grito, logo existo”: poesia protesto organizado por Nilto Maciel – Brasilia-DF;

- Colaborou com a revista  “LB Revista da Literatura Brasileira” – São Paulo; 

- Publicações em outras revistas e jornais.

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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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