ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Adriano B. Espíndola Santos


Expurgo humano    

A aparência era uma capa desgastada, misturada ao dito monturo, que chamavam de casa. E, se aí esbarrasse um cidadão de bem, por descuido ou mesmo proposital, logo denunciava à polícia, que, nalgumas vezes, enfrentando o receio por puro divertimento, vinha com um cacetete elétrico na mão para dispersar. Só dona Jandiara se colocava no meio, pois que, sendo síndica do edifício Santa Rita, muito caridosa, como se descrevia, e temente às coisas do alto, permitia que vulneráveis se abrigassem debaixo da marquise, contanto que não houvesse algazarra.

Certos policiais, sobretudo os antigos, sabiam da energia da antiga síndica e evitavam a fadiga; mandavam, aos descontentes, que procurassem falar com a responsável pelo condomínio, que não teriam nada com aquilo; que era área privativa.

Havia uma abrigada, em especial, de cara flácida, supostamente surda, que largava risos aos passantes. Ainda que não possuísse dentes, ria com os olhos. Dançava, na esperança de ser notada e ganhar um trocado, no pano estendido no chão. Jandiara a conhecia e, por achá-la muito magrinha, além de passar sermões – que não usasse droga; que não bebesse; que não cheirasse cola, mesmo sem nunca ter presenciado tais fatos –, trazia um bocado de alento: frutas, sanduíches e até marmitas. Ou seja, prato cheio para a agitação, porque, um mais revoltado com a mamata no país, puxava as comidas e os trapos e jogava na caçamba do lixo, logo em frente; “para acabar com o bem-bom, com a facilidade de morar na rua e emporcalhar a cidade”.

Os condôminos, então, dividiam-se em turmas: os que apoiavam a síndica, pensando que era o mínimo que poderiam fazer, já que o estado os relegava àquela condição; e os que repeliam a atitude, por julgarem ser uma pouca-vergonha “manter aquele povinho”, “ceder o espaço privado, que conquistaram a muito custo”, e por encararem tal situação como um caso severo, alegando que a síndica estava decrépita, alucinada, “mal-amada”; “fazendo cortesia com o chapéu alheio!”. Felizmente, a divisão não incomodava Jandiara, que, muito experimentada no trato pessoal, tendo sido por longos anos promotora de justiça, ora aposentada, sabia medir o alcance e a potência de sua fala e de seu passo firme. Ademais, não se atreviam a tirá-la do posto, porquanto, mesmo com as desinteligências, não havia ninguém com experiência ou paciência para cuidar do que denominavam “bomba”, prestes a explodir – ou implodir, por força dos nervos deteriorados.

Como sempre, a abrigada, que a ela daremos o nome de Dalila, passaria incólume pela rua paralela ao comércio; não fossem as dores brutais na barriga, que a faziam gemer de maneira selvagem e irresistível.

No ato, juntaram ao redor condôminos e passantes; curiosos e fuxiqueiros. Apontavam. Queriam falar mais alto, determinar a razão. Um senhor de paletó, gravata encoberta pela espessa camada de pele do pescoço, disse, convicto, que era frescura; que estava de mimimi, para angariar alguma cortesia; que vivia ali na porta se fazendo de morta, para melhor passar. Outro, tipo ciclista, pronto para a corrida, falou que queria mesmo chamar a atenção; que estava bêbada ou drogada; que, se fosse verdade, era bem-feito, para aprender. Já uma senhora vistosa, com roupas aprumadas e coque no cabelo; com cara de pregadora, arremessava-lhe todas as pragas e bênçãos, baralhadas: “Isso é o demônio nos couros! Sai, desgraça, libera esse corpo maldito! Volta para as profundezas do inferno!”. E um policial, a cinco metros, admirava e ocupava o tempo com o insólito, contando que, “infelizmente”, não podia fazer nada: cruzara os braços, irremediavelmente cerrados, como a sua cara.

Até que o grito derradeiro, gutural, arrebentou tudo que havia por dentro. Saltou fora, suportando a carga do primeiro apartamento, uma bola de carne compacta, imóvel. E, logo, emendou no choro da mãe. Jandiara pedia passagem: “Saiam, seus imundos; urubus! Deixem-na em paz!”; e se colocou em sua frente, uma barreira protetora; esvaía-se em lágrimas de felicidade. Calaram-se, temendo a agressividade de uma senhora descalibrada. Porém, sem esperar sequer uns dois minutos, o senhor de paletó, como se houvesse faturado o grande prêmio, com dedo em riste, questionava os presentes: “Não disse?! Não disse?! É frescura! frescura!”.

 

 

Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor dos livros Flor no caos, 2018 (Desconcertos Editora), e Contículos de dores refratárias, 2020 (Editora Penalux). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados nas Revistas Acrobata, Berro, Brasil Drummond, dEsEnrEdoS, Diversos Afins, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mallarmargens, Mbenga, Mirada, Pixé, Poesia Avulsa, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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Paginação:

Nuno Baptista


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