ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Pelos vastos campos do saber: leitura de Dias portugueses e outros, de Edgard Pereira    

 

Ao ler o diário de um homem de letras, além do prazer intelectual de encontrarmos as muitas referências literárias, há gratas surpresas que nos revelam o conhecimento do humano, no fluir da temporalidade. Se, como se lê nesta obra, “a natureza essencial da literatura lhe é emprestada por outros campos de saber”, o leitor é agraciado por poder compartilhar de uma boa parcela de dias abastecidos por variados saberes.

 

Publicado em 2017, pela editora Suspiros PS, de Belo Horizonte, Dias portugueses e outros, de Edgard Pereira, abrange os anos de 2014 a 2017. O autor, mineiro de Jesuânia, já havia vivido alguns meses em Lisboa, no cumprimento de seu doutoramento em Literatura Portuguesa. O diário principia com o retorno do professor e escritor a Portugal para duas semanas de férias com a esposa e dois filhos adolescentes. A rigor, seu compromisso maior foi o de lançar seu livro de ensaios Arquivo e rota das sombras. Embora sejam poucas as datas referentes à presença do escritor em Lisboa e Porto, a cultura portuguesa perpassa por todo o livro, inclusive em alguns detalhes ortográficos.

 

A admiração pelo país é patente nestas observações: “Em síntese tosca, os principais traços da sociedade portuguesa podem ser alistados: a harmonia entre passado heroico e o presente, reconhecimento da importância da cultura, eficiência do sistema de transporte público, segurança pública, respeito à dignidade das pessoas, eficiência dos aparatos de estado.” (5.05.2014, p.25). Ao caminhar pelas ruas do Porto, as suas impressões são mediadas por obras literárias: “Algumas ruas lembram recortes do casario de Ouro Preto, com uma tonalidade mais escura, de granito cinzento. Eugênio de Andrade afirma, no livro A cidade de Garrett: ‘no Porto, entre a Sé e a Ribeira, as casas se empinam umas nas outras como os acrobatas no circo’. Descer as calçadas requer botas de couro. Não resisto a outra citação do poeta Eugênio de Andrade: ‘Contemplava a cidade das pontes pela última vez, envolvida por lençóis encardidos e uma névoa que subia do rio para lhe morder o coração de pedra.’” (23.04.2014, p.14)

 

O mesmo sucede ao percorrer Lisboa, de tantas reminiscências ecianas: ““Visitamos, na parte da manhã, a Praça do Príncipe Real, em cujos arredores Eça de Queirós situa o enredo de O Primo Basílio. Para qualquer brasileiro, conhecer Portugal representa a possibilidade de se deparar com as imemoriais raízes do passado de seu país. Apesar das idiossincrasias que marcam as duas culturas, a especificidade de contingência e do destino de cada uma, não há como ignorar as amarras profundas que perpassam o percurso dos dois países.” (29.04.2014, p.21)

 

Pelas páginas do diário, há o registro sobre vários autores portugueses, como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José Terra, Vitorino Nemésio – cuja obra Mau tempo no canal provocou em Edgard o encantamento tanto pela linguagem quanto pela história e atmosfera dos Açores. Há o registro da morte do poeta Herberto Helder, no dia 23.03.2015. Uma nota curiosa é a de que o poeta Miguel Torga esteve na cidade mineira de Leopoldina entre 1919 a 1925. Caso fosse meia década antes, teria conhecido Augusto dos Anjos, que lá morou e faleceu em 1914.

 

Universitário na época da ditadura militar, anota que sua geração foi impedida de extravasar sua potencialidade e “viu-se forçada a se moldar a um amadurecimento forjado por uma forte sensibilização em face das inevitáveis mudanças históricas. A leitura de filósofos e teóricos impôs-se como forma de forjar um lastro de metas e convicções.” (15.06.2014, p.29). Em sua formação intelectual, revela seu apreço por Deleuze, Goldmann, Lukacs e Foucault. Há algumas páginas de caráter ensaístico, como na abordagem que faz do romancista chileno Jorge Edwards, autor de O inútil da família.  Demonstra vivo entusiasmo por Lúcio Cardoso e seu livro A luz no subsolo. E anota: Descubro, nos romances de Lúcio Cardoso, traços que depois seriam evidentes na ficção de Clarice Lispector: o gosto da análise, o interesse pelo detalhe e a sutileza de linguagem”.(03.06.2015, p.76). A propósito de Clarice, além de realçar o romance O lustre, comenta que recebera dela um bilhete malcriado, por ter escrito uma resenha sobre ela e Wander Piroli, colocando o nome do contista mineiro antes do dela…E, das leituras e releituras, não esconde sua decepção ao retomar a novela Cleo e Daniel, enquanto o conto machadiano “O segredo do Bonzo” lhe traz sabor inédito.

 

Algumas passagens são hilárias, trazendo alguns casos com escritores. Por exemplo,pintores que trabalhavam no apartamento de Paulo Mendes Campos achavam que o escritor era datilógrafo; Graciliano Ramos rasgou a cópia única de um conto inédito de Joel da Silveira, como demonstração de sua crítica literária. Há uma divertida passagem envolvendo Edgard e Caetano Veloso, que o convida ao camarim, num show em Belo Horizonte. Mas há registros tristes, com referências às mortes do cantor e compositor Vander Lee, do deputado Eduardo Campos, que era filho do escritor Maximiano Campos, autor do romance O major Façanha. Certas datas fúnebres são evocadas, como os dez anos da morte de Lúcia Machado de Almeida; os quatro anos da morte do poeta e ensaísta Affonso Ávila. E há considerações sobre ilustres autores mineiros como Murilo Rubião, Wander Piroli e Oswaldo França Júnior, “admirável amigo e incentivador, sempre solidário aos escritores.” Ao comentar a morte do romancista baiano João Ubaldo Ribeiro, observa: “Lembro um comentário de João Ubaldo, em crônica escrita à época do mensalão: ‘Lula não sabia nada. Não sabia os pormenores, sabia os pormaiores’.” Por sinal, o diário contém informações  de fundo histórico que culmina com o impeachment de Dilma.

 

Em meio a reflexões sobre envelhecimento, solidariedade humana e provisória inapetência em escrever ensaios, há o cotidiano do autor, entrevisto em situações nada intelectuais, como num jogo entre Cruzeiro x River Plate, pela Libertadores da América, no qual pai e filho tiveram que ficar fazendo boletim de ocorrência na delegacia do Mineirão, devido ao furto de um celular. Há o registro de viagens a São João del Rey, Tiradentes, Campinas, Pará de Minas e Pitangui. O autor comenta a vez em que passou no concurso da UFMG, superando concorrentes aparentemente mais notáveis. Cita uma lesão no joelho e não omite problemas de família: “Que conselhos dar a um sujeito de 70 anos?”. Irrita-se com erro do repórter de TV, que usa incorretamente o verbo ‘deter” na frase “Policiais deteram menores com drogas”, justificando-se de que “a experiência de professor não abandona a gente”. Quando ocorre um acidente com sua esposa, que quebra o braço em três lugares, Edgard se vê na contingência de fazer tarefas domésticas, em detrimento de sua melhor ocupação: “Há três dias não sobra tempo para ler. Escrever é luxo.” (03.09.2014, p.53).

 
E aqui está o ponto admirável do diário: a experiência de leitor. Há considerações antológicas sobre leitura: “Dentre as atividades que se tornam, por força de contingências variadas e complexas, rarefeitas (algumas na iminência de extinção), a leitura mantém-se vigorosa, para aqueles que nela se formaram. A leitura envolve uma prática extremamente interativa, uma atividade de mão dupla. Não é apenas o texto que traz informações ao leitor. O leitor também transfere ao espaço do texto suas demandas e partilhas. Ninguém apresenta-se completamente vazio diante de um texto: dialoga, faz-lhe perguntas, acrescenta-lhe dados.” (01.06.2015. p.75) Ao cotejar a novela A noite,(1954) de Erico Verissmo,com um conto de Jaime Prado Gouvêa, do livro Fichas de vitrola (1986), evidencia o grande texto fluvial tecido pelo leitor: “A literatura é uma arte assimiladora, vai agregando atmosfera, motivos, cenas, cheiros, detalhes. Muitas vezes, quando lemos um livro, somos surpreendidos por semelhanças com outro, aparentemente diferente daquele que estamos lendo. Sem querer, percebemos fios intertextuais a aproximar dois ou mais textos. Referências usadas por um autor são retomadas trinta anos depois por outro, em outro contexto. Quase sempre, sem que o autor conheça o texto anterior, movido pela necessidade de descrever um ambiente.” (10.07.2014, p.32)

 

Crítico lúcido, o autor esclarece que desconfia das “teorias pétreas e das convicções inabaláveis”, afirmando que “em crítica qualquer convicção pode ser abalada.” E acrescenta: “Fui incorporando a ideia de que o crítico é um sujeito de fronteira, que se move entre a exigência de se seguir um método e a noção de que o limite é uma passagem.” (21-04-2014, p.12). Transitando entre o ensaio e a ficção, Edgard Pereira aponta, com muita precisão, a diferença essencial entre o crítico e o poeta: “A diferença básica entre um crítico e um poeta é que para o crítico o produto verbal acabado carrega um significado enorme. O poeta parece estar continuamente gestando um produto através de palavras – um poema. Num percebe-se a disponibilidade ao arquivo, a inquietação pelas estantes e alfarrábios. O crítico adora descobrir obras raras, pouco conhecidas e avaliadas. No poeta arde a febre da página em branco, a surpresa e o atropelo das coisas que nascem. Para o crítico a inquietação com as palavras é um processo temporário, cíclico, provocado por estímulo exterior, a leitura de um livro. Para o poeta a inquietação com as palavras é um estado permanente, jamais sossegado.”(30.05.2016, p.115)

 

Ler esse diário é ter o privilégio de viajar não só a Portugal mas a outros mares e livros que merecem ser navegados.

 

 

Caio Junqueira Maciel é professor de literatura, poeta e, brevemente, lançará o romance Um estranho no Minho.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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