ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Claudio Parreira


Contos curtos    

FILME, VIDA

Ele foge da rua e se esconde no cinema.
O filme, porém, imita a vida.
Ele foge então do cinema e se esconde na rua.
A vida, porém, imita o filme.

 

 

 

 

 

 

 

GRÁVIDOS

– Os apaixonados são homens grávidos de mulheres – filosofa um.

– Por quê? – quer saber o outro.

– Porque carregam pela vida afora as mulheres que trazem por dentro.

– As que se foram?

– E as que virão.

 

 

 

 

 

 

OS COLECIONADORES DA RAZÃO

Uns colecionam estrelas.

Outros, primaveras.

Outros ainda colecionam sorrisos e abraços.

– Bando de loucos! – berram aqueles que só colecionam a razão.

 

 

 

 

 

 

 

 

CAMARIM

 

Tiro um crocodilo da boca, sem nenhum esforço. Os relâmpagos partem dos meus dedos como se ali tivessem passado toda a sua existência.

Jarros e guarda-chuvas brotam dos meus bolsos com naturalidade.
Dependendo do meu humor, meus olhos lançam chamas azuis ou
verdes.

Não posso evitar nada disso; sou assim desde sempre. Meus pais
ganharam fortunas me exibindo. Eu, de fato, ganhei apenas poeira e
sol. Mamãe só expressava o seu amor por mim aos tapas. E meu pai
nunca teve olhos de me ver. A criança que eu fui se perdeu no
calendário. Minha juventude é névoa. Sou apenas isso hoje: um homem que fala gafanhotos.

Um dia, é claro, me cansei da família e dos espetáculos. Fui para o
mundo tentar ser comum. Mas no escritório onde trabalhei todos
ficaram chocados com as cobras que surgiam dos meus sapatos. Fui
garçom por dois dias, apenas; nenhum cliente gosta de um sujeito que
serve meias de seda e alicates junto ao prato principal.
Acabei, portanto, voltando ao mundo dos espetáculos. Agora ganho a
vida no circo que me abrigou. É o lugar que me cabe na terra. Gente de todo lugar vem me ver. Ficam maravilhados com as bugigangas que
brotam do meu corpo. Eu me apresento, agradeço os aplausos e me
retiro para o camarim. A sós, diante do espelho, de mim brotam apenas
lágrimas e tédio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O GUARDADOR DE VERBOS

Numa sacola de supermercado ele guardava verbos
recolhidos aqui e ali.

Pra usar no momento oportuno.

E o momento oportuno se apresentou sob a forma de discurso numa noite de festa.

Atrás do microfone, o homem disfarçou e enfiou a mão na sacola pra pescar o verbo mais apropriado e o verbo que veio na ponta dos seus dedos foi calar.

Não houve discurso naquela noite, nem aplauso – apenas um silêncio que ainda hoje se escuta nessas ocasiões.

 

 

 

 

 

VOO

Com um simples exercício de pensamento é possível paralisar um avião, uma bala sibilante, o foguete mais rápido.

Interessante, no entanto, é a imaginação que faz uma estátua voar.

 

 

Claudio Parreira é escritor.

Tem contos publicados nas revistas eletrônicas Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas, Diversos Afins, Flaubert, Le Monde Diplomatique, [LIMBO], Revista Gueto, Jornal Opção, Zzzumbido, TriploV e InComunidade (Portugal), entre outras.

Recebeu Menção de Honra para o conto O Jardim de Esperanças (Der Garten Der Hoffnungen), da Revista de Assuntos Latino-Americanos XICOATL, Áustria, em 1996.

Foi o ganhador do 1º Concurso de Contos da Revista piauí, em março de 2007 e, no ano seguinte, integrante do folhetim despropositado A Velha Debaixo da Cama, da mesma revista.

É autor dos romances Gabriel (2011),  A Lua É Um Grande Queijo Suspenso No Céu (2017) e da coletânea de contos Delirium (2014)

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Conselho Editorial:

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Colaboradores de Agosto de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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