ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Eunice Boreal


A utopia do tempo presente    

Alighieri nos lembra que ao entrar no inferno, necessário se faz deixar a esperança, mas também a suspeita. Talvez isso nos aproxime da entrada do oráculo de Delfos “conhece-te a ti mesmo”. E nos permita transcender o ciclo de narrativas que disputam o fim ou início do mundo. Afinal, se nem mesmo a ciência comprova a origem ou o final da existência, deixemos que a filosofia, mais do que nunca, mostre o quanto é fundamental para a humanidade, pois ela é, também, a esplendorosa forma de nos guiar pra dentro de questões. 

 

Olho pra escola de Atenas, Rafael, tento encontrar Hipátia... O que vejo são inteligências, preciosas perspectivas, mas não encontro mulheres, nem as diversas etnias que passaram pela Grécia antiga… Vejo sim, uma pessoa da pintura que olha pra gente. Não sei dizer se a pessoa que é representada, seja, ao menos semelhante, com a ideia que Hipátia fez de si. E pra onde foi o agradecimento à Aspásia, já que a defendem enquanto educadora de Sócrates? 

 

Lembro da Deusa, pois gosto da narrativa de Atenas. A leitura de que uma mulher, ao nascer, abre a cabeça de um Deus… Zeus. Gosto também de pensar em possíveis escolas, com bibliografias e leituras distintas... Mas libertas da pretensão de abrir a cabeça dos seus cânones e, novamente, continuar o ciclo de imposição de verdades. A educação é uma jornada contínua, onde mestres e estudantes cooperam em prol dos estudos. Também convida pro deslocamento de olhares, onde quem ensina jamais saberá de tudo… Por isso, investe na prática do amor ao estudar. " Escutai o logos e não a mim " Essa frase Heráclito nos lembra a importância do pensamento ativo e da linguagem. O tal colonialismo, penso, também vem com uma verticalização humanocêntrica dos saberes e sentires. Evidenciado com a disputa ilusória na microfísica do poder… Todavia, as complexas possibilidades plurais, certamente mesmo ao não compactuar com a vossa estrutura lógica, tão universalista, alimentam sim um ecossistema de pensamento. Felizmente distinto.

 

A vivência educacional, dentro da Teoria das #Matrilocalidades, acolhe o erro como exercício, mas distingue erro de ataque moral ou ético. O erro numa leitura espiralar é cooperativa, acontece no percurso do desejo, abraça vocabulários para além da mente humana, mas nos ajuda a caminhar rumo ao conhecimento. Nesse sentido, se distancia da ideia de perfeição, onde punições severas causam choques traumáticos e desdobramentos pessoais e sociais. Durante grande parte da vida humana, ao considerar a perfeição como meta, olhares repudiaram o erro e distorceram a busca por melhoria quando, por delírio linguístico, se passou a afirmar que somos todes iguais ou à imagem e semelhança de algum criador. E ao criar dor nesse espelho invertido, tudo aquilo que não for eco, pode ser banido. Inclusive a própria existência humana.

 

Há quem culpe o capitalismo, o dinheiro o sistema e etc. O dinheiro foi criado pra organizar a sociedade, como moeda corrente, pode servir para investir em movimentos dentro da própria sociedade e somar em serviços na vida coletiva. O problema está nos princípios, na ausência de escuta, na fuga ou supressão do diálogo, nas relações de poder, assim como em outras nuances. E se a pandemia demonstra que somos coautorxs do temppo, ao invés de seguir na disputa de comparar o incomparável, olhar para o que fomos ontem e centrar nesse agora, do micro ao macro interessante pode ser o despertar para a oportunidade de escolha. 

 

O tai chi chuan nos conecta com o todo, a ioga nos permite reconhecer o todo dentro da gente. Assim acontece quando estudamos cotidianamente o tai chi, a cabala, as teoria dos ecossistemas, a física, a química, a música, a matemática e etc. Aluno, essa palavra do latim, que para alguns quer dizer sem luz, mas que várias pessoas defendem que a descendente de ALUMNUS quer dizer discípulo, afilhado e etc... Ainda assim é uma palavra que coloca humanidades como únicas que coletam inteligências. És tudo? Para alumiar nossos pensares, saberes para além das humanidades, felizmente nos permitem olhar pra gente e pro mundo (dentro fora se reparte?), para além de narcisismos, controles, rejeições e simplesmente reconhecer fluências.

 

Em um dia, enquanto estudava aritmética para preparar a próxima aula, lembrei que dentro de um ritual xamânico, uma voz me falou: Quem vive o silêncio interior, não luta com o som exterior.

Existem diversas técnicas de meditação, seja com palavras, silêncio ou no acolhimento das tempestividades.

 

Diariamente podemos meditar sobre o que chamam de pecados capitais, princípios morais, paixões e etc. É que, diferentemente do moralismo, pensar sobre nossos princípios, talvez nos liberte da ideia, tão frágil, que somente nossos valores ou os valores do nosso grupo, clube, igreja e etc, sejam os melhores do mundo. É possível viver uma existência mais poÉtica? 

 

Lao-Tsé nos lembra algo que podemos ler assim:
Quem vence alguém é forte, quem supera a si mesmo é uma pessoa poderosa. Aqui, ao invés de invejar, agradeço a oportunidade de pensar com Lao-Tsé, por isso, ao citar celebro sua soma. Provavelmente não aguentaria os sofrimentos que ele passou... E seja na filosofia, em Mahabharata, nas obras shakespereanas ou dentro do universo Clariciano, a honestidade, embora desafiante, talvez seja a escolha que nos faça ir adiante. Honestidade conosco... Qual é o objetivo de falar em público sobre o que vivemos? 

 

Não atoa que “de onde viemos?”, “quem somos? E “para onde vamos?” são perguntas que nos movimentam há séculos. Pobre da filosofia que só se pretende explicativa, pois nega a riqueza do indefinível, o espaço sem sentido onde, a partir do sonho da poesia, tudo, nada, algo e o além se tornam possíveis. E se no início do século XXI, o oriente explodiu o ocidentalismo que se reinvindicava enquanto mundo, há tempos que dicotomias estão esfumaçando. Curiosamente, quem se considera o melhor do mundo, cai no fetiche da segregação e tenta extrair o que não pode ser substituível, acredita viver separado do mundo e nem percebe o quanto isso dificulta o seu respirar… Pensa na lógica da escassez, lhe falta a percepção abundância, a existência que soma, em alguns momentos sim, necessariamente se divide, mas se multiplica dentro da riqueza criativa.

 

Na experiência do Cárcere, Oscar Wilde, além de evidenciar os horrores sociais da sua época, entre eles a homofobia, ao invés de se ver como vítima, reconhece sua coautoria na situação que o levou viver o tal tempo. E se pensar, de modo algum, apagou a crítica aos horrores sociais, mas ao se reconhecer enquanto mundo também, talvez o mínimo seja perceber sua responsabilidade. Hannah Arendt nos alerta sobre isso. E o mesmo Oscar Wilde, dentro do livro "O Retrato de Dorian Gray", pinta a face do narcisismo ocidental, tão fascinado pela ideia que tem de si, que se nega a ver o que não seja a sua própria beleza. E aqui, assim como na estética filosófica, podemos ver beleza enquanto valor de mundo, ideias afins, espelho de conceitos. 

 

Todavia, a existência, seja nas ciências, nas artes e também na filosofia, pode ser vista enquanto multiplicidade. 

 

 

Eunice Boreal é artista, filósofa e coautora das #Matrilocalidades. 

www.youtube.com/euniceboreal

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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