ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista com o poeta André Ricardo Aguiar    

 

André Ricardo Aguiar é escritor. Cofundador do Clube do Conto da Paraíba.  Atua na área de oficinas literárias (haicais e mini contos). Tem diversas obras publicadas: O livro de poesia Alvenaria ( UFPB) prêmios novos autores paraibanos, A idade das chuvas ( eitora Patuá)  e a plaquete Curriculum Vitae ( Fresta); o de contos Fábulas portáteis (editora Patuá)  os infantis o rato que roeu o rei (Rocco) e Chá de sumiço e outros poemas assombrados ( Autêntica) 

1-)  Você  é dos poucos escritores que burila (Brinca) a linguagem como mestres.  Penso que há um espaço entre as coisas onde a linguagem funciona prazeirosamente, quebrando as normas normativas. Sua escrita está sempre no desvio, numa curva que não traz reta de nada. Como foi pensar o bichano gato para estas suas características  de escrever?

Além da dimensão lúdica de observar e criar um gato, sempre esteve na minha mira a tradição do gato intertextual, a ligação entre autores e bichos e a captura de elementos de bestiário, de referências elípticas, ou mesmo de uma ontologia animal. Por outro lado, o gato como tema foi se imiscuindo na minha produção poética de forma muito esparsa. Senti a fascinação com a junção do que eu já gostava em poesia (sobretudo o inescapável T.S Eliot) e a minha descoberta doméstica em conviver com gatos. Capturar o gato para o poema foi natural, dado minha tendência para uma exatidão substantiva (aprendi a gostar disso lendo Cabral). Precisava que os poemas funcionassem como pulos de gato.

2-)  O pulo do gato estaria para poesia em tipos de nuances, ou de sentidos? Acha que o gato não fecharia com significados? Poderíamos achar um referencial para o bichano? Qual é relação do gato com o poema?
 
Eu comecei o Da existência enquanto gato abrindo com um dos primeiros poemas, o Loa para um gato, com a dimensão de uma poética do gato. Como eu certo o gato com imagens que ao mesmo tempo são próprias dele, e outras que são de outros campos semânticos, senti aí um caminho, o mesmo com que faz com que o poeta parta da coisa, da vivência dos objetos para uma concepção própria da arte – esse trânsito pode ser a carta escondida do poema. O referencial do gato é colher os gatos particulares no gato universal. Daí, talvez, eu consiga estabelecer uma relação que alimenta o poema no gato, o gato no poema. Mas fugindo de didatismos. A porção de mistério ainda se mantém.

3-)  Imagens são cinéticas, correm pelo torvelinho de um cinemascópio. O gato gosta de um movimento mas também absorve bem um estado de repouso quase zen. Na verdade, há uma identidade muito singular aí. Quanto é dificil para escrita prender o gato numa nominação rótulo para expressá-lo ao leitor que não é adepto de uma gatocracia.

Acho que o gato tem elementos suficientes para transcender o mero gosto por gatos, espalhado em uma moda, replicado em um sem número de publicações, videos, manuais. Acho que a fascinação pelo bicho coloca no mesmo compartimento gateiros e não-gateiros, mas é uma incógnita se eu realmente fiquei consciente da dificuldade, visto que tratei como um projeto poético monotemático sem pensar que era um tema só. Explicando melhor, há um momento da nossa prática em que, independente do que miramos para o poema, o mundo e suas referências, a literatura e suas intertextualidades contaminam o ofício. É como se o poema fizesse sentindo se o preenchermos com silêncios e ecos. Pensei, de modo divertido, que estava em duas situações: admitindo que escrevia para nós, os aficionados por gatos, e de modo mais amplo, querendo conquistar leitores que não criam gatos. Por isso é um livro feliz para mim. Eu quis entender o gato através do poema. Mas quis muito entrar de cabeça num livro de tema único, cuidando que os poemas não soassem repetitivos, monocórdios. E as possíveis soluções foram se apresentando. Como por exemplo, colocar o gato visto de um ângulo inusitado (o gato é um aquário) ou num malabarismo metalinguístico (a ideia de que o gato mora na caneta que o escreve). Esse dinamismo que persegui em imagens me deu a sensação de uma ampliação do restrito. De quando o gato é mais por dentro que por fora.

4-)  O gato seria uma espécie de brincabraque das referências, onde o estilo é aglutinar ideias, jogos linguísticos, hibridismos, polimorfia de gêneros. Poderíamos traçar um estudo de Gêneros dele?

Acho que o gato já tomou quase tudo. As referências são muitas. De romance (Eu sou um gato, do Natsume Soseki) a memórias (Sobre gatos, Doris Lessing), e passando por best-sellers, livros de arte, manuais de criação. A literatura, claro, e em particular a poesia, já nem se fala. Campo aberto, manancial. As livrarias tendem a separar os livros em blocos, mas eu acharia divertido uma tendência para o diversificado, o específico. Uma prateleira só sobre poemas felinos, outra sobre estudos históricos, outra sobre os animais e a filosofia. Mas eu divago. Em algum momento, vou me voltar para outros bichos. A literatura pode ser um zoo liberto.

5-) Que tipo de jogos os animais podem trazer para linguagem? São usados em fábulas, em bestiários. Será um homem um ser falante que se aborrece com sua própria voz ou fala?
 
Os animais, sabemos, têm no bicho homem um problema de grandes dimensões. Não quero soar simplista; faz parte da natureza, basta acompanhar os documentários, por exemplo, o quanto há uma relação de forças no jogo da sobrevivência. Por outro lado, uma relação antiga sempre se estabeleceu, de lendas a fábulas, e para exemplificar comportamentos, normas de conduta, moral. Também para o divertimento, a sátira. Não vou muito além por não estar tão por dentro, mas é inevitável que a literatura ia ter uma fonte inesgotável. E seria muito aborrecido se não tivéssemos a chance de escapar do tédio, da nossa repisada seara humana, da nossa semelhança (ou dessemelhança, também). Precisamos do outro, e esse outro animal, mais ainda. Cai como uma luva para tudo, até para uma crítica do totalitarismo, vide A revolução dos bichos, do Orwell. Ou para uma escavação do ser, como a Clarice Lispector e o Kafka, com relação à barata. Voltando ao ponto da alteridade, acho que não nos contentamos com a própria voz, precisamos emprestá-la, ou fingir ser a do outro. Precisamos do salto além, para uma projeção do que há de mais informe ou móvel em nós. Quem faz isso muito bem é o poeta Sérgio de Castro Pinto (basta ler Zoo imaginário, editado pela Escrituras). E como eu nunca me aborreço com meus gatos, imagino também diálogos imaginários com eles. Sobrepondo ao que é a sua língua, seus miados. É uma troca, um ato de amor.

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Nuno Baptista


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