ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Reynaldo Damazio


Movimentos portáteis    

 

Capa: “Movimentos portáteis”, de Reynaldo Damazio

 

 

1.

para Movimentos portáteis,
de Reynaldo Damazio

Lilian Aquino

A construção de um passo é, antes de tudo, sair da inércia e se desequilibrar, para em seguida voltar o pé ao chão e reestabelecer o aprumo. E é entre essas ações de deslocamento que o corpo dos poemas de Reynaldo Damazio se agita, em movimentos muitas vezes tensos, diante de nossos olhos neste seu novo livro.      

Ao dividir em cinco movimentos os poemas sem título do conjunto, já de início sentimos o atrito ritmado do conflito entre aquilo que está sendo retido e uma iminente explosão. A palavra incendiada caminha sob a chuva miúda, ao lado “dos seres todos metidos em/sua soberba e intransitividade:/o que se assemelha à permanência/e que para nós é dessemelhante”.

Já que andar é desarmonia, o passo firme e torto do poeta nos conduz entre imagens em choque constante, onde “a porta se abre à espera de ninguém”, num “manancial de silêncio”, em que “você procura a saída no escuro,/busca sem sucesso, só o silêncio/se move”. É uma jornada sem herói, atravessada pela negatividade o mais das vezes corpórea, por onde se vê acumular o grito no fundo da garganta: “a boca ressecada, café no/mármore esfriando a raiva,/o grito, o tiro disfarçado/na sola do pé”.

Estirada até o limite (haveria limite no tempo presente?), a voz do poema sai entrecortada e cada vez mais pesada (“não há leveza,/a cadela arrasta a pata traseira/sobre a cara morta do presente”) e intransitiva: “dizer pelos cotovelos o nada”. A realidade se impõe de modo cruel e a consciência é atravessada pela angústia de estar vivo no presente (“talvez sair pela rua/suja de pânico/sem fé/nem fissura”). E do embate travado nos poemas, tanto líricos quanto políticos, e da impossibilidade de o grito ser ouvido, “o coração selvagem se aquieta e a/sombra do que na mente é revolta/ganha cores e rituais de uma dança/estranha, agônica”. Aqui, é a lucidez do desencanto dançada no fluir dos compassos, movendo o leitor de uma experiência de estilhaçamento para convergir, aos poucos, em um lirismo de andamento ágil e não menos inquietante.

Nestes Movimentos portáteis, Reynaldo Damazio orquestra habilmente uma composição feita para ouvir de fones e que, inevitavelmente, mobiliza também o leitor a “uma flor e um grito”, como diz Herberto Helder na bela epígrafe que abre o livro.

 

 

2.


Poemas de Movimentos portáteis

 

enquanto a chuva dita o ritmo
das conversas, da caminhada,
algo de inconsequente se consolida,
poema de Ruy Belo refeito por
Zulmira Ribeiro Tavares ou a citação
de Manuel António Pina,
que nos olha pelos olhos do outro,
vale lembrar que o sentido de uma
palavra não está na própria palavra,
mas em sua transparência, na
extensão de suas correspondências,
no atrito da convergência com as
coisas, dos seres todos metidos em
sua soberba e intransitividade:
o que se assemelha à permanência
e que para nós é dessemelhante

(...)

bem de perto as
marcas na pele
são mapas de
viagens perdidas
ensaio sem o
canto de sereias
rascunhos para
nervos e sangue
da batalha final
do grito primevo
um corte aberto
na epopeia de
pelos até a fuga
noutro enredo

(...)

 

posso ver o rosto de meu filho
em vinte, trinta anos
as marcas do que guardou
e do que perdeu
o sorriso de raspão no metrô
posso desenhar a casa
imaginária na montanha
suas janelas sem cortina
colher frutas que não plantei
em campos onde nunca estive
e recitar o poema que fale de
noites e pedras
para a revolução malograda
posso até caminhar cem vezes
por um abraço e me perder
na solidão da calçada
distraído por uma voz
do futuro
mesmo que me faltem olhos
ou alento

(...)

ver com seus olhos
esquinas, arquipélagos
quinas do tempo refeito
na cidade que imaginamos
a partir de retinas solidárias
ilha de edição dos sentidos
todo percurso é como
a primeira vez, um desvio
outra paisagem

(...)

 

a poeta comenta
pouco antes do sarau
que as crises de ansiedade
agora são mais frequentes
os poemas atravessam
a soleira da manhã
como icebergs
voz e imagem se emaranham
na segunda um novo martírio
nos espera
sem pulsação nem métrica
ninguém mede compassos
até o precipício
apenas o silêncio nos irmana
no calor dos versos
que a poeta recita
suave e serenamente
pausa ante pausa
linha fina cortando o ar
em fatias assimétricas
até nos tirar do torpor
com seu turbilhão de
delicadeza

(...)

mais fácil juntar
partes do poema
que esses cacos
do copo no chão

(...)

piel hecha de sal
los pies en la arena
morder el sol

 

 

Reynaldo Damazio

 

Lilian Aquino

 

Reynaldo Damazio é editor, crítico literário e autor. Formado em Ciências Sociais pela USP. Foi co-editor do jornal "Caderno de Leitura", da EdUSP, e colaborador do Guia Folha - Livros, Discos, Filmes, da "Folha de S. Paulo", e das revistas "Cult", "Arte Brasileiros", "Entrelivros", "Mente e Cérebro", "Nossa América" e "Literatura: Conhecimento Prático". É coordenador do Centro de Apoio ao Escritor do museu Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Autor de Poesia, linguagem (Memorial da América Latina); Nu entre nuvens (Ciência do Acidente); Horas perplexas (Editora 34); Com os dentes na esquina e trilhas, notas & outras tramas (Dobradura Editorial); Crítica de trincheira: resenhas (Giostri Editora), entre outros. Traduziu Calvina (SM Editora), de Carlo Frabetti.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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