ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Godofredo de Oliveira Neto


Esquisse, um excerto inédito    

 

[Jayme Reis]

 

Excerto da obra inédita do escritor brasileiro Godofredo de Oliveira Neto.

 

Godofredo de Oliveira Neto está com um romance pronto cujo título é Esquisse. Está sendo traduzido na França por uma editora francesa e pode acontecer dele sair antes em Paris do que no Brasil. Um inédito em que o título em português e em francês é o mesmo: ESQUISSE. Tem um ritmo acelerado, quase frenético, um suspense na busca da esquisse de um quadro de Bosch herdado de um colecionador veneziano. Cenário contemporâneo entre Nova Yorque, Veneza e Florianópolis. Sairá pela editora parisiense ENVOLUME. Primeiro semestre de 2021.

 

Esquisse

 

Capítulo 13

                                       

                                                                  Godofredo de Oliveira Neto

 

Sol e calor.  Tainha frita. Rodízio de camarão. Batata frita gordurosa.  A Joaquina cheia. Conversa sobre eleições, Ana Julia indignada, votam mais contra do que a favor, imagina um bando de cães sendo atiçados, tem que matar, esfolar, trucidar, despedaçar, qual cachorro vai ser escolhido? O que tem jeito de ser mais violento, claro. Papo que já deu, sempre a mesma coisa, resmunga a namorada do Filipão, cara fera nos estudos, desde o colégio, bonitão, ela bonitona. Vamos tocar as nossas coisas e pronto, cada um faz a sua parte, continua ela, pausadamente, votar em pessoas democráticas, republicano de verdade no caso já está bom, não? Mas pode acabar se transformando numa esquisse de poder, como numa esquisse de reitor, esquisse de marido, esquisse de esposa, de amante, amante nos dois gêneros, masculino e feminino, todos riem, a palavra esquisse fez Ana Júlia apertar a minha mão discretamente sob a mesa. A gente só sai desse rame-rame financeiro com herança ou ganhando na bolsa de valores, resmunga o outro amigo, namorado da Fernandinha da área de Letras. O rapaz disse em tom de deboche.

Hesito se devo contar que vou em breve a Nova York justamente atrás de uma herança  da família, vergonha? Pudor? Constrangimento? Pelo aperto de mão da Ana Júlia melhor não dizer nada por ora. Mar lotado de água-vivas, o namorado da Carolina, de Chapecó, foi queimado por uma , Ana Júlia idem. Volta para o Centro, vista da lagoa da Conceição,  serra engarrafada, nos deixam no alto da Felipe Schmidt, o casal Fernanda e companheiro moram na avenida Beira-Mar Norte, Felipão na Trindade, perto da Universidade Federal de Santa Catarina,  a nova  namorada do Filipão , Lua ou Brisa, um nome desses, que dirige o carro Honda tipo caminhonete, retornará para o Campêche. Todos com a frase pronta não precisava, agora você vai voltar sozinha, em seguida a associação clássica e batida entre Campeche e Saint Exupéry, pois é, ela então detalha, paciente, chegando lá eu pego a avenida Pequeno Príncipe e o cachorrinho mascote da família, um poodle que late sem parar, se chama Zeperri, todo mundo gargalha. O que não faz o amor, Ana Júlia já tinha sussurrado a frase no meu ouvido antes numa ida nossa ao banheiro . A impressão é que tanto a Ana Júlia quanto a Fernanda ficaram com ciúmes da Brisa, sim, o nome, me deu um estalo agora, foi a buzina na frente do hotel novayorquino, a guria é rica, cara de modelo fotográfico, viajada, o pai tem dinheiro sobrando, ela tem uma obra do Tunga na sala da casa do Campeche, o sacana do Filipão sempre se dá bem em tudo. Eu teria tirado um peso da consciência se tivesse dito naquele domingo de praia que ia enriquecer com uma herança milionária? Deixa de ser cismado, respondeu Ana Júlia.

O porteiro do nosso prédio não estava, a caminhonete Honda já se fora com a galera, fui me irritando, esperamos quase 15 minutos na portaria, ele apareceu, o empurrei, disse uns palavrões, quase ia lhe dando um soco na cara , de repente a escuridão, quadros de Bosch zanzando na minha frente, a imagem do inferno, o tom lúgubre. Acordei com o porteiro me dando um copo de água e passando um lenço molhado na minha testa, Ana Júlia chamando uma ambulância, não precisa, Ana Júlia, anula, já estou bem. A frase terrível dela: ok, Luigi, mas você tem que voltar ao psiquiatra, não pode interromper o remédio assim. À noite vimos O som ao redor, do Kleber Mendonça Filho. Depois Ana Júlia falou em romper o quebranto, prometeu que eu ia melhorar.

Ana Júlia já me levara em terreiro numa rua perto da Agronômica para ver se ajudava minhas ansiedades. Ela, apesar de luterana, tem, escondida,  uma quedinha por  religiões de matriz africana. Incorporando Xangô  durante uma possessão, eu seria um arquétipo de Deus, sairia fogo de minha boca, os adversários fugiriam, virava mágico, poderoso.   A experiência me deixou sem dormir, mas senti grande alívio durante o rito, isso é verdade. Ana Júlia, naquela noite em casa, noite de juras de amor, de me explicar mil vezes que amor é superar dificuldades,  concepções às vezes piegas saindo da sua boa, me ajudou muito, como sempre. Discutimos sincretismo religioso até altas horas, é o Brasil, Luigi, eu sei.  Ana Júlia, depois, confessou que se emociona e se excita  ao ser ver como uma Lorelei em meio africano.  Mais tarde  me perguntei se o que ela busca não é pura e simplesmente sexo naquelas noitadas ao som de instrumentos de percussão e goles de cachaça, não sei se posso confiar, vejo nela, se alternando, traços diabólicos e angelicais .

 

[Jayme Reis]

 

Godofredo de Oliveira Neto

 

Jayme Reis

 

Godofredo de Oliveira Neto
O escritor brasileiro nasceu em Blumenau, Santa Catarina em 1951.  
A história particular do autor permitiu a construção de uma obra em que o universo de Santa Catarina – da cultura portuguesa-açoriana no  Marcelino   à colonização alemã e italiana no O Bruxo do Contestado passando  pela documentação sobre o conflito do Contestado  e visitas a várias cidades do estado como Florianópolis, São Francisco, Camboriú e Lages,  - vem profundamente retratado  e pensado. Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 16/17  anos, mas manteve permanente sua escrita voltada para o que ele chama de catarinensismo. “O Bruxo do Contestado”, “Marcelino”  e “Amores exilados”  são denominados pela crítica a sua Trilogia Catarinense. Seu romance  “Menino oculto”, em grande parte também ambientado em Santa Catarina, recebeu uma estatueta no Jabuti 2006. “Marcelino” e “O Bruxo do Contestado” foram elogiados pela revista Veja, Folha de São Paulo,  O Globo e O Estado de São Paulo, entre outros e finalistas de premiações nacionais. “Amores exilados” e “Menino oculto”  foram publicados na França. O jornal  Le Figaro, de Paris,&nbs; dedicou meia página ao livro e  Le Monde comparou  “Menino oculto” à obra de Almodóvar. Seu  livro “Ilusão e mentira”,  com dois contos em que o autor se apropria da literatura machadiana,  tem um desses contos  -  “O galo Adamastor”, tirado do “Ideias de canário”, do Machado - ambientado em Florianópolis. O romance “Ana e a margem do rio”,  com tradução  publicada  na Bulgária, faz um vasto mosaico da mitologia dos índios da Amazônia ( mas a alma da obra está aqui na Reserva Duque de Caxias) e recebeu o selo de Altamente Recomendável da Fundação Nacional do livro Infantil e Juvenil. Foi exposto em Bolonha e consta do catálogo White Ravens. Segundo Godofredo, a história da Ana foi colhida em uma visita à  reserva indígena Duque de Caxias, em José Boiteux, quando o autor tinha 14 anos . Conheceu aí a jovem  Ana e puderam conversar por poucas horas. Mas bastou. Ana está no seu romance. Sua obra é estudada em instituições escolares e universitárias  de todo o país, “O Bruxo do Contestado” foi leitura obrigatória em  vestibulares .  Seu último romance, “Grito”, foi premiado pela Academia Catarinense de Letras (melhor  romance de 2016),  também prêmio de melhor romance de 2016 pela União Brasileira de Escritores e considerado pelo Jornal Extra / O Globo entre os 13 melhores romances brasileiros de 2016.  “Grito" é ambientado em Copacabana, no Rio de Janeiro, nos dias de hoje. Godofredo é professor Titular de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde leciona desde 1980, com Doutorado e Mestrado nas Universidades da Sorbonne e na UFRJ e com estudos de  Pós- Doutorado na Georgetown, em Washington. Passou por vários cargos administrativos na área de educação universitária. Para o autor, Educação e Literatura são a mesma coisa e  seu compromisso educacional, político  e social se dá por aí: fazer literatura. Acaba de passar um semestre como Professor-Visitante de Literatura Brasileira na Universidade de Veneza. O seu  romance que mais mergulha na cultura portuguesa-açoriana no Brasil  é Marcelino, ambientado em Florianópolis nos anos 40 do século XX, às vésperas da entrada do Brasil na II Guerra Mundial. O livro acaba de ser editado em Portugal, lançado no recente festival de Óbidos. Artigo na  revista Educação em Linha faz minucioso  levantamento de trechos, no romance,  da vida   na ilha de Santa Catarina naqueles anos de guerra, particularmente dos traços  da cultura dos Açores transpostos para Florianópolis com a chegada de seis mil açorianos (homens, mulheres e crianças) vindos do Porto de Angra na Ilha Terceira entre 1747 e 1753. A cerimônia da Coberta da Alma, hoje quase inexistente,  é um desses exemplos entre dezenas.  Ivan Junqueira, Ledo Ivo, Eduardo Portella, da Academia Brasileira de Letras, fizeram elogios  explícitos a respeito da obra, além de críticos da literatura contemporânea como Silviano Santiago – que dedicou uma página inteira do jornal O Estado de São Paulo – e Beatriz  Resende.     

 

Jayme Reis

Jayme Reis, artista plástico brasileiro. Autodidata, multidisciplinar, 1958 – Itabira, Minas Gerais, explora a diversidade de linguagens – cerâmica, objetos, desenho, gravura, fotografia e arte digital, buscando expressões limítrofes de linguagem e de gêneros. Atuou como professor de escultura no Elke Hering Atelier, Blumenau, SC, 1988. Foi artista visitante no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC (1990) e do Coltec/UFMG (1994-95).  Obteve o Prêmio de Incentivo à Cultura do Estado de Santa Catarina, Secretaria Estadual de Cultura, Florianópolis (1990) e o 1º Prêmio no I Salão de Artes Plásticas da Cidade de Uberaba, MG (1995). Participou do Salão Nacional de Curitiba (1991-97); Bienal Nacional de Santos, SP (1995); I Concurso de Arte Erótica e I Salão de Arte Erótica, Barcelona, Espanha (1996). Publica o livreto/catalogo EPIPHANIA contendo texto e 37 imagens que narram a sua experiência com o Photoshop e a fotografia digital (2007).  Selecionado para o projeto de Residências Artísticas da Fundação Bienal de Arte de Cerveira – Vila Nova de Cerveira – Portugal, e também para o projeto de Residências Artísticas do Polo Cultural Gaivotas | Boavista – Lisboa (2017) Algumas de suas obras passam a integrar a Coleção Lusofonias da Perve Galeria – Lisboa (2018).

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


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SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


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Nuno Baptista


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