ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Editorial: BEIRUTE    

A tragédia de Beirute suscitou algumas dúvidas sobre a sua origem. Mas todas elas se resumem a duas: negligência criminosa ou ação bélica. A hipótese mais provável, porém, é que ambas são uma só: negligência criminosa do governo ( e do poder judiciário libanês que decidiu que toneladas de nitrato de amónio ficassem naquele local) em manter aquela enorme bomba  no porto da capital libanesa, aproveitada por Israel para fazer detonar essa bomba. Uma bomba  de entre 1 a 2 kilotoneladas de TNT e de potencia dez vezes superior à maior bomba de TNT existente, e apenas 11 vezes inferior à potência da bomba atómica que destruiu Hiroshima.

Todas as dúvidas só podem ser respondidas pela resposta à seguinte pergunta: a quem interessava e a quem beneficia a destruição de Beirute?

Desde já adiantamos o twit de Benjamin Natanyahu, no mesmo dia da explosão, referindo-se a duas outras explosões ocorridas no Irão e no Iraque e reivindicadas por Israel: “nós atingimos uma  das suas células e agora atingimos os operadores. Faremos o que for necessário por nos defender. Sugiro que todos eles, incluindo o Hezbollah, levem isto em consideração.”

Por seu lado, Donald Trump, na sua infinita estupidez, afirmou que os seus “grandes generais” o tinham informado que tinha sido “um ataque”, “algum tipo de bomba”, no que foi imediatamente desmentido pelos seus “grande generais” que não sofrem da sua estupidez congénita.

Por seu lado  Emmanuel Macron, acabado de chegar ao Líbano logo a seguir à tragédia, lançou esta proposta ao primeiro ministro libanês: “Queremos comprar o vosso porto”, ao que o primeiro ministro libanês respondeu “Não está à venda.”

Convém lembrar o papel da França no próximo oriente: foi a França  de Sarkozy , convencido por Bernard Henri Levy, mediático filósofo e notório agente israelita,  que aceitou ser o ponta de lança de Israel e dos EUA na destruição da Líbia, um dos grandes adversários de Israel.

Um dado ainda não menos importante: o porto de Beirute estava totalmente controlado pelos serviços secretos e pela mafia  saudita, dependentes do antigo primeiro ministro libanês Saad al-Hariri, na realidade um agente saudita, afastado por alta corrupção e que, com os seus colaboradores, fugiu com grande parte do tesouro libanês.

Finalmente, estava na calha o acordo entre Israel e os Emiratos Árabes Unidos para normalizarem as relações entre eles, o que pelo mundo árabe que apoia a causa palestiniana foi interpretado como uma traição a essa causa. Esse acordo representa uma aliança entre Israel, os EUA e os Emiratos,  estes com posição estratégica no Golfo  Pérsico, contra o Irão, o arqui-inimigo de Israel e dos EUA.

Tudo isto leva à seguinte conclusão: a tragédia de Beirute foi uma ordem para que o governo libanês expulse o Hezbollah do Líbano e um sério aviso de Israel ao Hezbollah e ao Irão.

Israel encontra-se em grave crise devido ao covid-19 e ao julgamento em curso de Natanyahu por corrupção. O mais provável é que a tragédia de Beirute tenha sido uma demonstração de força do governo israelita num momento em que se encontra fragilizado. E que nesse ato convergiram vários interesses, nomeadamente os banqueiros, o FMI, os do imobiliário e os traficantes de armas que, agora, com Macron à frente, se prestam a “ajudar” a reconstrução de Beirute, com as suas condições, é claro.

É assim que funciona este mundo.

 

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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