ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


DALI: Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar    

Os anos trinta do século passado foram anos de grandes transformações e perturbações no mundo mas, em particular, na Europa. A descoberta, por Freud, da importância do inconsciente na vida e na arte veio abrir a terceira grande ferida no narcisismo da humanidade, após Copérnico e após Darwin. Foram também os anos de consolidação dos grandes totalitarismos: o estalinismo, o fascismo e o nazismo. Foram ainda os anos em que o surrealismo se impôs como estética dominante.

Ao contrário do que defendem vários autores (em Portugal, José Augusto França e, no Brasil, Michael Löwy) o surrealismo não é um novo romantismo, mas uma corrente estética e filosófica que encontra no inconsciente e no amor um modo de transformação da humanidade face ao falhanço do racionalismo demonstrado pela Primeira Grande Guerra Mundial. É uma corrente voltada para o futuro e não para um passado mítico sentimentalmente revivido em nostalgia, como o romantismo. Mas também uma corrente de pensamento que muito deve ao conceito de angústia, de Kierkegaard, como o mostram as obras de Yves Tanguy, Max Ernst e também, de Salvador Dalí.

 

Salvador Dalí foi um dos iniciadores do movimento surrealista e veio a tornar-se no seu principal ícone na pintura. A partir dos anos de 1930, iniciou uma técnica de criação que ele próprio apelidou de método paranoico-crítico. A ideia central desse método consistia no medo de que o objeto, descoberto como uma construção do sujeito, pudesse ele mesmo manipular ou controlar o próprio sujeito fazendo nele surgir associações delirantes. Nas palavras de Dalí era um  “método espontâneo de conhecimento irracional baseado na objetividade crítica e sistemática das associações e interpretações dos fenómenos delirantes”.

Uma das obras de Dali marcantes desse período é a obra que Dalí, como grande exibicionista, intitulou Sonho Causado Pelo Voo de uma Abelha ao Redor de Uma Romã um Segundo Antes de Acordar.

 

A obra retrata Gala, a mulher de Dalí, repousando sobre uma plataforma de pedra junto ao mar sereno que lembra a forma de Portugal. Do lado direito da obra vemos uma falésia e à frente desta um elefante de pernas altíssimas com um obelisco sobre o dorso. A conjugação do elefante a salvo sobre o mar, apesar de caído da falésia, faz lembrar o mito português de D. Fuas Roupinho salvo por Nossa Senhora da grande falésia da Nazaré para a qual tinha sido atraído pelo diabo, encarnado num veado. O elefante, que é salvo pelas suas pernas altíssimas no sonho de Gala, remete-nos para uma escultura de Bernini existente em Roma que, por sua vez, nos remete para o belíssimo e misterioso incunábulo intitulado A BATALHA DO AMOR EM SONHOS DE POLIFILO, uma obra em que o amor e a beleza assumem o papel salvador do homem.

Na religião hindu, o elefante é um animal sagrado, símbolo da sabedoria e suporte do mundo, como os elefantes de Bernini e Dalí que transportam sobre o dorso um obelisco significando a força criadora. Mas são também símbolo do amor, pois Krishna, o deus do amor, e sua mulher Radha, têm o poder de se transformar em elefantes.

Ao lado do elefante surgem dois tigres, em salto ameaçador sobre Gala, um com bigodes ( Salvador Dalí) e outro sem bigodes (Paul Éluard, primeiro marido de Gala), o primeiro saído da boca de um ameaçador peixe-tigre, e o segundo tendo à sua frente uma espingarda, significando inconsciente vontade de Éluard matar Gala que o tinha traído por Dalí.

Tudo isso não é mais que um sonho de Gala motivado pelo insignificante voo de uma abelha, quase invisível na obra, num também insignificante segundo antes de acordar, em redor de uma romã intacta, enquanto outra romã, parcialmente aberta nos remete, como símbolo que é da fertilidade, da união e do amor, para o sexo de Gala na sua cor rubra. O insignificante remete-nos para o significado.

A mensagem é clara: só o amor, para Dalí o amor de Gala, é fonte de salvação.

 

 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Agosto de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR