ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Fabiano Silmes


Poemas    

EU, ÁRVORE

 

Eu queria criar raízes no céu
e frutos na terra...

Queria que minhas folhas brincassem
sem o peso da culpa no vento da tarde.
Eu queria que meu tronco sustentasse 
o ímpeto de quem sobe para ver além.

E que nenhuma mão estupida e covarde
arranque essas flores que brotam
diretamente dos meus sonhos...

          - É o que desejo –

Mas se tudo se perder, de repente,
que fiquem aqui, vivas, as sementes
de minha esperança ainda em flor.

 

 

 

 

 

 

TRANSPIRAÇÃO

 

Trabalho arduamente o poema;
O suor escorre entre os dedos
E cai espesso sobre as palavras. 

As horas passam na dureza da lida.
Quando a obra eu concluo exausto
Apresento ao meu pensamento.
(Severo juiz de minhas criações)

Então, como que saudando o novo,
Deslizo os meus dedos sobre a lira
E todo o esforço antes pressentido,
Matéria prima, cristaliza-se em versos.

 

 

 

 

 

 

PINTURA

 

o quadro gritando cores 
no cavalete imóvel 
ganha asas e se move
como um pássaro ferido
para dentro do globo ocular
e tristes cavalos entre flores
feitas de cansaços e luz
ganham novos contornos
entre a forma e a perspectiva
alcançada pelo vislumbre 
do sonho traduzido em cores
pelo traço forte dos pincéis.

 

 

 

 

 

 

POEMA DE CASA 

 

SALA

não sinto mais a ausência no sofá 
não sinto mais a presença pela casa...
sinto quase uma paz n’alma

mas quando chega a noite
deixo a televisão ligada
para não morrer sufocado
pelo silêncio da sala.

 

CORREDOR

o corredor me leva para outro tempo
outra casa nesta que habito
entre os ruídos abafados da noite 
e os passos dos vivos e dos mortos
que ainda moram dentro dela.

 

COZINHA

no fogão branco esmaltado
a combustão de gazes 
nascidos da putrefação dos corpos
dos dinossauros mortos aquece
a comida que é preparada para os vivos.

 

SALA DE JANTA

na sala de janta
um prato a menos
uma saudade a mais 

 

BANHEIRO

as águas do chuveiro lambem:
os braços as mãos o rosto
o pescoço o peito a barriga 
as coxas as pernas o sexo
e são contidas impiedosamente
pelo ralo cheio de fios de cabelos
que ainda guardam o seu cheiro neles.

 

QUARTO 

a cama recebe o corpo cansado
após a labuta na cidade
no macio do colchão
o homem é forjado
entre os sonhos e a realidade
que o espera no dia seguinte. 

 

A PORTA DE CASA

a porta de casa
abre e fecha um mundo
a sete chaves

deus sabe como pesam essas chaves.

 

VARANDA 

da varanda a vista se estende
para a diafaneidade de um céu azul
contido impiedosamente
pelo muro e o telhado de outras casas.

 

QUINTAL 

no quintal feito mais de memória
do que abandono e jardins malcuidados 
pode-se ouvir os gritos alegres de outrora
todos guardados dentro do homem sério
que olha e não se vê no espelho que o reflete.

 

O PORTÃO 

do portão para fora
não se sabe 
e sequer se tem ideia
do mundo que existe
além da solitária 
proteção de ferro
que barra a travessia
das pessoas indesejáveis.

 

 

 

 

 

 

KAMIKAZE


sei que algo me falta
algo que me incendeia
algo que não sei dizer

alguma coisa em mim
é um desejo inusitado
que persiste até doer

sinto um peso n'alma
que é quase um gesto...
um gesto de desespero
feito da mais fria calma

de um kamikaze que
sabe que vai morrer.

 

 

 

 

 

 

CINZAS

 

A esperança está morta
Vejo em campos decepados
Os últimos pedaços espalhados.
Os sonhos se perderam
Lágrimas e olhos vermelhos
O horizonte foi sepultado
E o vazio se espalhou por tudo.
A inocência está morta
O amanhã está morto
Deus está morto
Minha voz é um eco.

 

 

 

 

 

 

LIMBO

 

Corações ocupados pelo vazio
Espantam pássaros noturnos 
Enquanto o vento embala 
As flores amanhecidas. 

Deito fora tudo que não é dentro
E uma substância líquida 
Vem colar em meus olhos 
Uma tristeza azul sem céu.

Ouço as batidas surdas 
Dentro do meu peito 
E cancelo a ressurreição 
Dos astros em minha face.

Corre as horas incertas
E em algum lugar amanhece 
Em algum lugar a vida segue...

Enquanto aqui do lado de fora
(Do corpo da mente da alma)
Os dias se repetem
Todos iguais só que diferentes.

 

 

 

 

 

 

CONCERTO AO AR LIVRE

 

zunem as abelhas nos motores 
gazes gazes gazes nos pulmões 
a tosse seca dentro dos edifícios 
mal disfarçada pela mão que abafa
súbito anjo que estrangula o grito 

uma multidão de passos solitários 
seguem desordenadamente em marcha 
cada um leva um mundo de ideias 
não repartidas por medo ou egoísmo
que se perderão e serão esquecidas 

na rua, o corpo a corpo nas calçadas 
marca os limites dos espaços habitados 
com a tensão de guerra a todo instante 
ninguém ouve a música que se forma
da beleza oculta na fenda dos muros

entre as coisas desutilizadas no chão 
ninguém repara na orquestra silenciosa
que incendeia com delicada harmonia 
o perceptível caos diário que nos cerca

na correria antropofágica da cidade 
escravos das horas, ninguém percebe  
a música da vida que soa das pétalas 
das flores que nascem entre as frestas.

 

 

 

 

 

 

INSÍGNIA VERMELHA

 

o interior 
do interior 
da violência
do interior
do medo
do desespero
do medo
da violência
está por fora
e a agressão
consta por dentro.

 

 

 

 

 

 

SALTO MORTAL 

 

mergulho na vida 
com a coragem firme 
e os músculos leves. 

sou um sopro
fragmento partícula
de algo que no fundo 
permanece intacto 
mesmo depois das colisões.

 

 

 

 

 

 

ANTECÂMARA DOS SONHOS 

 

tudo é passagem
oculta câmara 
que te leva mais fundo 

no interior do interior
das coisas dadas
enigma de luz baça 

em que a própria luz
se perde no desencontro
do próprio encontro 

choque abrupto de forças 
conciliando medo e coragem 
ponha-te de pé para novas lutas

e casto, ergue-te do pó e vai.

 

 

 

 

 

 

APARIÇÃO

 

descendo
torto a rua
insone
sou outra vez
o meu nome
alguém me chama
passo a existir.

 

 

 

 

 

 

ELÉGIA

 

frio e calmo
apertou o gatilho

sombra de sangue
se espalhando pelas coisas

corpo inerte desabando
no assoalho

(depois silêncio)

naquela noite
nenhum anjo velou o morto.

 

 

 

 

 

 

POEMA PURO

 

um dia desses
eu vou parar
só para escrever
um poema

que em todo marasmo
seja mais do que pareça

e que não tenha outra pretensão
além de ser ele mesmo
em todo silêncio que consagre
a alegria quase triste de seus versos.

 

 

 

 

 

 

SEGUNDO PLANO

 

tiros y bombas y sangue y lágrimas
a tv que filmava cortou a imagem
como que corta uma cebola
e chora sem sentimento algum
o alvoroço das reivindicações
do povo acuado diante das lentes
a tv filmou mais não registrou
cortou e mostrou outra cena
o grande milagre da televisão
é a possibilidade de colocar
a verdade sempre em segundo plano.

 

 

 

 

 

 

A LONGA OBJETIVIDADE DAS COISAS

 

Breves são as flores
Misteriosa é a resistência das pedras
Indiferente é o vento frio que passa
Despreparados são os homens
Breves são os homens
indiferentes são as pedras
Misteriosa é a resistência do vento frio que passa
Beijando de leve as flores despreparadas.

 

 

 

 

 

 

À FLOR DA PELE

 

Quero mansamente penetrar-lhe
Como quem abre uma porta
E sai em direção ao desconhecido
Sem temer o que há no mundo afora
Quero o dia claro e impreciso sobre
Todas as reações secundárias
Quero afundar o meu rosto
Na sua flor de fogo e água
E matar toda a minha sede.

Quero incendiar o silêncio em gemidos
E adormecer lentamente dentro de ti
Como se despertasse subitamente
Para os mistérios e os segredos do sono.

 

 

Fabiano Silmes nasceu em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Publicou Comida para Bicho-cabeça em 2011, editora Multifoco. Entusiasta do underground e da literatura marginal, posta seus poemas em sua página no facebook e em blogs e revistas alternativas.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Colaboradores de Agosto de 2020:

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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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