ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


O bêbado e os outros    

O homem abriu o portão de casa e o sol quente de quase metade do dia agrediu as meninas dos olhos. Sem a proteção dos óculos escuros, levou as mãos à testa para se proteger enquanto as pupilas se amiudavam na instintiva defesa. Viu o ir e vir na praça fronteiriça, o movimento na portaria do hospital, os carros, as motos, as bicicletas. E ouviu a raivosa fala de uma mulher que passava:
 - Isso é uma vergonha!

E ela apontava o dedo de bíblica pureza para um homem deitado sob o sol de rachar moleira. O coitado, no torpor da inconsciência alcoólica, talvez já se imaginasse entregue ao espeto do tinhoso, assando nas brasas do fim dos tempos.

 - Vida de cão! Esse vai pro inferno.

Todos passavam, ninguém perdia a oportunidade de condenar a fraqueza do semelhante. Uns xingavam, outros riam, ninguém se condoia. Solidariedade nenhuma nesse vale de puros amantes do próximo, desde que o próximo não requeira atenção solidária e imediata.

“Onde está a honestidade?”, cantou Beth Carvalho na melhor interpretação dos versos de Noel Rosa. E “onde está a humanidade?” se perguntou o homem parado no portão.

Passividade tem limites, sobretudo para quem vive sob a rédea do pavio curto. E a impaciência com as imbecilidades alheias aumentara muito nos últimos dias. Afinal, depois de anos incensando lucros para a cancerígena indústria do fumo, o ex-consumidor de cento e tantos venenos decidira ser homem de palavra nesse quesito comportamental: jogara no lixo a última guimba de cigarro e  respirava mais aliviado naquele final de manhã.  Respirar ar puro é uma bênção, mas aturar hipocrisia é um acinte à boa convivência. E o barril da indignação explodiu:
 - Todo mundo xinga o coitado, mas ninguém tira o infeliz do sol!

Santa ira, mas incompreendida por aqueles que apontam o rabo dos outros, mas escondem os seus sob o manto da farsa.

 - Eu? Sujar minhas mãos?

 - E se ele tiver alguma doença?

 - Bebeu porque quis. Que se dane!

É fácil condenar, difícil é compreender, mais ainda ser solidário com quem afunda no lodo. O homem do portão questionou com a lógica dos sensatos:
 - Vocês condenam o coitado porque ele bebeu, mas ninguém se pergunta os motivos que ele teve pra beber. Será por doença, alguma desilusão, falta de apoio pra se levantar na vida?

Ninguém respondeu por que qualquer resposta levaria a um compromisso. E quem queria se comprometer? O homem do portão, vendo que o bêbado poderia morrer de insolação, o recolheu nos braços e o levou para a única sombra que há na praça pouco arborizada. Sob a proteção do único umbuzeiro que escapou da sanha destruidora do tal de progresso, o bêbado respirou fundo e se imaginou no portal do paraíso. Mas cá em baixo, no mundo das mediocridades, uma mulher vendedora de insalubres salgadinhos, deu o grito:
 - Leva esse bebum pra lá, vai atrapalhar meu negócio.

Assim me contou um parceirinho de copos e risadas nas manhãs de sábado, mas que sempre se insurge quando pretensos súditos se imaginam mais realistas do que o rei.

Poucos sabem, mas a tolerância ao álcool é genética e uns têm mais ou menos propensão à dependência. Pesquisadores da Universidade da Carolina do Sul, USA, identificaram o gene CYP2E1, explicação científica para o vício.

Vi, com olhos de menino curioso, o filme Farrapo Humano, que é de 1945, mas só exibido em Janaúba mais de uma década depois. O título original da obra de Billy Wilder, que ganhou em 1946 os Oscars de melhor filme, direção e ator (Ray Milland) é The lost weekend (O fim de semana perdido), mas a tradução se ajusta melhor ao drama do escritor sem inspiração que se afunda na garrafa.

Outro filme sobre alcoolismo é Days of wine and roses (Dias de vinho e rosas), traduzido para Vício maldito. Jack Lemmon vive um “bebedor social” que se afunda no álcool e arrasta a esposa Lee Remick para o fundo do poço. O filme de Blake Edwards é de 1962, só rendeu o Oscar de canção original, mas também assusta aos que temem o domínio da garrafa.

“Que humanidade é esta?” – questionou o escrevinhador lusitano José Saramago (1922-2010) autor de profundos pensares e livros vários. Não há o sentir do outro, o que viceja é a frieza do reino em torno do umbigo.

Ecce homo (“Eis o homem”), palavras que Pôncio Pilatos teria dito ao apresentar Jesus Cristo aos judeus, conforme se lê nos escritos do cristianismo antigo. Esse é o título – todos sabem – da mais controversa obra de Friedrich Nietzche (1844-1900), escrita após o agravamento de sua doença e dos transtornos mentais.

Se tivesse visto a retirada do bêbado e a revolta da vendedora de salgadinhos, talvez esse abestado sacasse da algibeira um dito de pretensa erudição:
 Ecce homo, ousaria citar o desafiador livro do pensador alemão, divulgador de desagrados e niilismos, que é desconhecido por tantos; mas, sem querer alfinetar ninguém ou ser sarcástico, desconfio que poucos leram a obra ou se dispõem a fazê-lo.

 Às vezes esse vivente às margens do Gorutuba excede na ironia, reconheço.

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

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Paginação:

Nuno Baptista


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