ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Juan Manuel Terenzi


Poemas    

te vi na vitrine

 

te vi
na vi
trine
trin
cada
pedaço
refle
ti
a
perda
e tu
estavas
perdida
como eu
como ele
como ela
como nós
te vi
na vi
trine
trin
cada
pedaço
refle
ti
a
perda

 

 

 

 

 

 

duas dúvidas

 

um telefone
toca
uma mão
atende
uma voz
sou eu
a outra
oi
um encontro
toco
toca
molho
molha
unem-se
uma despedida
lábios
lábios
olhos
olhos
a estrada
fixa o traço
das rodas
os corpos
doem
a dúvida

 

 

 

 

 

 

lembra

 

lembra daquela gota
de saliva
de vinho
de suor
de sêmen
de um dia
partido em duas
noites
quando ainda éramos
duas gotas

lembra daquele moço
que corria pela orla
de uma faixa de areia tão extensa
e que nos sorria de volta

lembra daquela menininha
que me olhava com quatro sorrisos
que me chamava pelo nome
do pai morto há cinco anos

lembra deles
da mãe chorando
porque o seu filho
havia abandonado
a sua vida
o seu futuro
e do pai que mesmo morto
o olhava sério através
do vidro embaçado do retrato

lembra das nossas mãos
lembra da outra moça
do outro moço
de outros
outras
outros
outras

tão rotos
e rotas
como as nossas estradas
traçadas sem mapa
nem rota

lembra
lembra
lembra

 

 

 

 

 

 

das 24 horas de um dia de outono (2020)

 

às 24h: fervo
à 1h: ainda fervo
às 2h: o gato mia e eu mio
às 3h: o gato dorme e eu mio
às 4h: o gato mia e eu durmo
às 5h: o dia tenta nascer
às 6h: nascimento outonal
às 7h: ainda não nasci
às 8h: o gato tampouco
às 9h: cafés cafés cafés
às 10h: café ainda
às 11h: o fim da manhã outonal
às 12h: almoço? perdi o horário há 2 meses
às 13h: almoço? confira o horário anterior
às 14h: o único que almoça é o gato
às 15h: gosto desta luz
às 16h: o gato miou fora de horário
às 17h: eu miei sem horário
às 18h: almoço (meu, não do gato)
às 19h: cerveja
às 20h: esqueci de mencionar que escrevi nos horários anteriores
às 21h: corrijo, escrevo desde às 14h, quando o gato almoçava
às 22h: já?
às 23h: já mesmo?
às 24: fervo

 

 

 

 

 

 

se os dias voltassem

 

na quarentena os dias passam
numa longa fileira silenciosa
e se não fosse o vinho
haveria um único
um único
um
único
filete tinto
escorrendo
do oitavo andar.
na quarentena
os dias se despedem
os dias de despem
os dias voltam a se vestir
voltam a se despedir
voltam a se
voltam a
voltam
se
os dias voltassem.
não
eles não voltam
a volta apenas é dada
quando do oitavo andar
se despe o vinho
se despe a tinta
se festeja o tinto
e se embriaga o Tejo:
rio português vadio
rio tão próximo do Douro
mas altivo.
voltemos a despir os dias:
na quarentena os dias passam
os rins se enchem
o fígado estafa
e tua boca
com esse batom borrado
suga
o fim da fuga
de um querubim.

 

 

 

 

 

 

tirésias

 

da fenda lhe era fornecida
a fissura doce
desejada há tanto
mas alcançada após
os olhos do abismo
encará-lo sem espasmos:
o corpo que treme habita
a região da covardia
da esperança tardia
e da brusca volúpia
de que por hoje
se terminem os dias.

o abismo possuía voz
tão rouca quanto aqueles
negríssimos pássaros
que agouravam um retorno
incerto de Tirésias.
os olhos agora pertenciam
ao abismo
pois a cegueira
e o corpo hermafrodita
do velho profeta daqueles
templos gregos
consumiam-se na fissura
tão doce quanto o leve
caminhar de quem
sussurrara-me:
o corpo que treme habita
a região da covardia
da esperança tardia
e da brusca volúpia
de que por hoje
se terminem os dias.

mas aquilo fora o abismo
que me dissera
não havia ao redor
ninguém que pudesse haver
aberto sua boca purulenta
sua boca isenta de sílabas
de sons
de línguas e de sexos
que pudesse haver em mim
penetrado tão doces palavras.
na fissura foi que encontrei
a nudez daquela fenda
que não fingia de onde vinha
a mais longínqua oferenda.

 

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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