ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Katia Bandeira de Mello-Gerlach


Amor vincit omnia    

Amor Vincit Omnia, o Cúpido de Caravaggio entre luz e sombra, em letras douradas, no espaço; as letras soltas no espaço como os corpos de anjos isolados, soltos e isolados, há pessoas chorando em suas camas, outras gritam de suas janelas, ainda outras tomam notas em seus diários de pandemónio.  O amor vence tudo menos o vírus, e os que não amam.  Não há armas ou versos que criem amor nos que sofrem de nevralgia sentimental: não sinto, portanto deixo de existir em meio aos descartáveis, recicláveis ou não. 

Em Vermont, Stowe está por desaparecer.  O tempo é ilusório, não há data para o seu fim.  A água que escorre do Monte Mansfield provoca erosões cada vez maiores e as chuvas acumuladas em três dias fizeram com que a cidade inteira afundasse alguns metros.  As casas se vêem levemente enterradas, em suas rotas de absorção pela terra; as calçadas, encobertas por lama.

Quando Stowe afundar em definitivo estará como Heimaey engolida pelo vulcão Eldfell na Islândia, cujos campos são ocupados por gnomos e seres invisíveis à laia das toupeiras e ursos de Vermont.  Duzentos milhões de toneladas de cinzas e lava se derramaram sobre as quatrocentas casas de Heimaey, esvaziada quando seus habitantes partiram na frágil barca, o elo que a conecta à ilha maior, solta e isolada.

O viajado violonista Yehudin Menuhin contava que o lugar mais feio que visitara foi uma ilha grega enegrecida pela lavas, paisagem derradeira de horror, inferno dantesco. 

O céu, entretanto, mantém-se sereno e se faz aqui, aqui entre nós enquanto respiramos e temos corações quentes e pulsantes. 

Penso na possibilidade infinita de enfeitar o céu e como optaria por enchê-lo de anjos que recitassem os versos de EE Cummings, na esperança de que os dedos angelicais apontassem e metamorfoseassem tudo em vegetações prematuras, criando um dia de puro amor.  Amor pela natureza que resplandece, as rosas e os beijos vingam no asfalto.

Em Heimaey, contava-se um morto soterrado pelo magma vulcânico mas no dia em que pisei no terreno, experimentei a mais clara sensação de que sob os meus pés a cidade morta se movimentava.  As casas com jardins e pequenas piscinas construídas sobre a camada de lava surpreendem; uma cidade em cima da outra, como um amor que cobre um amor antigo, a cicatriz de uma paixão. 

Pompéia ficou abandonada, sem construções sobre suas ruínas. Os sobreviventes não ousaram retomar o território, apegaram-se ao medo.  Na Islândia, persiste a coragem diante da sensação catastrófica de erupções que explodirão enquanto os moradores  produzem “heavy metal rock” e livros policiais de suspense em recintos subterrâneos para eventual troca natalina. A Islândia é um país de esconderijos e jardins de negritude.

São várias as situações em que se evacua uma cidade.  Na segunda guerra mundial, as crianças Pevensie foram transferidas de Londres e, instaladas numa casa de campo inglesa, onde descobriram dentro do armário o mundo de fantasias Narnia criado por CS Lewis.  Já Lewis Carroll colocou Alice na toca do Coelho, num plano subterrâneo, em Alice no País das Maravilhas.  Ambos os Lewis e seus mundos de interiores secretos.

Em Stowe, o relógio da igreja está sempre uma hora atrás do tempo porque o reverendo Will responsabiliza os corvos a acertarem os ponteiros e ameaça batizar os infratores de horários. Os fazendeiros causam mal estar com a demora em adubarem Mayo Farm, o imenso milharal, e ao postergarem a remoção das plantas mortas do ano anterior.  Dos versos de Cummings, emerge a terra espontânea sendo vasculhada por dedos científicos que cutucam a sua beleza, a concepção de deuses que brotam do solo como plantas, o ritmo dos amantes na primavera.

Quando a plantação se erguer, levantará consigo a legenda dourada omnia vincit amor do poeta Virgílio, terra e céu convergindo em fulgor.

 

 

Kátia Bandeira de Mello Gerlach tem formação em Direito e é escritora e ilustradora.  Natural do Rio de Janeiro, radicada em Nova York desde 1998. Autora dos livros Colisões Bestiais Particula(res) e Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas publicados pela Confraria do Vento)

www.katiabandeirademello.com

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Agosto de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR