ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Leandro Rodrigues


Poemas    

 

NATAL NO MORRO

de sobressalto

a mãe olha para o filho
          - são fogos de artifício!

meninos sonham acordados
castelos, dragões, bolas, cometas

 

e um país imaginário
sem balas perdidas.
 

 

 

 

 

 

CADAFALSO

 

As marcas de um voo morto
açúcares espalhados pelo sótão
do avesso de minha carne
costuramos madrugadas sanguíneas
marchamos para um cadafalso difuso
cores desmembram o laço
no nosso pescoço um pássaro.

 

 

 

 

 

 

SHAMISEN (AS 3 CORDAS DO ABISMO)

 

três cordas do instrumento
                   estiradas ao vento

um corpo de sol
chaminés de andaluzia
meias estendidas
                  na primavera

bocejos, lírios e alfazemas
o canto avesso
                 das falsas borboletas

três horas de um dia cinza
motor de cigarras
                 na elegia para o outono

a senha do relógio d’água

 

adestrados sapos
no azul das pedras
elipses nos olhos dos peixes

 

cordilheiras de morte
          na lâmina caída
o sangue é o rio

 

memórias amputadas
adormecidas nas asas quebradas
do inseto raro em extinção.

 

 

 

 

 

 

O ARCO DO DESEQUILÍBRIO
(para o voo sem asa)

 

                1
                 para Philippe Petit

 

frios arames estendidos de um ao outro lado
a fina tensão do vazio

no umbigo
um visceral segundo do lapso frágil
estéril tropeço no azul

as farpas são asas a queda um único verso

sem rede de proteção.

3

              para Lillian Leitzel

 

 

A corda que se estende
Farpada aos tropeços
De um lado ao outro
Tenciona a queda

v
  e
    r
      t
        i
          g
             i
               n
               o
                s
                a

 

acorrentado no chão de cimento a travessia
das órbitas frias – cinzas num penhasco
o motor do tédio parado qual ponteiros dis
                                                                   ol
                                                                vi
                                                                  do
                                                                s

                              pelos escombros do
                                                                s
                                                                   ol

 

             5

               para Karl Wallenda

Na opressão das memórias extintas
atravessa num arco
Dois prédios de escombros
Na leveza do desequilíbrio
Um salto para o infinito

ácidos de cal e fuligem

um precipício do solo
sol
a
sol
      a pino

           a tarde emaranhada de finas teias
           tênues dorme

           a morte boceja seu átrio
           na somatória de tudo – zero.

 

 

 

 

 

 

A MENINA, O CAMINHO, A PEDRA
E O RIO

                                      É sempre mais difícil
                                       ancorar um navio no espaço

                                                         Ana Cristina César

A menina olha o rio
É mais bela que a tarde

A pedra olha o rio
Há um caminho dentro dela
-        o rito de passagem -

O rio se encanta
A tarde se encanta

A menina disfarça
Apanha a pedra
Atira-a no leito
- 3 leves golpes de encanto -

O rio sorri
A tarde sorri

A pedra afunda.

 

 

 

 

 

 

 

LEILA LIVRE LEILA

 

apenas em sua liberdade
esse azul vai além
de espanhas e holandas.

 

 

 

 

 

 

A LOUCA D’ESPANHA

 

Como louca d’Espanha blasfemavas
Aos deuses, aos sóis, deusa-anã
Na treva desafiavas noites e amavas
Onde estão meus olhos, estrela da manhã?

Indagavas portos, ancoravas frias embarcações
E saltavas em graça num primeiro aceno
De suspiros e mistérios e fartas canções
Onde estão meus filhos, estrela de aveno?

E longe a carne da máscara tão nua,
Encenavas um canto, uma prece, um rastro
Ou apelo para os olhos, para a Lua

Ao mar emprestavas o medo escuso
Um torpe verso, uma lei de enclaustro
Onde estão meus laços, estrela do escuro?

 

 

 

 

 

 

NOTURNO

 

em braile
tateamos a noite
um poema acende

 

 

 

 

 

 

MÚSICA

 

              Faça um país de poesia
               aonde leve esse navio
               vento de primavera.

                                  Nempuku Sato

 

Trocou as cordas velhas do instrumento
por outras mais novas

 

Depois as esticou
(as mesmas velhas cordas) lá fora
de um ao outro lado

– um singelo varal...

 

Agora o vento é que as toca.

 

 

Leandro Rodrigues (Osasco, 1976). É poeta e professor de Literatura. Já lançou os livros Aprendizagem Cinza (Patuá, 2016), Faz Sol Mas Eu Grito (Patuá, 2018) e Todas As Quedas São Livres (Penalux, 2020). Também já participou de diversas antologias: Hiperconexões (2017), MedioCridade (2019), Sarau da Paulista (2019), SESC Brasília Poesia (2019) e 70x Caio (2019) entre outras. Possuí poemas publicados em Portugal e outros traduzidos e publicados na Espanha e nos Estados Unidos.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Colaboradores de Agosto de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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