ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Propriedades e Impropriedades dos Nomes Próprios    

 

[Desenho, Jayme Reis]

  

Há alguns dias li uma crônica deliciosa de Franklin Jorge (jornalista e crítico de arte do Rio Grande do Norte e meu parceiro no livro “Impróprio para Menores de 18 amores”, de 1976), divulgada em seu site Navegos e intitulada “A propósito dos nomes”. Ele citava diversos nomes próprios, começando pelo dele, cujo significado soube por Stella Leonardos, com quem fiz amizade também, que “Franklin derivava de ‘franc’, espécie de clava aterrorizante com a qual os antigos gauleses esmagavam o crânio de seus amigos e que deu depois “franco”, “França”, francês; e Jorge vem grego antigo Gorgós, agricultor – foi “o nome do primeiro rei que existiu, de profissão agricultor”; e meu amigo concluiu: “tem mais a ver comigo, porque seria aquele que semeia e cuida da terra, alguém que reunia em si a capacidade de fazer (semear e plantar) e a experiência adquirida pelo trabalho”. Mansur Guérios, professor, lexicógrafo e gramático observa que a divisão entre nomes próprios e comuns é linguisticamente artificial, pois os primeiros eram nomes comuns em suas origens (no caso, franc/clava, gorgós/agricultor); e o  folclorista e pesquisador Câmara Cascudo, outro grande amigo de Franklin Jorge, também “gostava muito de estudar os nomes e sabia o que significavam, de onde procediam”. Sem dúvida é um jeito interessante e divertido de mergulhar na formação e na evolução das palavras, matéria que no meu tempo de Colegial chamava-se Gramática Histórica  e que hoje tem nome mais pomposo: Estudo Diacrônico da Língua Portuguesa.

A crônica de Franklin Jorge inicia-se com uma afirmação de Nietzsche: “Nome é destino”. E de novo conecto Mansur ao assunto: “Com o auxílio dos nomes próprios, em particular os antropônimos e topônimos (mais arcaicos do que os antropônimos), é possível reconstituir numerosos elementos de uma língua”. Não só de um idioma, mas de personagens também: um Júlio César, por exemplo, ou é altivo ou contrasta ironicamente com a ideia que fazemos do imperador romano; e de início já exibe algumas características de quem lhe deu esse nome (augurando um glorioso destino ao menino). “Achadas e Perdidas”, o conto que deu título ao meu livro, tem como tema principal dois nomes responsáveis por certo estranhamento.

Meu Leila, conforme minha mãe contava, veio do árabe: “Senhora da Noite”. Como este significado de repente podia ter um duplo sentido, meu pai o mudava um pouquinho para “Rainha da Noite”, o que condizia mais com meu gosto, pois na infância eu queria me chamar Regina Cœli, rainha do céu, em latim... Noite é palavra-chave em minha vida, pois apesar de ser solar, gosto de escrever madrugadas a dentro, habito do tempo em que eu escrevia novelas para a televisão. Mãe me dizia que ela demorara muito para escolher um nome que fosse sonoro e ao mesmo tempo harmonioso com meu sobrenome. Naquela época Leila era incomum no Rio, só foi mais difundido depois de la Diniz, musa do Pasquim. Quanto à minha mãe, nunca encontrei outra Corália – conheci Rosália, Amália e Anália, mas ninguém com o nome dela. Franklin Jorge me disse que conheceu uma, em Assu, bastante inconveniente por sinal (o contrário de minha mãe, discretíssima). Corália é de origem grega Korallione e significa Coral; em latim, Virgem/Donzela dos Mares. Em minhas pesquisas encontrei também uma Corália como santa e mártir cristã do século IV, nascida na Trácia.

Já o Hugo do meu pai, provavelmente veio de Hug, origem germânica e tem vários significados (todos me parecem bem apropriados a ele): ou coração; ou espírito ou mente, assim como pensamento e inteligência. Pai era um advogado (abnegado e generoso, muitas vezes “emprestava” dinheiro para os clientes mais necessitados) e um escritor brilhante. Justo por isso gostaria que o nome dele tivesse vindo de Victor Hugo, um dos seus escritores preferidos – tenho até hoje um exemplar de Les Travailleurs de la Mer (romance de 1866), presente dele para sua adolescente filha.  Já Urhacy vem do indígena Uraci: árvore dos pássaros.

A empregada inexistente de minha mãe chamava-se Manoela (minha crônica de número 13 aqui no InComuidade fala desta inexistente funcionária relapsa que faltava invariavelmente todos os dias em que eu me via tendo de arrumar o quarto ou fazer alguma tarefa doméstica). Também criei o poema “Dar nomes ao cão” sutil referência a “O nome dos gatos”, do T. S. Eliot (aliás, Ivo Barroso, poeta e exímio tradutor deste poema, tem um texto admirável explicando como fez esta transcriação, passo a passo. É simplesmente uma “aula” notável!). E por falar em gatos e cachorros, os nossos têm em geral dois ou três nomes, porque não raro alguém batiza com um e as outras pessoas da casa acham que devem rebatizá-los com algum outro que lhes pareça cair melhor... Verdade que às vezes essas duplicações ou triplicações causam certo problema de comunicação, no primeiro minuto fica difícil sabermos de quem exatamente estamos falando, mas sempre acabamos descobrindo.

Atualmente há quem queira colocar mais uma letra no nome para “dar mais certo na vida”, ou retirar uma sílaba para ficar diferente. Para tal tarefa há muito material disponível na rede: análises cabalísticas, divinatórias, proféticas, numerológicas, tarológicas, astrológicas, simbológicas, e outras tantas lógicas; mas também existem os que preferem esconder seus próprios nomes por trás de anônimos nicks e pseudônimos (raros são os que assumem abertamente seus alter egos ou heterônimos como Pessoa, que chegou a fazer perfil detalhado de cada um deles, com direito a mapa astral inclusive). Ainda devemos nos lembrar dos que não têm nome próprio: os ghost writter e o boicotado “autor desconhecido”... Acrescentemos os apelidos com os quais grandes escritores ironizam seus desafetos ou vingam-se de alguma afronta criando epítetos desconcertantes; e as alcunhas, através das quais outros vultos famosos são referenciados e definidos, como: Boca do Inferno, Príncipe dos Poetas, Poeta das Cigarras, Poeta dos Escravos, Águia de Haia, O Pai da Aviação.

Em décadas passadas era muito difícil conseguir-se qualquer tipo de mudança no nome próprio, necessitava-se de um processo judicial dispendioso e longo, e na maioria das vezes a sentença negava o pedido, fazendo com que muitas pessoas não tivessem outra opção senão suportar zombarias pesadas/bullying pelo resto da vida. Hoje o trâmite é bem mais rápido, sendo que em 2018 o Conselho Nacional de Justiça brasileira publicou regras para que as pessoas trans pudessem mudar de nome e de gênero em suas certidões de nascimento ou casamento diretamente nos cartórios, sem a prova de cirurgia ou de decisão judicial, com base no direito à autodeterminação, e adequação “à identidade autopercebida”.

Há ainda outros nomes menos cotados, os chamados “nomes feios”, mas estes eu deixo de lado, por não serem nomes próprios...

 

Leila Míccolis

Jayme Reis

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

Jayme Reis, artista plástico brasileiro. Autodidata, multidisciplinar, 1958 – Itabira, Minas Gerais, explora a diversidade de linguagens – cerâmica, objetos, desenho, gravura, fotografia e arte digital, buscando expressões limítrofes de linguagem e de gêneros. Atuou como professor de escultura no Elke Hering Atelier, Blumenau, SC, 1988. Foi artista visitante no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC (1990) e do Coltec/UFMG (1994-95).  Obteve o Prêmio de Incentivo à Cultura do Estado de Santa Catarina, Secretaria Estadual de Cultura, Florianópolis (1990) e o 1º Prêmio no I Salão de Artes Plásticas da Cidade de Uberaba, MG (1995). Participou do Salão Nacional de Curitiba (1991-97); Bienal Nacional de Santos, SP (1995); I Concurso de Arte Erótica e I Salão de Arte Erótica, Barcelona, Espanha (1996). Publica o livreto/catalogo EPIPHANIA contendo texto e 37 imagens que narram a sua experiência com o Photoshop e a fotografia digital (2007).  Selecionado para o projeto de Residências Artísticas da Fundação Bienal de Arte de Cerveira – Vila Nova de Cerveira – Portugal, e também para o projeto de Residências Artísticas do Polo Cultural Gaivotas | Boavista – Lisboa (2017) Algumas de suas obras passam a integrar a Coleção Lusofonias da Perve Galeria – Lisboa (2018).

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SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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