ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Nuno Rau


Três divagações extemporâneas, uma pós-utópica e +outra (um soneto para Jorge de Lima)    

Os poetas menores (....) são realmente fascinantes. Quão pior eles rimam, mais são pitorescos. O mero fato de ter publicado um livro de sonetos sofríveis torna um homem irresistível. Ele vive a poesia que não sabe escrever.
Oscar Wilde

 

Acredito firmemente que a poesia tem de ser de seu próprio tempo. Em outras palavras, não podemos escrever sonetos como faziam os poetas elisabetanos, ou dísticos heroicos como Poe e Swift. Assim, num dado conjunto de poemas eu busco a sua poeticidade, observo o seu uso da linguagem, mas também o lugar que ocupa na tradição e o seu papel na cultura.
Marjorie Perloff

 

[...] nas menores como nas maiores felicidades é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente. Quem não se instala no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem não é capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa de vitória, sem vertigem e medo, nunca saberá o que é felicidade e, pior ainda, nunca fará algo que torne outros felizes.
Friedrich Niestzsche

 

1.

CARNE DE PESCOÇO

me ancoro na Virtude amo o Vício
e o Caminho já não me captura
perdi o senso e ainda que sentisse
o mal na pele ao largo da Ventura 
contra a Natura e em franco desespero
barganharia um tácito armistício 
largo a Fortuna a previsão o esmero
e ando sorrindo aos cravos do suplício
de fato em nada mais eu acredito
e aqui destilo em gotas a ironia 
– quer no sentido lato quer no estrito –
recolho as armas ponho o meu pijama 
e vou sonhar com a Musa esta vadia
que [há muito tempo já] não mais me engana

 

 

2.

ACERTEI NO MILHAR

a má sorte [este azar] que não me larga
vai me sacanear na Primavera
sempre me espreita aquela besta fera
e quer me dar sua bebida amarga
a Ventura e a Fortuna estão cansadas
e prontas pra mudar de freguesia
– aí mesmo é que só me restaria
outro verso quebrado [que cagada] 
já não pertencem ao meu vocabulário
palavras que me deem alguma sorte
o mundo inteiro sabe que o otário
nisto sou eu mas não há quem se importe
– e nos vãos do destino em que eu me estrepo
insisto em arriscar outro soneto

 

3.

INVENTÁRIO

meus versos são banais e eu negocio
um prazo a mais um sentimento urgente
mesmo que vá ficar inadimplente
nas contas dessa vida em que me pilho
acreditavam ser a Terra plana
ou que acabasse o mar de forma abrupta
entre outras ilusões que a vida oculta
na palavra que salva e na que engana
a  palavra rejeita a força bruta
o capital o mercado e outras delícias
que o olho vê e o coração perscruta
ando correndo atrás do prejuízo
não sei ainda de fato o que preciso
de vinho de ambrosia ou de cicuta

 

 

 

 

4.bonus track pós

EM TORNO DE

tempo demais perdido nestes versos
sua passagem traçando novas linhas 
em folhas que foram brancas e em certos
lugares por onde nunca andei Minhas
certezas eram ilusões desejos
sonhos sem chão que um dia os apoiasse
e ainda vibram turvos mais que plenos
entre as letras sem rumo quer me atrase
ou não para jogar todas as fichas
na banca do destino – crupiê
ou gigolô, nem sei – enquanto ouço
ela dizer meu bem coma as salsichas
antes que esfriem sem me entender
ou à vida esse estranho calabouço

 

+outra.

SOBRE ELA
                                   para Jorge de Lima

uma voz me procura sonho adentro,
vida adentro, não sei se é este o lado
ou o outro em que me venho só e ardendo
e não me chego cedo, nem me tardo:
vivia de impresságios afogado,
no pendular das noites e dos dias
e da concreta espuma em que me vazo,
sonante espuma, flutuante e fria,
nasce mais um silêncio estarrecido,
crespo silêncio, todo ruga e gelo
– congela os olhos, sangue, boca e pelo.
Manchada a pele embaixo do tecido,
a voz me chaga do buraco fundo:
a palavra é a véspera do mundo.

 

 

Nuno Rau, poeta, letrista, arquiteto, professor de história da arte, tem poemas em diversas revistas literárias, e nas antologias Desvio para o vermelho, do Centro Cultural São Paulo, Escriptonita, que co-organizou, e 29 de Abril: o verso da violência. Publicou o livro Mecânica Aplicada (poemas,  Ed. Patuá, 2017), finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura. É coeditor da revista mallarmargens.com  e ministra oficinas de poesia no Instituto Estação das Letras.

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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