ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: tempo    

[Jayme Reis]

 

a pandemia, o fato de estarmos vivendo confinados e ter havido mudança significativa em nossas rotinas, tem me feito pensar mais no tempo. obviamente não no clima, mas na maneira como vivemos e observamos as horas passarem. o mais visível para mim é não existir grandes diferenças entre os dias. estamos, parece, mergulhados em uma sequência interminável de domingos. os instantes não se diferenciam, imergimos em uma sequência de acontecimentos mais ou menos iguais, acabamos muitas vezes perdidos, sem saber direito por onde anda a semana. no meu caso, percebo os fatos surgindo em um ritmo particular, lento, como se o existir ganhasse contorno arrastado, as coisas se realizando em câmara lenta, entre um e outro susto. as notícias de óbitos desafiando nossa sensibilidade, um contador macabro ligado e incrementando o número de mortos pelo covid-19 sem parar. perdidos em um espaço indefinido, atordoados, esguichando álcool gel nas mãos compulsivamente, buscamos nas luvas e em máscaras alguma proteção. o medo em cada canto da sala, dos quartos, da casa. muitas vezes quando respiro fundo, o ar expelido sai denso, entrecortado, doído. não imaginei pudesse andar por época tão distópica. esta palavra para mim sempre teve contorno mais ficcional, pouco a ver com a realidade. sociedades caracterizadas por condições de vida insuportáveis fazem parte de filmes, séries, literatura. nosso porvir incerto nos remete a um sonho acordado semelhante a um pesadelo. ninguém nasce imaginando viver infinitamente, mas a morte já andou disfarçada, postergada, convenientemente nas sombras. resolveu agora criar intimidades, caminhar ao nosso lado. feia e suja. triste e não mais respeitando idades. pode nos carregar amanhã sem apelação. soberana. inverteu a lógica dos prazos conhecidos. envelhecer passando a ser um luxo. se caetano veloso, aniversariante da semana, escreveu uma oração ao tempo onde propõe um acordo com ele, solicitando-lhe ser mais vivo no som de seu estribilho, não há como nosso espírito ganhar um brilho acentuadamente definido. porque tudo está opaco, fosco, cinza. partiremos entubados, afogados, sairemos para fora do circuito do tempo assim, minúsculos. sem rimas no destino. e por sermos tão pequenos, finalmente termos dado à natureza chance de ridicularizar nossa soberba, estamos encurralados pela virulência do agente biológico. tempo, tempo, tempo. sonhamos com vacinas. mas os microrganismos patogênicos agressivos podem mutar e inviabilizar curas. tempo, tempo, tempo. e se tanto tenho me preocupado com o correr dos minutos, jeito próprio deles se movimentarem ultimamente, já não sei se continuarão a existir ou também se transformarão. minutos, minúsculos, abstrações. o tempo sendo nada. indistinguível. de segunda a domingo. de bocas e narizes escondidos. ausência de abraços. solidão. o asséptico como ideal. vírus, virose, viração. um tipo de vento fresco passado. viração. brisa. o tempo já não é senhor do destino. já não há destino certo. estamos? eu quis fazer um texto ligeiro. não um yeyeyê romântico, um anticomputador sentimental. objeto não identificado. a pandemia é um ovni.  sou eu sem tempo para maiúsculas. nada grande. pois o sentir é pequeno, minúsculo, menor em mim.

agosto/2020

Jayme Reis

Ricardo Ramos Filho

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

Jayme Reis, artista plástico brasileiro. Autodidata, multidisciplinar, 1958 – Itabira, Minas Gerais, explora a diversidade de linguagens – cerâmica, objetos, desenho, gravura, fotografia e arte digital, buscando expressões limítrofes de linguagem e de gêneros. Atuou como professor de escultura no Elke Hering Atelier, Blumenau, SC, 1988. Foi artista visitante no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC (1990) e do Coltec/UFMG (1994-95).  Obteve o Prêmio de Incentivo à Cultura do Estado de Santa Catarina, Secretaria Estadual de Cultura, Florianópolis (1990) e o 1º Prêmio no I Salão de Artes Plásticas da Cidade de Uberaba, MG (1995). Participou do Salão Nacional de Curitiba (1991-97); Bienal Nacional de Santos, SP (1995); I Concurso de Arte Erótica e I Salão de Arte Erótica, Barcelona, Espanha (1996). Publica o livreto/catalogo EPIPHANIA contendo texto e 37 imagens que narram a sua experiência com o Photoshop e a fotografia digital (2007).  Selecionado para o projeto de Residências Artísticas da Fundação Bienal de Arte de Cerveira – Vila Nova de Cerveira – Portugal, e também para o projeto de Residências Artísticas do Polo Cultural Gaivotas | Boavista – Lisboa (2017) Algumas de suas obras passam a integrar a Coleção Lusofonias da Perve Galeria – Lisboa (2018).

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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Colaboradores de Agosto de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Antônio Torres, Artista Moçambicano Qualquer, Audemaro Taranto Goulart, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Carina Sedevich; Rolando Revagliatti, entrevista, Carlos Alberto Gramoza, Carlos Barbarito, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Claudio Parreira, Deusa d’África, Eunice Boreal, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, G Morantt, Godofredo de Oliveira Neto, Henrique Dória, Hermínio Prates, Hirondina Joshua, Juan Manuel Terenzi, Katia Bandeira de Mello-Gerlach, Leandro Rodrigues, Leila Míccolis, Maria Azenha, Marinho Lopes, Miguel Ángel Gómez Cortez ; Moisés Cárdenas, entrevista, Milton Lourenço, Nelson Urt, Nuno Rau, Reynaldo Damazio, Ricardo Ramos Filho, Waldo Contreras López


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes de despertar', 1944


Paginação:

Nuno Baptista


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