ANO 9 Edição 95 - Agosto 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Nos 50 anos da morte de Salazar: algumas considerações (1889-1970)    

Quando passaram em memória os 40 anos da morte de Salazar, em 2010, um historiador português residente em Dublin, independente dos meios académicos lusos, publicou com cerca de 800 páginas a primeira obra verdadeiramente académica sobre o político: Salazar, de Filipe Ribeiro de Meneses originalmente em inglês, mas rapidamente traduzido para o português na chancela da Dom Quixote.

Salazar morrera a um 27 de julho de 1970. O livro apareceu em Portugal em setembro de 2010. Agora passam os 50 anos da morte de Salazar, a 27 de julho de 2020.

Se calhar, os historiadores, animados com a ousadia de um historiador cujo aparato teórico se moldava no distanciamento do universo anglo- saxónico, já se atrevem a escrever para além do estafado discurso do antifascismo. José António Saraiva em 2020 escreve uma obra encomiástica, com a queda do ditador numa casa de banho e não numa hipotética cadeira. Episódios de amores, de melancolias. A direita muito radical aposta sempre na divinização de Salazar. E que o império português deveria ter sido perpetuado até aos dias de hoje. Qualquer pessoa informada sabe que isso não seria possível no contexto político dos anos 60 e 70.

Do lado da esquerda académica, temos a voz oficial da esquerda, Fernando Rosas. Com a tónica no fascismo. Na repressão. Na ausência de liberdades. Nos crimes.

A direita radical coloca Salazar nos píncaros. A esquerda radical, diaboliza.

José Miguel Sardica, em 2016 problematiza em Terminar a Revolução, interações entre a demanda dos liberais desde o século XIX até ao 25 de abril, mas com a tónica na Revolução Francesa de 1789 enquanto mote.

De assinalar, do lado dos não académicos, mas dos divulgadores, a obra de mais de 450 páginas de César Santos Silva: António, o outro Salazar de outubro de 2019. É uma obra rica em curiosidades biográficas e políticas. Implementando aspetos menos conhecidos.

Passados 50 anos da morte de Salazar, ainda os campos estão extremados. Uma extrema direita cega. Uma esquerda militante e, à maneira dela, também cega.

Mesmo sobre figuras fundamentais do salazarismo e que se cruzaram com o modernismo português, António Ferro, por exemplo, ainda há muito a necessidade revanchista do julgamento inquisitorial. Certa esquerdas académicas em vez de se distanciarem e analisarem as décadas entre 20 e 70 do século XX com algum rigor, disparam os ódios em relação aos fascistas, aos fascismos, ao ditador fascista. A face do Mal.

Claro que não houve liberdade de expressão. Claro que existia uma Polícia política. Claro que houve perseguição e crime. Claro que era um Portugal muito beato e conservador. Mas e a Europa até à 2ª Guerra Mundial, o que fora? Portugal e a Espanha continuaram com os regimes ditatoriais para além de 1945. Mas Salazar e Franco eram diferentes em tudo. Aliás, Salazar não surge do nada. Se calhar, é importante recuar no tempo. Percecionar a deriva dos liberalismos, dos miguelismos. Dos conservadorismos.

Salazar puro fascista? Inclino-me para um não. Beato, reservado, manipulador, mas que evitava multidões.

A Literatura, essa, pertencia à esquerda desde sempre. Sobretudo a partir dos anos 30. A Cultura, também.

A PIDE reprimia. Mas os intelectuais de esquerda pululavam por todo o lado.

Serão precisas mais quantas décadas para olhar sem passionalidades o período entre 1926 e 1970?

Sem o julgamento radical de esquerdas e direitas? Quanto à revolução do 25 de abril, ela própria ainda muito sacrificada a olhares extremos, já respira alguns ventos de análises menos apaixonadas.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

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Revista InComunidade, Edição de Agosto de 2020


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