ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Álvaro Alves de Faria


Marco Lucchesi: presidente da ABL e o direito ao sonho    

SONHO
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         Vamos entrar direto na nossa conversa, sem mais demoras poéticas e palavras que nos levam a um cenário muitas vezes desolador em que estamos envolvidos, como num beco sem saída que, a cada dia, se torna mais sombrio, infelizmente para todos nós. Vamos entrar nessa palavra de maneira livre, o que ainda nos resta nestes escombros que nos cobrem de receios. Vamos começar rápido, que muito temos a dizer. Apesar de tudo, ainda há o que dizer.

         ÁLVARO –  Marco Lucchesi, o que é ser presidente da Academia Brasileira de Letras, a Casa de Machado de Assis?

         MARCO LUCCHESI – Meu amigo, é uma honra e uma intensa missão. Uma escola onde aprendo com várias gerações que integram a Casa de Machado, o somatório de experiências e a visão plural que constitui o recorte temporal dos acadêmicos. E sobretudo o clima de diálogo e de cultivar com sabedoria a diferença. São muitos os trabalhos na Academia, segundo os estatutos, cultivo da língua e da literatura. As que se agregam tantas ações sociais, acordos internacionais de todo o mundo e instituições de pesquisa e ensino.

 

         P. Quais são esses trabalhos?
         ML – Muitos. Citemos alguns exemplos: Um com a Marinha para levar nossos livros aos países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Outro, com as edições da Câmara, ajudando na preparação de livros, prefaciando e indicando uma parte da distribuição. Seria longa a enumeração dos trabalhos. Agora, em tempos de COVID-19, mudamos a interface de nosso site com uma série de proposições virtuais, para mitigar as dificuldades do momento. Escrevemos para as diversas academias dos estados brasileiros, em mensagem solidária, pedindo para que a cultura seja reforçada num momento complexo como o que estamos vivendo. Cultura também é remédio.

 

         P. Sim, Lucchesi, como nunca neste país, cultura é também remédio. Quais são os problemas mais presentes?
         ML – Atualmente a pandemia, os desafios administrativos em tempos difíceis. Manter até onde seja possível as atividades virtuais e não perder a ocasião para promover – o que se tornou mais complexo, mas estamos viabilizando uma série de ações de cunho social em zonas vulneráveis em cada estado brasileiro.

 

         P. E os recursos para isso tudo nesta dura realidade atual?
         ML – Os recursos seguem limitados, mas o gesto e a simbologia continuam intensos. A fome voltou. E nós queremos inserir um livro na cesta básica. Começamos pelo Morro Preventório, em Niterói. A realidade é exigente e inegociável. Exige não poucos gestos de ousadia e um espírito de resiliência a médio e longo prazo. O mundo quebrou. E a retomada levará tempo.

 

         P. Como você vê esse desprezo à cultura hoje no Brasil, como algo supérfluo?
         ML – Adoecemos também nesse contexto. A cultura é o bem maior, promotora da paz, da coesão, é mantenedora do direito ao sonho, como aparece no clássico Bachelard. O desprezo à cultura em nosso país é o sinal evidente da nova barbárie. Muitos se orgulham atualmente da própria ignorância, de fanatismos levados a programas e uma série inumerável de coisas irreproduzíveis.

 

         P. Vejo a cultura brasileira relegada a uma espécie de último plano entre as prioridades brasileiras.
         ML – Creio que nem no último plano está relegada, mas os professores continuam firmes na defesa, os cientistas, os escritores e os artistas em geral. Trata-se da marca do humano de sua noosfera, como dizia Teilhard de Chardin. Bem inalienável.

        
         P. Lucchesi, parece-me um quadro sombrio. Como você diria?
         ML – Sombrio. As editoras padecem. Muitas adoeceram e outras encontram-se na UTI. As feiras tornaram-se impossíveis. As pequenas editoras, atrevidas, fazem o que podem. Os poetas continuam vivos. As gavetas cheias, mas através da internet, movem-se coletivos, engajam-se poetas num livro sem páginas para muitos leitores. Estamos atentos. Não perdemos o sentido da utopia, meu querido Álvaro, e estamos de mãos dadas. 

 

                                              

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         É preciso dizer o seguinte: Marco Lucchesi é um poeta que produz, atualmente, o que há de melhor na poesia brasileira. A cada livro, a cada poema, a cada palavra, essa poesia se revela de forma nítida, clara. Diante e dentro dos escombros da paisagem atual da poesia deste país, sem generalizar, ler Marco Lucchesi significa viajar muito além desse poema que, de alguma maneira, resgata a palavra de sua morte. Não há exagero: é entrar numa espécie de paisagem sagrada. Não é à toa que ele é o presidente da Academia Brasileira de Letras, sendo respeitado por seus pares e um dos poetas mais admirados no Brasil. Nele, a palavra é clara e a poesia se mostra por inteiro, sem apelações, exatamente como exige a poesia dos poetas verdadeiros.

 

         O poema de Lucchesi é de poucas palavras, mas com versos de uma densidade que só mesmo a verdadeira poesia pode conter. Não é um poema sem alma, sem sangue, sem respiração, coisa que se tornou comum no Brasil. O poema de Lucchesi é um poema feito, sobretudo, com poesia, essa mesma poesia que, para muitos, deixou de existir. Vamos conversar sobre alguns de seus livros. Por exemplo, “Meridiano celeste & bestiário”. É um livro raro desse poeta raro neste deserto de ideias e de poesia.

 

         É preciso lembrar que Lucchesi é carioca, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Afirma que “Meridiano celeste & bestiário” é um livro em que se perde e se reencontra: “Uma alegria desconcertante, mas discreta e atenta”, observa o poeta, explicando as citações dos filósofos Farias Brito e Spinoza: Os dois “têm a noção do aberto e do todo. Os meridianos. Os equinócios. Uma visão generosa. Desengavetada. Desalfinetada. Para falar de papéis esquecidos. E mortas borboletas. Gosto da dimensão do mais. Da nostalgia do mais. Sou partidário do Mais”.

 
         Este livro não se resume apenas nisso, porque a cada leitura a informação poética se mostra com veemência. A veemência poética só é vista em poetas que sabem desse ofício de lidar com palavras longe das leviandades reinantes.

                  
                   Bem sei que as partes
                            que me cercam
                            não me atendem

                   que me debato
                            num exílio
                            de fontes e cuidados

                   que sonho a cada instante
                            um vento que me leve
                   para outro mundo

         Lucchesi tem um poema com seu nome. E o poema explica que “Marco Lucchesi/ é o nome/ de uma nuvem/ árdua pluriforme/ ligeira/ e imperscrutável/ que se desmancha/ na medida/ em que se mostra/ tão maleável/ como/ um serafim”. E mais: para se situar melhor, se explica como um poço, um estranho, mudo e longilíneo: “o medo para fora e o grito para dentro”. Como se diz: um “anjo da terra”.

 

          Como sempre, um livro de encantamentos. Tal palavra é perigosa, visto que está definitivamente proibida na poesia brasileira. Nada mais pode se encantar nem se fazer de encanto. Os seguidores da poesia que se anula como poesia e do poema que se anula como poema não admitem a poesia como poesia, nem o poema como poema. Marco Lucchesi, graças a seu destino de poeta, está do lado dos que se deixam encantar com a poesia e pela poesia.

 

         Em outro livro, “Bestiário” - (o poeta é uma fera cercada de palavras) – Lucchesi percorre a vida dos bichos, construindo pequenos retratos absolutamente comoventes, como “Vagalume”: - “Sábio/ alquimista/ do ouro das estrelas/ teóforo/ da escuridão/ prepara/na vigília do graal/ a insurgente/ epifania da aurora”. Vejam o poema para a girafa, citada amavelmente nas páginas do Alcorão, como diz o poeta: “Passeia/ nas páginas/ do alcorão sagrado/em/ lindos/tanques/ em/ verdes/ prados/ sufi pernalta/ mudo minarete/ bebe os versos do/ profeta/ em vertigem/ de ascensão”.

 

         Essa parte do livro dá bem a dimensão de um poeta envolvido com a vida, tendo à frente, na sua palavra, no seu respeito, os animais que percorrem a existência, no caso seres de um outro plano existencial num universo poético raríssimo. A poesia de Marco Lucchesi mostra sempre o lado religioso da palavra, a frase que se revela num tom de documento da alma, por mais estranho que isso possa parecer. Ocorre que esse poeta conhece a cor das manhãs e sabe percorrer as noites, talvez a andar por montanhas com um cajado de incertezas, com a água necessária para regar a terra em que pisa, com o gesto que, além do poema, representa, antes de tudo, a Beleza.

        
         Num dos poemas de agradecimentos, ele diz obrigado ao céu em chamas, aos gerânios antúrios quintais infinitos, às tardes e madrugadas, bazares especiarias, amores e devaneios, às línguas e povos de todos os quadrantes:

 

         Obrigado
                   sonhos noturnos
                   igrejas barrocas e mesquita
                   primeiras orações e terço azul escuro.

         obrigado
                   amigos
         não tenho palavras e silêncios
                   espadas flamejantes
         e mares de calor

         muito obrigado
                   obrigado de verdade

         Marco Lucchesi
                   Agradecido.

         “Meridiano celeste & bestiário” é um livro para muitas leituras, para muitas viagens a descobrir palavras e acenos, um aceno que também é poema no simples gesto da mão que mostra a poesia que pertence ao homem e à terra, ao espírito e ao destino, dessas coisas que foram esquecidas. Infelizmente. Mas felizmente ainda existem poetas assim, como Marco Lucchesi. E enquanto existirem poetas assim, a poesia estará a salvo.

 

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         A beleza existe, mas nem sempre transcendente. Transcendente, por exemplo, está nos poemas de Marco Lucchesi, como se tem visto nos livros que escreveu e publicou. Existe a beleza, equivale dizer: existe a poesia, especialmente num tempo de equívocos e fraudes que se dizem poéticas. Por causa de poetas como Lucchesi, pode-se dizer que nem tudo se perdeu. O Brasil é um país poeticamente infeliz, com alguns equivocados determinando situações constrangedoras para a poesia brasileira. Felizmente ainda existem poetas no Brasil, poetas que sabem de seu ofício. Por esse motivo, livros como “Sphera” representam uma imagem salvadora entre os naufrágios atuais.

 

         Eu sabia o que estava fazendo quando, como jurado, indiquei o livro “Poemas Reunidos”, de Marco Lucchesi, para receber o Prêmio Jabuti de 2002, na área de poesia, o que não ocorreu. Isso, no entanto, não vem ao caso. Nada vem ao caso. Importante é bendizer este livro, esta poesia. Marco Lucchesi faz uma poesia de iluminação e brilho. Uma poesia limpa. “Escrevo sem/deixar vestígios”, diz num poema. É assim mesmo. Sem alarde. Silencioso nesse seu ofício de revelar um universo que não está à disposição do olhar comum. “...invoco/ uma palavra/ que me salve/ dos extremos”, observa num outro poema, a dar pistas da elaboração de uma poesia que está além e ao mesmo tempo dentro da palavra, do poema.

 

          Lucchesi afirma num poema que não há segredo algum no corpo da palavra. Diz com sabedoria, porque sabe lidar com elas, sabe dar a elas o brilho que deve ter o poema. E o que dizer do magnífico “Sphera”? Marco Lucchesi explica que “Sphera” representa uma viagem de iluminação da palavra, da poesia tantas vezes aviltada nos tempos atuais, numa inversão de valores lastimável. Nem tudo, no entanto, está perdido. Enquanto existir poesia assim, existirá a luz anunciando que a poesia está viva no aceno, na ausência, nos dedos, nas ruas, no rosto, na vida. “Não desejo/ outra/ quimera além/ do mal que/ me/ consola/ e desespera”, diz um dos poemas de brilho deste livro. Como se a dar uma sinalização do universo do poema, da alquimia ao chão, do espírito ao gesto de toda redescoberta. Por fim, é preciso atentar para o clima poético da obra de Lucchesi. Um clima feito de e para a poesia, com poemas que são gestos do mais fino cristal diante dos temporais do cotidiano de brutalidades vigente.

 

         P. - Marco Lucchesi, este livro “Sphera” guarda segredos poéticos que nem todos conhecem. Diante de um livro assim é possível respirar a poesia que pertence à vida. É possível definir “Sphera”?

         ML - Sim. E Não. Poderia. Não poderia. Mas tento. Acho que preciso tentar. A poesia para mim transcende o poema e se confunde com o universo, paralelo, infinito, simpático, que tenha o sujeito como centro de uma razão emocionada, atravessada de furores, ou talvez sobre-humanos silêncios, matemáticos, metafísicos, apofáticos. Trata-se de uma força ígnea. Coisa de incêndios sutis. O poema são as cinzas deste incêndio. E devem as cinzas guardar de forma indelével o incêndio que as gerou. Trabalhamos com algumas brasas e cinzas. Em “Sphera”, trabalho sobre as cinzas.

 

         P. – O que seria, na poesia, trabalhar sobre as cinzas?

         ML -  Penso, mas não sei definir o tamanho e a razão, de que poeta e alquimista trabalham com ácidos, sais e palavras. E sonham uma espécie de criação luminosa, usando suas bacias, seus pelicanos, fornos-atanores, tubos de ensaio, e sobretudo com a matéria viva de sua loucura apolínea e sobriedade dionisíaca. Trabalham em seus contrários. Poetas e alquimistas não obedecem o status quo da matéria e da palavra. Sonham combinações. Atrevimentos. Descobertas. Mas sabem – o poeta e o alquimista – que o ouro sutil não está fora de uma estrita empiria. Um empirismo provavelmente mágico e certamente transgressor. Transcriador. Buscam a tradição mais arcaica para justamente criar uma nova sensação de vida, palavra e liberdade. Sabem porém que a pedra filosofal do poema e do rebis alquímico jamais se alcançam. Tentei, tentei responder, mas acho que não pude...

        
P. – Marco Lucchesi, qual foi sua trajetória poética, desde a publicação de seu primeiro livro?

         ML - A mais escondida e silenciosa possível. O estado de poesia muito cedo se exprimiu em versos. Mas eu precisava passar por muitos mares, e livros, e prateleiras, e amores, e desesperos, e lágrimas. Uma conversão que sofri – como outros e mais ilustres que eu – que se passou da erudição ao belo. Tentativas. Itinerários. Sonhos de máquinas do tempo, para frente e para trás, poeira de arquivos, areias de desertos e das profundezas do Brasil. Meus Orientes. Meus Ocidentes. A revolução. A mudança. Ciência e Teologia. Mas fui trabalhando em mim. Uma visão mais consistente dessa trajetória encontra-se em Poemas reunidos, que saiu em 2000, mas além disso, outros passos foram trilhados na tradução poética – que abandonei –   de muitas obras, inéditas sobretudo, e as que faliram  (o número de minhas antitraduções superam de muito o das traduções!!), e as que vingaram como Rilke ou Pasternak, Trakl ou Khliébnikov, Quevedo ou San Juan de la Cruz.  Todos os caminhos levam a Roma e a Meca.

 

         P. – O que representa a literatura e especialmente a poesia na sua vida?

         ML - Sei que a literatura e a poesia me salvaram, permitindo uma articulação entre o plural e o singular, o particular e o universal, como se a possibilidade do poema representasse um caminho escondido e sublime, que se espalha para o passado e o futuro. Assim, os livros de Proclo e as Cartas de Platão, o poema que Camões não escreveu, e os futuros que não sei, mas que me atrevo a desenhar. A poesia serve de máquina do tempo – a que sonhava em menino, e que depois vim a estudar com as Curvas de Tempo Fechadas, com Gödel e Mario Novello –, ligando universos que poderiam não conversar entre si, extremos que talvez não se tocassem. Uma pergunta para muitas janelas. Assim, com lentes foscas e opacas, compreendo minha des-trajetória, como a entende a física moderna, cuja base repousa no colapso da trajetória.  Mas insisto. Meço minha ignorância e minha vontade de viver.

 
         P.- Num mundo conturbado como o atual, com valores invertidos em todos os sentidos, há ainda lugar para a poesia?

         ML -Vejo a poesia como valor. Ou como lugar da construção de. Máquina formidável, que resiste nas suas monumentais contradições, em sua matemática transcendental, em voragem de mistério que se exprime sem mistério. De quando em quando se declara a morte da poesia, como se ela fosse um impedimento depois de uma tragédia humana. Não há dúvida de que os tempos, os de hoje, são árduos, ferinos, cruéis. E a cada qual foi reservada uma herança, como as dos que naufragam – sem ao menos contar com um espectador, e sua compaixão.

 

         P.- A poesia tem de ser vista mesmo como um valor. Especialmente em tempos árduos, como você diz. Parece que tudo se repete.

         ML - As obras fundamentais parecem que também foram escritas em períodos semelhantes. O exílio de Dante e de Ovídio – em tempos absolutamente duros. A poesia é a condição humana. Dos que podem contar com o feudo lírico da infância, pequenos senhores e vassalos de suas terras, com seus olhos marcados de orvalho, do primeiro orvalho, que seus olhos alcançaram, como o Adão do Paraíso perdido, de Milton.  Vi poemas escritos (e belos!) em regiões que hoje se encontram em condições que humilham a Carta dos Direitos Humanos. A poesia é o lugar. A forma. A vontade. Todas as fontes que afirmam o mundo e que o recusam e que o transformam. As lágrimas de Ovídio e a ira de Castro Alves.
 

         P. -Diante de certa "poesia" de valor discutível, mas que tem espaço garantido na mídia, como entender a poesia produzida por poetas como você e tantos outros que trabalham a poesia com honestidade?

         ML – Muitos nomes da poesia brasileira merecem meu aplauso, como você, Álvaro, com seus luminosos cinquenta anos de poesia. Gosto muito desses caminhos poéticos. Muitos nomes vão ocupando seus espaços, fazendo seus leitores e criando amigos, nesse diálogo aéreo ou subterrâneo que as ligações literárias sabem estabelecer. Afinidades eletivas. Pontes invisíveis. O panorama da poesia brasileira hoje é extenso e fértil, e poderia citar muitos nomes, de norte a sul do país. O lado negativo – a meu ver – repousa nas igrejinhas, nos pequenos partidos, em certas mistificações, ou zelos excessivos, e na tremenda confusão de transformar a experiência literária num pretexto. Um exemplo disso: quando no campo de certa publicidade, uma questão ética é deslocada para o setor de marketing. Essa marquetização deve ser evitada no campo da literatura. Se os que a realizam esperam louros e resultados apenas... talvez estejam a desperdiçar o estado de ser mais visceral, o risco mais intenso e profundo, que o fazer poético pode produzir, ainda que em modos de fazer onde a emoção pareça de todo ausente.

 
         P.- Neste mapa brasileiro de infortúnios que invadem infelizmente também a literatura, eu lhe pergunto se existe crítica literária no Brasil?

         ML -Existem ótimos críticos literários em nosso país. Ocorre que a visibilidade hoje é problema de ordem astronômica no Brasil. Acho que é mais fácil ver a olho nu um satélite de Marte do que alguns textos de crítica que se publicam em revistas especializadas e que continuam paradoxalmente inéditos. Outro aspecto dessa visibilidade é que não se observa a hegemonia de um discurso ou a presença mais forte de um crítico-paradigma, como ocorria em outros tempos e lugares. Mas é claro que sonho com uma perspectiva aberta, livre e independente. Mas sobretudo criativa, dialógica, atenta ao panorama e ao sujeito, sem reduções do segundo ao primeiro, minuciosa e flexível, que não renegue sua paixão pela palavra, e que se torne um nobre interlocutor, realizando aquilo que Umberto Eco considerou a intenção do leitor, que não se deve perder de outras duas intentiones: do autor e da obra. Essa relação delicada faz com que a distância entre o crítico e o artista não apenas diminuam, mas se confundam. E isso vem acontecendo.

 

         P.- A poesia deve ser escrita com emoção ou a emoção está proibida na poesia brasileira?

         ML - A legislação mais bela e complexa, mais cheia de regras e sem regras, mais limitada pela matéria e mais infinita pela sua combinação, mais clara e misteriosa, mais forte e mais frágil é a condição da poesia. Nada está proibido. O poema deverá justificar em seu próprio corpo, todas as suas razões. Trata-se de um universo de vastíssima mobilidade quântica. Tudo pode, mas o sistema, a trajetória, a combinação, o sentimento é que determinam se pode ou não. Os que adotam apriorismos frente ao poema, esses não deveriam ser críticos nem poetas. Existem caminhos, escolhas, horizontes. Se não se levam em conta essas variáveis, corre-se o risco de uma crítica náufraga, incerta, invertebrada...   

 

         P.- Querido amigo Marco Lucchesi, você é um poeta e não há necessidade de adjetivar para explicar sua grandeza. E um poeta hoje presidente da Academia Brasileira de Letras. Mas, um poeta. Diga-me: O que é ser poeta no Brasil?

         ML -Perché tu  mi dici poeta?, perguntava o jovem Sérgio Corazzini.  São tantos os desafios. Os dentes do Tigre e a Palavra-Cordeiro. Consciência. E abandono.  Um permanente estado de não-saber. De espera. De palavra. De silêncio.  O poeta deve guardar um compromisso que tende para o silêncio.  Para o menos. Ainda que esse menos seja povoado, por mil ou dez mil versos, um livro ou cem mil. Mesmo assim, deve tender para o menos. Movido por uma nostalgia do mais, segue para o menos. O universo numa folha. Como Dante, em três versos, a falar de Deus. O errante infinito da poesia, que pode tudo. O verso e o universo – como já se disse algumas vezes. Os Sertões de Rosa e de Euclides – inteiros, absolutos – na vastidão de suas palavras. Ou tudo ou nada. Uma tarefa árdua. Mas, afinal de contas, perché tu mi dici, poeta?

 

 

PRÊMIO POESIA E LIBERDADE ALCEU AMOROSO LIMA DE 2018, PELO CONJUNTO DA OBRA, RIO DE JANEIRO.

PRÊMIO DE POESIA GUILHERME DE ALMEIDA DE 2019, PELO CONJUNTO DA OBRAS, SÃO PAULO.

 

Da Geração 60, Álvaro Alves de Faria é um dos nomes mais significativos da poesia brasileira atual. Jornalista, poeta, escritor e artista plástico. Ciências Sociais. Literatura e Língua Portuguesa. Mestrado em Comunicação Social. Belas Artes. Instituto Nobel-Desenho. Teosofia. Dedica-se a Histórias em Quadrinhos, desenhando seu personagem ”Pimtim”, um passarinho poético e melancólico. Dedica-se, também, à ilustração. É autor de mais de 50 livros no Brasil, incluindo poesia, romances, ensaio literário, livros de entrevistas literárias e peças de teatro. Mas é fundamentalmente poeta. Como jornalista cultural, pelo seu trabalho em favor do Livro, recebeu por 2 vezes o Prémio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e por 3 vezes o Prémio Especial da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte. Foi distinguido, ao longo dos anos, com os mais importantes prémios literários do país. Sua peça de teatro “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo” recebeu o Prémio Anchieta para Teatro, um dos mais importantes dos anos 70 no Brasil. A peça, no entanto, foi proibida de encenação e permaneceu censurada até à abertura política, quase ao fim da ditadura. O mesmo ocorreu com seu livro “4 Cantos de Pavor e Alguns poemas desesperados”, proibido de distribuição às livrarias. Foi o iniciador, nos anos 60, dos recitais públicos de poesia em São Paulo, quando lançou o livro “O Sermão do Viaduto”, em pleno Viaduto do Chá, então o cartão-postal da cidade. Com microfone e quatro alto-falantes realizou nove recitais no local e foi detido cinco vezes como subversivo pelo DOPS – Departamento de Ordem Pública e Social. Essa quinta detenção determinou a proibição definitiva do movimento. Por sua militância contra a ditadura voltou a ser preso em 1969, entre outras coisas por desenhar os cartazes do Partido Socialista Brasileiro, então na clandestinidade. Foram 11 meses de prisão, de onde saiu com 49 quilos. Quatro anos depois, na invasão de uma reunião pela polícia da ditadura, foi alvejado com um tiro na cabeça. A bala não pôde ser retirada. Convive com ela até hoje. Dedicou-se por mais de 15 anos à poesia de Portugal, terra de seus pais, onde tem 21 livros publicados – 20 de poesia e 1 novela. Essa trajetória começou quando representou o Brasil no III Encontro Internacional de Poetas na Universidade de Coimbra, em 1998, a convite da ensaísta e professora Graça Capinha, tendo sido, então, o nome mais discutido no evento. Em 2010 foi homenageado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo pelo Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado, então presidida por Antonio de Almeida e Silva, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa, celebrado em 10 de junho, por sua contribuição à cultura luso-brasileira à qual sempre se dedicou. Em 2019 recebeu homenagem da Câmara Municipal de Anadia, em Portugal, onde nasceu sua mãe que foi a figura central do evento. Foi o poeta homenageado no X Encontro de Poetas Ibero-americanos, em 2007, em Salamanca, Espanha, nesse ano dedicado ao Brasil, convidado pelo poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart, professor na Universidade de Salamanca, quando recebeu o título de “Huésped Distinguido de Salamanca”. Teve publicada, no evento, uma antologia de poemas “Habitación de Olvidos”, com 370 páginas, seleção e tradução de Alfredo Perez Alencart. Tem 8 livros publicados na Espanha, 5 traduzidos pela poeta espanhola Montserrat Villar González e 3 por Alfredo Perez Alencart e Jaqueline Alencart. Um desses livros faz parte da mais importante Coleção de Poesia de Espanha, dirigida pelo poeta Antonio Colinas. Participa de mais de 70 antologias de poesia e contos no Brasil e em vários países. É traduzido para o espanhol, francês, italiano, inglês, japonês, servo-croata e húngaro.  

                                                                                                        
 LIVROS DE POESIA DO AUTOR

NO BRASIL:

“Noturno maior”, Portugal Ilustrado, São Paulo, 1963

 “Tempo final”, gráfica da Fiesp, São Paulo, 1964   

“O sermão do Viaduto”, Editora Brasil, São Paulo, 1965

 “4 cantos de pavor e alguns poemas desesperados”, Alfa Ômega, São Paulo, 1973

“Em legítima defesa”, Símbolo, São Paulo, 1978 

“Motivos alheios”, Massao Ohno, São Paulo, 1983 

“Mulheres do shopping”, Global, São Paulo, 1988 

 “Lindas mulheres mortas”, Traço, São Paulo, 1990 

 “O azul irremediável”, Maltese, São Paulo, 1992 

 “Pequena antologia poética”, Ócios do Ofício, Curitiba, 1996 

 “Gesto nulo”, Ócios do Ofício, Curitiba, 1998 

 “Terminal”, Ócios do Ofício, Curitiba, 1999, e RG Editores, São Paulo, 2000 

 “Vagas Lembranças”, Quaisquer, São Paulo, 2001 

 “A palavra áspera”, Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2002 

 “A noite, os cavalos”, Escrituras, São Paulo, 2003 

 “Trajetória Poética” – poesia reunida – Escrituras, São Paulo, 2003 

 “Bocas vermelhas” – poemas para um recital – RG Editores, São Paulo, 2006 

  “Babel” – 50 poemas inspirados na escultura Torre de Babel, de 
  Valdir Rocha, Escrituras, São Paulo, 2007 

 “Os melhores poemas”, com seleção e organização de Carlos Felipe Moisés, 
   Global, São Paulo, 2008 

 “Alma gentil – Raízes” – reunião de sete livros do autor publicados 
  em Portugal – Escrituras, São Paulo, 2010 

  “Resíduos – Maio, 1969” – poemas escritos quando esteve preso em 1969 
   e publicados pela primeira vez somente em 1983, como segunda parte de “Motivos                   alheios” -  RG Editores, São Paulo, 2012 

 “Domitila” – Poema-romance para a Marquesa de Santos, amante de D. Pedro I –
  Nova Alexandria, São Paulo, 2012 

 “O uso do punhal”, Escrituras, São Paulo, 2013 

 “Desviver”, Escrituras, São Paulo, 2015   

 “De Mãos Dadas” (Conjuntamente com a poeta espanhola Montserrat Villar
   González), Escrituras, São Paulo, 2017

  “Minha mão contém palavras que não escrevo” (Conjuntamente com Thereza
   Christina Rocque da Motta), Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2017

  “O tocador de flauta” – Encontro poético com Alberto Caeiro, O Guardador de
   Rebanhos – Editora Patuá, São Paulo, 2018

  “Então brilha o silêncio”, escrito com a poeta italiana Stefania Di Leo (tradução de                                               Álvaro Alves de Faria), Editora Espelho D´Alma, São Paulo, 2020

   “Mulheres de São Petersburgo”, Editora Penalux, Guaratinguetá, São Paulo, 2020

EM PORTUGAL: 

“20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra”, A Mar Arte, Coimbra, 1999 

 “Poemas portugueses”, Alma Azul, Coimbra, 2002 

 “Sete anos de pastor”, Palimage, Coimbra, 2005 

 “A memória do pai”, Palimage, Coimbra, 2006 

 “As pedras dos Templários” (Nos 800 anos de Idanha-a-Nova), Quasi, juntamente com         Ana Luisa Amaral, Fernando Aguiar, Nuno Júdice e Vasco Graça Moura, organização de Graça Capinha, 2006 

“Inês”, Palimage), Coimbra, 2007 

“Livro de Sophia”, Palimage, Coimbra, 2008 

“Este gosto de sal – mar português”, poesia, Temas Originais, Coimbra, 2010 

“Cartas de abril para Júlia” (novela), Temas Originais, Coimbra, 2010 

“Três sentimentos em Idanha e outros poemas portugueses”, (Temas Originais, Coimbra, 2011 

“O tocador de flauta”, Temas Originais, Coimbra, 2012  

 “Almaflita”, Palimage, Coimbra, 2013  

“67 sonetos para uma rainha”, Palimage, Coimbra, 2014

“Desviver”, Palimage, Coimbra, 2015 

“À flor da pele”, Temas Originais, Coimbra, 2016 

“23 elegias da mão esquerda”, Palimage, Coimbra, 2017 

“A duas vozes”, escrito com a poeta portuguesa Leocádia Regalo, Palimage, Coimbra, 2018

 “47 poemas femininos”, Palimage, Coimbra, 2019

 “Em contramão”, com o artista plástico português Rui Cavaleiro, Palimage, Coimbra,
 2020

 

NA ESPANHA: 

“Habitación de olvidos” – Antologia poética de 370 páginas – Fundación 
Salamanca Ciudad de Cultura, seleção e tradução do poeta peruano-espanhol, 
Afredo Perez Alecart, da Universidade de Salamanca, 2007 

 “Alma afligida”, Trilce Ediciones, Salamanca, tradução de Alfredo Pérez 
Alencart, 2013 

 “Cartas de abril para Julia”, (novela), Trilce Ediciones, Salamanca, tradução de 
Montserrat Villar González, 2013 

 “Motivos ajenos – Resíduos”, Ediciones Linteo, tradução de Montserrat 
Villar González, Coleção “Linteo Poesia”, dirigida pelo poeta Antonio
 Colinas, 2015 

 “Desvivir”, Tau Editores, Cáceres, tradução de Montserrat Villar González,
2016.

 “Com dos almas por palavra” (Conjuntamente com a poeta Montserrat Villar
 González, também tradutora da obra) – If Ediciones (Salamanca), 2017

“A dos voces”, escrito com a poeta portuguesa Leocádia Regalo, Trilce Ediciones, Salamanca, tradução de Alfredo Perez Alencart e Jaqueline Alecart, 2018 

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


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Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Julho de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alberto A. Arias ; Rolando Revagliatti, entr., Álvaro Alves de Faria, André Giusti, Antonio Manoel Bandeira Cardoso, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Clécio Branco, Danyel Guerra, Deusa d’África, Edimilson De Almeida Pereira, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Godofredo de Oliveira Neto; Maria Eugênia Boaventura, Myrian Naves, Hélder Simbad, João Rasteiro, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Morais, Lia Sena, Luciana Siebert, Ludwig Saavedra, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas ; trad. Sayanbha Das, Myrian Naves, Myrian Naves, Heitor Schmidt, André Nigri e Sérgio Sant’Anna, Nagat Ali, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Waldo Contreras López


Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


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não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

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