ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

André Giusti


Poemas II    

Poema sem título 3

Agora que anoiteceu
é quase matéria palpável
essa agonia
de talheres batendo
e televisão
ligada na casa do vizinho
de cima
de frente
dos fundos
de baixo.
Olhar estrelas
esquecer pedidos
porque nem em criança
acreditei nessas bobagens.
Eu acreditava
em coisas de homens
em verdades de adultos
nas mentiras que conheço agora.
Olhar estrelas
fumar cigarros
fritar ovos
para comer
com pão dormido.
Nem uma carta
embaixo da porta
nem um telefone
que interrompa o que estou fazendo
nem um puto de um vizinho
para reclamar do condomínio.
Eu sinto solidão
como quem abre e fecha a geladeira.
*
Do livro Os Filmes em que Morremos de Amor (Editora Patuá)

 

 

 

 

 

 

Corona Classe Média Blues 1

Não toque nas maçanetas quando chegar
da rua
(aliás, o que você foi fazer na rua?).
Afaste-se delas
de mim
de todos que ama
até se desinfetar
(gel água sanitária sabão sabão
lave as mãos todas as vezes que respirar.
Nesses tempos,
a sanidade está com os paranoicos,
eles alcançarão a salvação).
Até tudo isso passar,
a vida ficará em suspenso
pra balanço e revisão
‘repensamento e ressignificação’.
Aproveitemos que um espirro
pode deixar tudo por um fio,
em que o ontem igual a hoje igual a amanhã
nos ameaça com enlouquecimento.
Já que a tua própria liberdade pode matar
pensa como ser melhor contigo
comigo
teus filhos
com o cara que abastece teu carro
ou com quem estiver no lugar
quando tudo isso passar
e a alegria das crianças tomar o parquinho de volta dessa sensação aflita da morte.
Agora senta aqui mantendo distância,
resiliente como a moda diz.
Se te fortalece
a imunidade,
saiba que teus olhos até são bonitos
assim no escuro
com esse brilho Netflix.

 

 

 

 

 

 

Corona Classe Média Blues 2
*
Qual foi a última vez em que tomei café expresso

Que vi minhas filhas sem ser pelo instagram

E teu rosto amor de perto inteiro mostrando sorriso? 

Nem sei se ainda sei andar de elevador.

Ei, você, administrador! Tenha piedade!

Me exclua de todos os grupos
Do envio de todos os vídeos
Me ajude com essa certeza
De que mais um dia foi inútil.

Não me convide para
e não me indique nenhuma live.
Prefiro a mudez da morte
Que ao menos me poupa do tédio
Da chatice
da tolice do banal.

Queria de volta o ao vivo da carne
Da pele
do hálito
E também não vou brincar do desafio das dez capas.
Já li todos os livros
Ouvi todos os discos,
Tudo tudo me pareceu igual.

Não jogue na minha cara
Em modo de sermão
Que meu lamento é egoísta
Porque posso ficar em casa
E não tenho que enfrentar filas
Encarar condução.

Eu não preciso me sentir culpado
Sou um apenas um cara normal,
Enfastiado das manchetes
Querendo sumir com pratos e talheres
e que todas as noites sonha que tá
Perto de matar o presidente.
Mas sempre acorda antes do final.

 

 

 

 

 

 

Dicas para passar o tempo em cidades históricas

Procurar por nomes e datas
Talhados em pedras de calçamento
E em pontes do século 18.

Basílio e Emereciana
Por aqui passaram em 1957
É tudo que se sabe deles,
E nossa imaginação se encarrega
De dar-lhes destinos:
juntos para sempre
separados para nunca mais.

Mais à frente improvisamos
Em nós um arquiteto.
“Aqui deveria ser a sala
E ali o quarto onde o comendador Silvério
Passava o cinto de castidade na esposa”,
conjecturamos sem base alguma,
Cercados pelo artesanato banal
Da loja decadente.

Visitar cemitérios nas laterais
Das igrejas
Onde as “famílias de bem”
Sustentam a pompa e a circunstância
Não convencidas de que a morte
Nos reduz à maior de todas as igualdades.

Conferir cada data
De estrelas e cruzes nas lápides,
Nos condoendo de que Maria Palmira
Se foi aos 20 anos
E que Benjamim não chegou a viver 15.

“Que doença ou tragédia
Os terá levado tão tenros
Às portas de seus melhores anos
Em meados do século passado?”

É isso que vamos nos perguntando
Subindo ladeiras
Com o único objetivo
De sentirmos o mesmo cansaço
Das almas antigas.

Tiradentes, 6.1.2020

 

 

André Giusti nasceu em maio de 1968 no Rio de Janeiro e mora em Brasília desde a década de 90. Entre contos, crônicas e poemas, A Maturidade Angustiada (Penalux, 2017) e Os Filmes em que Morremos de Amor (Patuá, 2016) são seus livros mais recentes. Atualmente trabalha em seu primeiro romance. Também é jornalista. Mantém site e blog em www.andregiusti.com.br

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HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


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