ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Algumas notas sobre Clarice Lispector    

A escritora Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920, sendo os pais judeus. Perseguidos por essa condição refugiam-se em Maceió no Brasil em 1922. E posteriormente, em 1935, Clarice fixa-se no Rio de Janeiro.

A obra completa de CL encontra-se atualmente traduzida em Portugal pela Relógio D´ Água, com muita qualidade técnica e cuidado literário. O volume Laços de Família, de 1960 é uma compilação dos inovadores contos da escritora. São 13 contos. Possuo o volume de 1989 com prefácio de Lídia Jorge e também ele da Relógio d’Água.

Há vários livros de CL que nos anunciam uma escrita desafiante e desfragmentadora. Dois títulos: Laços de Família e A Paixão Segundo G.H. (este último de 1964).

Aí percecionamos que é uma narrativa universal e única.

Combinando ocorrências do fantástico ou pequenas minudências do quotidiano, CL conduz-nos a uma simbologia de grandes problemáticas filosóficas, de assombro.

Já Conceição da Silva Zacheu Russo em 2007 nos tinha sugerido algumas perplexidades na leitura do conto “Feliz Aniversário” incluído em Laços de Família (Russo, Conceição da Silva Zacheu, O Discurso da Felicidade em Contos de Clarice Lispector, Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária, PUC-SP, São Paulo, 2007).

Por exemplo, o aniversário da idosa de 89 anos que vive com uma familiar e convoca filhos e netos para o festejo. A autora diz a determinado passo:
“Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta” (in Laços de Família, Relógio d Água ,1989, p.54).

O apocalipse das relações familiares minadas pela hipocrisia e os interesses. Bem lá no fundo a assunção de que a velha senhora não faz falta a ninguém. Quando muito que faça os 90 anos ao que após já nada interessa.

O universo da felicidade enquanto representação de silêncios, pausas, interditos.

Um outro aspeto a assinalar: o teórico Wesclei Ribeiro da Cunha referencia que a ficção de CL já não se demora no olhar sociológico em que quase todos os autores brasileiros se fixaram, mas vai mais além pelo psicológico (Cunha, Wesclei Ribeiro da, A Condição Humana na Poética de Clarice Lispector, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza 2017).

Eu diria que envereda pelo psicológico e o filosófico. Com entroncamentos entre Kafka e Walter Benjamin.

Em CL dá-se a valorização das grandes teias dilemáticas dos afetos, sejam eles quais forem. Dá-se a convocação de tudo o que seja repensar a aparente dualidade morte/vida. A crítica que muitas vezes se faz à escritora por não ser muito empenhada politicamente perante os governos de direita que iam acontecendo, é cega em relação à condição de uma mulher que, após o casamento com um diplomata que a levou a muitos países, e nomeadamente depois do divórcio, regressou ao Rio de Janeiro em desespero de ganhar dinheiro para o dia a dia. Antes do casamento, CL também tinha de ganhar o seu sustento.

Às vezes há uma certa insensibilidade perante questões tão simples como a luta por um ordenado minimamente decente.

CL está ao nível dos nomes mundiais referenciais da Literatura. Ao lado de Kafka e provavelmente de Joyce. Genialidade e alguma solidão inerente a uma condição hiperlúcida.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


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