ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Clécio Branco


Máquina burocrática    

As organizações são necessárias e úteis, até certo ponto, mas lamentáveis em muitos outros. Organiza-se o mundo a partir da subjetividade dos indivíduos para, depois, planificar a vida social. Uma organização religiosa, por exemplo, tem toda lógica de funcionamento baseada em estrutura burocrática. Tem um corpo complexo, com seus departamentos e subdepartamentos - composição burocrática que faz tudo funcionar como se fosse coluna de um grande corpo.

Da sede da organização religiosa às pequenas capelas espalhadas pelo mundo, é a mesma organização burocrática que ajusta e distribui papéis.

De Roma para o mundo, seja lá onde estiver localizada a sede das igrejas. É o “cérebro” das disposições burocráticas para o resto do mundo. “Centro nervoso” de onde partem os comandos para os demais “órgãos do corpo”. Um sistema doutrinário é pensado à distância – a teologia de uma organização religiosa funciona como máquina abstrata da religião – homens de saber traçam a rota dos rebanhos e burocratas do “pão celeste” fazem a distribuição. A metáfora do  rebanho sustenta a maior organização burocrática do planeta – igrejas.

As hierarquias não têm outra função além dessa, a de organizar e distribuir papéis. E divulgar a ideologia que garante o bom funcionamento dos órgãos. É patético pensar numa pequenina igreja de interior - nas fronteiras do mundo - com sua dúzia de membros, tendo que resolver suas questões burocráticas baseada na igreja sede de onde tudo começou – qualquer pensamento diferente será automaticamente notado pelo centro e rapidamente extirpado.

Os papéis de liderança e administração, tendo que serem distribuídos em número igual aos membros da comunidade – no caso, não sobram liderados a quem os cargos se destinam – todo mundo é líder ou sub-líder de alguma coisa.

O que importa é que todos se sintam “poderosos”. E que se distribua o poder em frações determinadas pelos papéis desempenhados.

No caso da pequenina igreja, a comissão de disciplina e punição, será formada pelos próprios, a quem os atos punitivos deverão se destinar.

Mesmo assim, em meio à irracionalidade do processo, os indivíduos disputam os cargos, uns mais do que outros.  Trata-se de uma parcela de poder frente aos órgãos regionais de representação.

Todos lutam para “servir a Deus”. O esquema abstrato da máquina é o saber que legitima a “luta pela servidão pensando estarem lutando pela liberdade”. É o mesmo esquema que leva os milhares a se submeterem a um.

A organização burocrática se instala onde houver um “sistema de verdade” a ser defendido. Sempre que houver “verdades”, haverá também, normas coercitivas a serem aplicadas aos transgressores.

Nesse caso, uma organização burocrática deve se instalar para organizar funções e distribuir papéis determinados, seja nas grandes organizações ou nas de pequeno porte.

 Estamos acostumados a pensar a organização burocrática a partir dos órgãos públicos – órgãos e funcionários do governo imbuídos de regras, enredado em formalidades e preocupado com a rotina –. Porém, a máquina burocrática está presente nos diversos níveis de funcionamento de um órgão central que se espalha em níveis menos elevados dos órgãos da hierarquia – são sempre órgãos de uma organização maior - órgãos de órgãos - até ao nível mais elevado da organização.

Cada órgão está ligado e comprometido com outro na cadeia organizacional. O objetivo final da organização de qualquer “edifício burocrático” é o de fazer funcionar a máquina.

 Mas qual seria o objetivo do funcionamento da máquina burocrática? Quando está em jogo um “sistema de verdades”, o objetivo da máquina é o de não permitir que tais verdades sejam ameaçadas.

O que poderia ameaçar o “sistema do verdadeiro?” Um fluxo discordante ou um fluxo livre, que poria em discórdia todo o sistema.

Os órgãos que compõem a organização burocrática estabelecem rotinas, sacrificam a criatividade em detrimento das normas e do sacrifício das experimentações inovadoras. Tudo em nome de um segredo, ou muitos – “a verdade ou as muitas verdades”.

As normas formais de uma organização se estendem do nível mínimo – produção de subjetividade – ao nível macro no exterior da cultura e da sociedade - modos de pensar e agir no do interior das organizações que se desdobram na vida dos indivíduos fora delas.

Nesse sentido que Félix Guattari aplica as noções de molar e molecular. As formações moleculares operam a subjetividade – modos de pensar e sentir. E, ao nível das grandes estruturas sociais, são produções molares.

São os órgãos e suas organizações – da família à igreja indo ao todo social. Mas é em um indivíduo pequeno que tudo começa, em casa, na creche e no jardim de infância.

A máquina burocrática começa na interioridade das mentes, para depois, sustentar o edifício inteiro das organizações burocráticas. Não existe nada mais contagioso do que uma ideia que penetra os escombros da consciência.

 Depois de tornar-se inconsciente, as sementes inseridas na mente, fazem com que tudo pareça normal – é o senso comum que se transforma em bom senso.

Um estranho acordo entre os indivíduos e as formas de submissão. O déspota se perpetua no poder pelas mesmas razões que fazem do povo submisso às formas de religiosidade espúrias - sendo todos governados por tiranos e corruptos que se beneficiam da submissão.

Implantar sistemas na cabeça é eficaz, ao ponto de fazerem os deuses tremerem. Talvez por isso, terem dito, “é mais fácil escravizar um povo livre do que libertar um povo escravo”.

Uma vez lançadas as bases da submissão, uma vez interiorizados os germes da escravidão mental, pouco pode ser feito. Ainda que provem tudo sobre a corrupção dos líderes – seja de um sistema de poder religioso ou num governo despótico – o povo sairá por uma axiomática tangente para continuar na submissão.

A autoridade e o poder se fundem na organização burocrática, na verdade, a máquina burocrática é a extensão do poder, que se materializa na autoridade da organização burocrática.

Em nossa linha de pensamento, a autoridade e o poder começam em casa - depois cobrem toda a extensão do Mapa Mundi na forma de organização dos órgãos na estrutura burocrática – ao modo Kafka em Carta ao Pai. 

 

 

Psicólogo, teólogo e mestre em filosofia. Clécio Branco é professor de pós-graduação em Psicologia Clínica e professor da Escola de Administração Judiciária do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde também coordena de Projeto de Saúde e Qualidade de Vida da Mútua dos Magistrados. 

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


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Paginação:

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