ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


Entre mim e Tom Jobim houve amor disfarçado de amizade    

 A musa da Garota de Ipanema está festejando as bodas de diamante com a vida

O tempo passa, sem parar. Contudo, mais do que passar, o tempo trespassa (quase) tudo e (quase) todos. Por exceção, só se dispõe a ter clemência com as obras de arte. Algumas, à medida que passam as estações e os apeadeiros, até costumam remoçar, ganhando um viço novo.

Será esse o caso de certas músicas intemporais, eternas como a exemplar  ‘Garota de Ipanema’. A canção bolada, na mesa de um boteco, pela parceria Tom Jobim/Vinicius de Moraes, está a dois anos de se tornar uma sexygenária. A primeira gravação data de 1962, na voz de Pery Ribeiro. Nos 58 anos seguintes, o mais lendário título do hinário da Bossa Nova se tornou a segunda mais gravada no mundo depois de Yesterday, dos Beatles.  Estão inventariadas quase 200 versões, a maioria em língua inglesa, embasadas na letra cunhada por Norman Gimbel. Até Sepultura, uma banda thrash/death/black metal, se apaixonou por ela.

Entre as mais recentes, realço, muito por mérito da sua aura de inebriada irreverência, a cover rubricadaporAmyWinehouse no álbum póstumo Lioness Hidden Treasures, de 2011.  “Por causa de você”, sapeca* garota, Tom é o compositor mais escutado nos EUA, depois dos inevitáveis fab four de Liverpool.

Saturnus (aka Kronos) tem o (bom) hábito de ser, outrossim, magnânimo com as musas. Especialmente se forem mitológicas . No que tange às mortais, acede a fazer apenas escassas concessões. Uma das eleitas tem o nome de Heloísa Eneida Meneses Paes Pinto (Pinheiro pelo casamento).

Helô, seu popular sobriquet, é formada no Magistério Primário, diplomou-se em Jornalismo, integrou o cast de algumas telenovelas globais, apresentou programas de TV, tem tocado empresas na área da moda. Contudo, ser, de carne e osso, de sangue e de humores, a Garota de Ipanema, é a profissão principal desta brunette de olhos cor de safira.

 

No Carnaval de 2013, seu alter ego foi ovacionado destaque no desfile da escola União da Ilha, cujo samba-enredo* tributava o centenário de Vinicius. No final do desfile, ela não escondeu a mágoa por motivo das desavenças com os herdeiros de Tom e de Vininha, devido à disputa dos direitos autorais do nome da mítica canção.

 

Nem de Ipanema, nem do Rio… 

Há alguns anos, todavia, que Heloísa não é nem de Ipanema nem da cidade protegida por São Sebastião. Ela reside em S. Paulo, no nobre bairro de Alto de Pinheiros. E esbanja (bom) humor quando reconhece que agora já não é bem a Garota “que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar”. Acontece que o mar mais próximo beija as praias de Santos, a 75 quilômetros de distância.

Ainda inebriada pelas emoções das bodas de diamante, talhe brilhante, com a vida, festejadas a 7 de julho, Heloísa Eneida não pensa, porém, na aposentadoria. Até porque declara sentir-se pletórica, jovial e vibrante, à imagem do hit que inspirou. Uma autêntica setenteen.

Enfim, continua “cheia de graça”. Tão agraciada que não seria, de certeza, uma desgraça se posasse “pelada”* pela terceira vez, ela que em 1987 se tornou a “modelo” mais velha a se despir em todos as edições mundiais da Playboy. Tudo para quitar uma dívida, em tempos financeiramente adversos da família. 

O hino bossanovista tem funcionado para esta moreninha como uma amuleto da boa sorte, uma preciosa pedra talismã.

“Foi, é um presente que mudou a minha vida”. De um modo convicto, Helô sintetiza o condão desse encontro no seu livro  A Eterna Garota de Ipanema, um repositório de inolvidáveis memórias vivenciais.

 

 

Nós também poderíamos tomar emprestada esta definição para resumir a entrevista que Helô nos concedeu, através de uma foneligação transatlântica, que antes de chegar a Sampa, tomou banho de sol na praia dos prodígios. A ponto de Jobim ter dito um dia que só acreditaria no socialismo se todo mundo pudesse viver em Ipanema.

“O Tom frequentava o bar Veloso, na rua Montenegro, atual Vinicius de Moraes. Eu passava quase todos os dias por ali e, às vezes, entrava para comprar cigarros para mamãe. Minha passagem era festejada com os “fiu-fius” próprios da época”, recorda.

Deslumbrado com a esbelteza da moça, Tom, freguês da casa, em plantão cotidiano, convidou Vinicius a aderir ao fan club, assistindo às idas e vindas dessa “coisa mais linda”.  Durante dias a fio, o poetinha ficou de tocaia* no bar, intrigado com a euforia do parceiro.  Ele também queria conferir “a geometria espacial do balanceio quase samba” daquele broto* de olhos cor de céu, 1,69 metros de altura.

“Mas eu nunca mais passava. O Tom começava a ficar inquieto e Vinicius já ameaçava desistir. Eis que, por fim, eu surgi, vestida com meu uniforme do Magistério. Naquele improviso, num papo de bar, foram criadas as primeiras linhas da canção em que me vi envolvida para o resto da vida”, relembra.

A Menina que passa

Inebriado pela epifania, Tom compôs a música no piano da sua casa, em Ipanema. Em maio de 1962, viajou para Petrópolis, onde, na casa de Vinicius, finalizaram a melodia, a harmonia, o arranjo.

No seu refúgio, o poeta já procedera à refundição da letra, a partir do título. Na verdade, Garota de Ipanema começou por se chamar A Menina que passa e toda a primeira parte era diferente da versão definitiva.

A cálida Garota acabaria por ter seu batismo público numa noite de inverno, na boîte Au Bon Gourmet, na vizinha Copacabana. Foi a 2 de agosto de 62, no show Encontro, que reuniu gente grada da Bossa Nova, como Tom e Vinícius (que pela primeira vez cantaram juntos), além de João Gilberto e d’ Os Cariocas.

A Garota teve seu lançamento internacional a 21 de Novembro, num concerto realizado no Carnegie Hall, de New York. A cover em inglês foi gravada entre 17 e 19 de março seguinte. Astrud Gilberto cantou, acompanhada por Tom ao piano, João Gilberto ao violão e Stan Getz ao saxofone. Porém, a gravação ficou mais de um ano congelada, até que o disco foi lançado em 1964, ganhando o Grammy.  Só naquele ano vendeu um milhão de cópias.

“A curiosidade para saber quem inspirara a canção surgiu nesse ensejo. Aventaram que a Astrud  era a musa. Para dissipar dúvidas, em setembro de 1965, Vinícius anunciou em grande estilo, quem tinha sido a verdadeira Garota”, historia.

A revelação traduziu-se numa reportagem de quatro páginas na revista Manchete. Vinícius fazia um tratamento de desintoxicação. No jardim da clínica, acompanhado da esposa Nelita, o Vininha recebeu Helô. Ela confessa ter ficado “imensamente encabulada diante daquele monumento”.

Na despedida, o poetinha confirmou sua admiração, beijando a garota. Lisonjeada, Helô recebeu aquela notícia como um dos momentos mais felizes da sua existência terrena.

“À noite, contei tudo à minha família. Eu estava eufórica e não queria esquecer nenhum detalhe. Fiquei apaixonada por Vinicius para sempre. Entrevada na cama, minha avó arriscou uma profecia: “Você vai ficar rica e famosa minha filha”. Acertou, mas só na segunda previsão”, ironiza.

A súbita notoriedade provocou uma avalanche de convites. O mais exótico (e lucrativo!) veio dos EUA. Uma produtora propôs contrato para um filme e fotos da Garota vestida de... índia.

“Meus pais e meu namorado opuseram-se a essa promissora carreira. Ou viajava ou noivava. Fiquei triste, mas ‘como era de costume, obedeci’”, relata, citando Chico Buarque.

E a cantada garota não viajou, viu também vetada pela mãe a proposta para atuar no filme ‘Rio, Verão & Amor’, de Watson Macedo. Entretanto, o noivado com Fernando Pinheiro, filho de portugueses, foi assumido. E a 11 de maio de 1966, eles se casaram na Igreja da Candelária. O pai é das Taipas, a mãe de Penafiel. Tom Jobim esteve presente e foi o padrinho, juntamente com a esposa, Theresa.

“No início, ele esnobou, avisando ser pé frio. Sempre que era padrinho, alegava, num casamento, ele acabava rápido. Mas foi, trajando terno e gravata, toalete que ele abominava usar. E tem sido pé quente”, diverte-se.

Parte da lua de mel foi gozada em Portugal. “Apreciei muito as Termas da Curia. Me lembro muito bem de um almoço na Bairrada, que reuniu muitos parentes. Para conhecer a família portuguesa do Fernando, declinei um chá com a Rainha Elizabeth no Palácio de Buckingham. Mas não me arrependo de ter trocado o chá pelo leitão ”, garante.

A declaração de Tom Jobim

 

Hoje, Heloísa não terá razões para lamentar o divórcio de seus pais. Há contrariedades que, a breve prazo, se tornam propícias e favoráveis. Se essa separação não tivesse acontecido, talvez a futura Garota não se mudasse do suburbano Grajaú, onde nasceu, para o cosmopolita  Leblon-Ipanema, o pedaço filé mignon da autoproclamada Cidade Maravilhosa. E a fabulosa arte do encontro com Tom e Vinicius teria sido impossível, quase de certeza.

Mais de que presente na sua memória estão as queridas lembranças dos rendez vous com Tom. O primeiro e os últimos tremulam, de modo nítido, no ecrã da sua memória.

“Era já verão, no final de 1964. Tínhamos acabado de ser apresentados e ele, supertímido, pediu-me: “preciso muito conversar sozinho com você, em outra oportunidade.’” Marcamos para depois. Logo no segundo encontro, declarou estar apaixonado por mim”.

Helô não escondeu seu embaraço perante a cantada. Estupefata, ouviu Tom pedi-la em casamento. Sem mais, nem menos.

“Mas você é casado e eu sou virgem”, observei. Ele alegou que seu casamento passava por dificuldades. Eu disse que não podia resolver isso por ele. Aí, ele rogou que eu pensasse um pouco mais.”

Agora, Helô reconhece ter sido demasiado desconfiada. “Achava que ele só queria brincar comigo, mexer no meu tesourinho, como alertava vovó.”

Na despedida, a Garota deu as duas faces para um beijo social. Malandro, Jobim desviou a boca do rosto da ninfa e acabou beijando seus lábios, embora de raspão. Esse beijo ficou para sempre no seu imaginário.

Um tesouro sentimental

Os últimos encontros entre o Pigmalião e a sua Galateia ocorreram uns meses antes da morte do maestro. Durante uma entrevista para a ZDF (televisão alemã), Tom pegou na mão da nereida e disparou uma agridoce bala de jujuba: “Eu não casei com ela, porque ela não quis casar comigo. Estava tão fascinado que compus a Garota para ela, por causa dela, em honra dela”.

Envolto numa tocante singeleza esteve o papo que Helô e Tom mantiveram no bar Garota de Ipanema, atual nome do Veloso, na mesma mesa em que tudo começou. Tom declarou solene: “Cada menina com quem não transei, ganhou uma música.”

“Entre nós houve amor, infelizmente platônico e disfarçado de amizade. Se pensar é trair, então cometi traição. Se pudesse voltar atrás, acho que teria casado com ele. Da admiração ao amor é um percurso muito rápido. Porém, ambos estavamos comprometidos. Ele sempre me encantou. Esses sentimentos ficaram na bruma, entre nós, como um tesouro escondido, de que nunca usufruímos”, assevera com um travo de nostalgia.

Para Heloísa, esse “tesouro sentimental” é muito, muito mais valioso do que os rendimentos que a “eleição” terá acrescentado à sua conta bancária. Sim, é certo que o atributo lhe trouxe uma fama internacional, expressa em anúncios, apresentações e demais destaques, como os ensaios na Playboy brasileira, em 1987 e em 2003, este ao lado da filha Ticiane.

 

O lançamento de uma grife de roupa de praia com o nome da canção, levou os herdeiros de Tom e Vinicius a processá-la por alegada usurpação de direitos autorais. Processo que uma sentença judicial arbitrou a seu favor em 2001.

Agora, quando os 80 estão a distância de um lustro, a musa caRIOca verifica que sua Garota de Ipanema já pertence à História.

“Eu até costumo gracejar, sugerindo que passei a ser a Coroa* de Ipanema.”

 

 

Coroa, sim, corroborei, para de imediato precisar. “Coroa enxuta*, enxutérrima.”

“Por causas do amor”, não soará, de certeza, como um lugar-comum, rimar Garota de Ipanema com poema.

 

*Glossário

sapeca- menina namoradeira

pelada- despida, nua

ficar de tocaia- ficar de sentinela, esperando a presa

broto- menina atraente, borracho

samba-enredo – tema musical principal do desfile de uma escola de samba

coroa enxuta- mulher de meia idade, de ótima aparência e viçoso frescor.

 

 

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu em São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, num dia de Vênus  do mês de novembro, sob o signo de Escorpião. No ano em que Agustina Bessa-Luís publicava ‘A Sibila’. Guerra tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

São de sua autoria os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor, Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2014), ‘O Português do Cinemoda’ (2015) e ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Julho de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alberto A. Arias ; Rolando Revagliatti, entr., Álvaro Alves de Faria, André Giusti, Antonio Manoel Bandeira Cardoso, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Clécio Branco, Danyel Guerra, Deusa d’África, Edimilson De Almeida Pereira, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Godofredo de Oliveira Neto; Maria Eugênia Boaventura, Myrian Naves, Hélder Simbad, João Rasteiro, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Morais, Lia Sena, Luciana Siebert, Ludwig Saavedra, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas ; trad. Sayanbha Das, Myrian Naves, Myrian Naves, Heitor Schmidt, André Nigri e Sérgio Sant’Anna, Nagat Ali, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Waldo Contreras López


Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR