ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Deusa d’África


Poemas V    

Texto

Testa-se no teste a compreensão do texto
que reste o resto que remanesce na dúbia que cresce
anota-se a nota angariada na noite anoitecida em potes de bronze
trocada a hélice de galos que despontam na testa de troços sinuosos
que seguem ao ritmo denso da levedura levitando em turvas águas
onde naufragam almas fúngicas de Homens na menor dimensão existencial
que o troco anota fielmente, o pagamento, a que se fazia a conta apresentada na mesa.

À mesa serve-se em bandejas o quente e olente texto
delicioso manjar com diversidade de iguarias verbais
tempos e tempos, modos e modos na moda da flexão verbal
uma colher em colheradas colhe a nota em aprovado teste;
vitoriosa a candidatura da miniatura fotografada com a luz multicor
pintada na fogueira que afoga o fogão ao fogo refogando o refogado
da língua posta a ferro e fogo, sorve o texto, e em teste se aplica a matéria.

 

 

 

 

 

 

Ensino

Lecciona-se a física para que o trovão seja trovão e o relampejo seja inflamável sobre os corpos, embora que em linguagem popular seja fulgente o fogo e a queimadura sobre a epiderme selada por um beijo do anjo que à hora mágica dos sonhos em que as palavras fervilham, se tenha apaixonado, pela carne de que a pele se reveste.

 

 

 

 

 

 

Tudo costurado

No país costuramos os portos, esses que atracam a dor que entra e sai do corpo.

Com um cadeado robusto trancamos à chave os abraços com que chega e parte a doçura de ser e a ternura com que se navega o mar de uma paixão.

A capulana, com que se cobre o corpo da cidade, cobre aeronaves, para que não entrem e não saiam os anticorpos de que se defende a nação.

 

 

 

 

 

 

Ruínas

Num país arruinado à terra, ferro e tijolos, constroem-se ruínas no seu corpo, no antro das suas cidades e afora, planos arruinados, leis arruinadas, cadeias arruinadas, terra arruinada, céus arruinados, cemitérios arruinados, árvores arruinadas, bancos arruinados, mercados arruinados, plantações arruinadas, faunas arruinadas, gente arruinada, noites arruinadas, liberdade arruinada, sonhos arruinados, um amor arruinado até ao pescoço.

 

 

Deusa d’África nasceu aos 05 de Julho de 1988 em Moçambique, é mestre em Contabilidade e Auditoria e actualmente é professora na Universidade Pedagógica e na Universidade Politécnica. É Gestora Financeira do Projecto Global Fund – Malária. Começou a escrever poesia em 1999. A autora é representada pela agência literária “Capítulo Oriental”. Possui várias obras (prosa e poesia) publicadas na imprensa como é o caso de "Jornal Notícias”, “O País”, “Pirâmide”, “Diário de Moçambique”, em revistas tais como “Xitende” e “Varal do Brasil”, foi antologiada pela “Colectânea Veríssimos” editada em 2012 por Alpas XXI, Antologia Brasileira “Mil Poemas para Gonçalves Dias” em 2013, pela Academia de Letras e Artes Luso – Suíça “Caravelas em Viagem” em 2016.

Viu alguns dos seus trabalhos traduzidos para sueco. É Coordenadora Geral da Associação Cultural Xitende, é palestrante, activista cultural, promotora do direito à leitura e mentora do projecto Círculo de leitores. É colunista do Jornal “Correio da Palavra”.

 
É autora de obras como “A Voz das Minhas Entranhas” (poesia) editado pelo Fundac em 2014, o romance “Equidade no Reino Celestial” e “Ao Encontro da Vida ou da Morte” (poesia) pela Editora de letras de Angola em 2016. Coordenou a Antologia poética “Vozes do Hiterland” publicando escritores de Gaza e Niassa, editada pela Editora de Letras de Angola em 2016. Em 2016 foi Coordenadora para Moçambique da Antologia editada em Galiza “Galiza-Moçambique: Numa Linguagem e Numa Sinfonia” sob coordenação geral do escritor José Estevez publicando escritores de Moçambique e Galiza.

Foi distinguida pelo Governo Provincial de Gaza como Personalidade do ano 2016 em reconhecimento do seu patriotismo e pela sua contribuição no desenvolvimento e promoção das artes e cultura. Foi premiada como vencedora absoluta na modalidade de poesia e foi vencedora do segundo lugar em contos nos Concursos Literários Internacionais lançados na República Federativa do Brasil por Alpas XXI em 2012. Em Março de 2017 representou Moçambique no Festival Literário de Macau. Em 2018 foi antologiada pelo Festival Literário de Macau “Seis em ponto, contos e outros escritos VI”, traduzido em inglês “Six on the dot, short stories and other writings VI” e depois traduzido em chinês. Ainda em 2017 foi antologiada em “À Margem da Literatura” pela UCCLA. Foi antologiada em Macau no “Rio das Pérolas” livro de poesia em 2019.

Em Julho de 2019 participou no Festival Internacional Poetas d´Alma em Maputo.

 

Participou no primeiro encontro realizado em África e em Moçambique, de Poetas del Mundo em Outubro de 2019, como Embaixadora do Movimento Poetas del Mundo para Gaza.

Foi antologiada em Macau no “Rio das Pérolas” livro de poesia em 2020.

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


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Colaboradores de Julho de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alberto A. Arias ; Rolando Revagliatti, entr., Álvaro Alves de Faria, André Giusti, Antonio Manoel Bandeira Cardoso, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Clécio Branco, Danyel Guerra, Deusa d’África, Edimilson De Almeida Pereira, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Godofredo de Oliveira Neto; Maria Eugênia Boaventura, Myrian Naves, Hélder Simbad, João Rasteiro, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Morais, Lia Sena, Luciana Siebert, Ludwig Saavedra, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas ; trad. Sayanbha Das, Myrian Naves, Myrian Naves, Heitor Schmidt, André Nigri e Sérgio Sant’Anna, Nagat Ali, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Waldo Contreras López


Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


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