ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Edimilson De Almeida Pereira


SÃO FRANCISCO DE ASSIS - ENTRE A AUTORIDADE E O POETA    

“O poeta elabora sua personagem,
[...]
burila-a, murila-a
(alfaiate de Deus talhando para si  mesmo)”

                        Carlos Drummond de Andrade

 

1.      Introdução

            No presente artigo, nos propomos a realizar uma leitura em que as perspectivas sociológica e  literária, colocadas em diálogo, nos permitam articular uma compreensão abrangente do poema “São Francisco de Assis”, incluído por Murilo Mendes na série intitulada Retratos-relâmpagos, 1965-1966 (MENDES, 1994, p. 1201 ). Para tanto, consideraremos dois níveis de intepretação: no primeiro, de recorte sociológico, enfatizaremos uma interpretação “desde fora”, através da qual verificaremos os liames que o  poema estabelece com a ordem social cristã-ocidental. A par disso, será possível analisar o modo como a poética muriliana se aproxima da figura de São de Francisco de Assis, seja para reconhecer a representação que dele faz a instituição eclesiástica, seja para alargar as frestas que persistem nessa representação. Ao atuar nessa via de mão dupla, a poética muriliana  desmonta o discurso autocentrado que serve para construirmos a história e os personagens oficiais e insinua, simultaneamente, que no domínio da linguagem os fragmentos da história e dos personagens são cruciais para erigirmos a vida em sociedade. 

         No segundo nível de interpretação, ressaltaremos uma perspectiva “desde dentro”, através da qual situaremos o poema de São Francisco na geografia de uma poética que relaciona o universal e o particular, de modo que é possível ver no retrato capturado por Murilo Mendes a tradução da figura oficial de São Francisco de Assis num discurso de fatura local (brasileira por assim dizer) e individual (muriliana, também por assim dizer). Nesse nível, a tensão entre a economia verbal e a multiplicidade semântica proposta pelo poema, impõe-se como um recurso estilístico que o poeta elege, seja para particularizar o retrato de São Francisco na série dos demais retratos-relâmpagos, seja para questionar, implicitamente, a eficácia da linguagem para buscar o novo numa seara de significados (a representação de Francisco de Assis) há muito mapeada e percorrida.

2. Desde fora: uma recepção do poema

         Na introdução à edição brasileira da obra Festas e civilizações, de Jean Duvignaud, o tradutor L. F. Raposo Fontenelle observa que um dos conceitos centrais do pensamento do sociólogo francês é a chamada “metodologia da dramatização”. Ao formulá-la, Duvignaud pondera que “a existência coletiva pode manifestar-se por uma teatralização que põe em cena a ação de um drama, onde estão propostos os principais papéis sociais de um grupo, tradicional ou não, constituído e encarnado às suas funções fundamentais.” (FONTENELLE Apud DUVIGNAUD, 1983, p.8). Ainda segundo Duvignaud, essa apreensão da sociedade, que a vincula à forma do drama, -se a partir do pressuposto “de que o ser humano, para existir, deve representar-se, desenhar a sua existência e torná-la uma realidade concreta. (Idem, 1983, p. 8). 

         Embora tratemos, no presente artigo, de uma discurso específico, precisamente o poético, pretendemos demonstrar o quanto essa especificidade – por ser, também, uma forma através da qual o ser humano representa si mesmo, o mundo e o Outro – se realiza como experiência social. Em outras palavras, a atuação do poeta na construção do poema explicita, em diferentes medidas, a sua origem num corpo social, com o qual mantém relações de convivência e/ou conflito, de aceitação e/ou recusa. Não por acaso, tanto a poesia quanto o poeta sempre foram fios relevantes na constituição do tecido social; fios tênues, diga-se. No entanto, é essa linha fina que penetra os meandros do tecido social, cerzindo-o, de modo que, muitas vezes, a sociedade se traduz na poesia sem dar-se conta desse fato. Um exemplo radical dessa imbricação, são os momentos em que na voz do poeta e na expressividade da poesia se revelam a têmpera de uma vontade coletiva e sua identificação com o sentido de nacionalidade, como demonstram obras fundantes de Homero e Camões. Além disso, quando a poesia é acionada para representar os anseios íntimos do indivíduo, sob a forma do discurso lírico, essa subjetividade se exibe no corpo do poema, tal como em passagens importantes da Divina Comédia, de Dante Alighieri; nos sonetos do amor idealizado de Petrarca; ou nas fulgurações de espanto e beleza da poética de William Blake.

          Cientes de que o discurso poético consiste numa experiência radical, cujas proposições de sentido, numa perspectiva esteticista, se anunciam e se esgotam no domínio da própria linguagem, ainda assim não há como não reconhecer que há nele conexões mais ou menos explícitas com a realidade social. Em outros termos, o discurso poético centrado na própria linguagem, que não coloca em relevo o cenário social onde se inscreve, ainda assim, na proposição de si mesmo como exercício de significado espera, em algum instante, a presença de um interlocutor que o revele como linguagem saturada de significado. Note-se que não há necessidade de aludirmos ao discurso poético que é apresentado como intencionalmente vinculado a um determinado período ou fato social. Ou seja, aquela modalidade poética reconhecida como engajada, na qual podemos identificar uma causa (a exemplo, da poesia feminista, da poesia afro-brasileira, da poesia chicana, etc) de natureza social que interfere na intenção e no direcionamento do discurso. Um exemplo, dentre outros, dessa interferência é a opção por uma linguagem de cunho didático, pedagógico no plano formal; e de uma mensagem marcada por uma opção ideológica, no plano do conteúdo.

         Em função do exposto, é pertinente dizer que o discurso poético centrado em si e o discurso poético transformado em instrumento de intervenção, guardadas as devidas proporções, apresentam intrinsecamente um valor sociológico. A intensidade e o modo de apresentação desse valor no discurso poético, por um lado, varia de um período histórico-literário para outro. A título de exemplo, na chamada fase condoreira do Romantismo brasileiro há um apelo mais evidente às demandas ou causas sociológicas (como demonstram alguns poemas abolicionistas de Castro Alves)  do que nos poemas-manifesto da fase inicial da vanguarda concretista – como indicam os experimentos de forma e linguagem de Augusto e Haroldo de Campos. Considerando que essa divisão não é facilmente verificável na experiência poética, é oportuno advertir que as imbricações entre envolvimento social e experimentalismo estético podem vingar dentro de um mesmo período literário ou da poética de um mesmo autor. Isso porque é na tensão entre aproximação e distanciamento entre essas perspectivas que floresce um dos aspectos mais marcantes da poesia, ou seja, sua competência para desafiar a estabilidade dos significados que estabelecemos para o mundo.

         A variação do valor sociológico pode ser percebida quando o olhar analítico transita entre as obras de diferentes autores; o caráter comparativo desse olhar evidencia nas peculiaridades das linguagens poéticas o grau de fricção entre a estética e a práxis social, ambas tatuadas no poema. Como exemplos dessa possibilidade, poderíamos dizer que o lirismo intimista e auto-irônico de Mário Quintana – que não deixa de traduzir uma visão crítica da realidade na qual está inserido – corrobora o valor sociológico de maneira menos explícita ou intencional do que a poética de Luís Silva (Cuti), uma das vozes mais contundentes da poesia brasileira contemporânea, através da qual se escuta uma imprecação política, estética e ideológica que a identifica como ponta de lança  dos anseios de um grupo étnico e social especifico.

No poema “São Francisco de Assis”, a voz poética de Murilo Mendes não assume declaradamente o posicionamento defendido por Jean-Paul Sartre (1948), para quem o  “escritor revela o mundo, e em especial o Homem, aos outros homens, para que estes tomem, em face ao objetivo assim revelado, a sua inteira responsabilidade.” Contudo, outra assertiva de Sartre, nos permite redimensionar o valor sociológico do poema, que passa de uma carga de baixa para alta intensidade. No dizer de Sartre (1948, p. 68), “a operação de escrever implica a de ler como o seu correlato dialético.” Isto significa dizer que o poema, ao ser entregue a leitores que vivenciam diferentes experiências pessoais e coletivas, pode ser interpretado, ou melhor, reinterpretado de modo a ter o seu valor sociológico ampliado ou não. Essa fresta de variação aplicada ao poema “São Francisco de Assis” revela, dentre outras demandas sociais, a disputa entre o discurso que a Igreja Católica articulou acerca de sua doutrina, símbolos e personagens e o discurso que os devotos – e/ou outros agentes, dentre eles o poeta – teceram sobre os mesmos temas.

         No que tange a São Francisco de Assis, Murilo Mendes atravessa as portas dessa disputa e nos permite pensar o seu objeto – o homem santo de Assis – como um núcleo de significados em expansão e não apenas como uma forma e um discurso circunscritos a esta ou aquela ordem social. Na  segunda série dos Retratos-relâmpago (situada em Roma entre 1973-1974), no texto dedicado ao sogro Jaime Cortesão, que conheceu no Rio de Janeiro em 1940, Murilo Mendes retoma suas apreciações acerca de São Francisco e afirma que o mesmo “não pertence apenas à Igreja Católica, mas a toda a humanidade.” (MENDES, 1994: 1291).

         A proposição do poeta, como se percebe, arranha a proposição da Igreja Católica, que ele tão bem conheceu por vivenciar seus princípios e, sobretudo, por analisar as suas implicações. Com base na interpretação dos atos do devoto Francisco, que o papa Gregório IX canonizou em 1228, a instituição eclesiástica organizou um acervo específico, cujo conteúdo ressalta na beatitude do sujeito as virtudes e os compromissos da própria instituição. Por isso, a canonização de Francisco, além de comprovar e legitimar suas ações exemplares, constituiu uma instância política privilegiada, através da qual a Santa Sé reafirmou sua relevância política, social e religiosa. De maneira geral, o processo de canonização reitera o papel da Santa Sé como legítima portadora de um certo capital religioso, especificamente aquele que lhe assegura prestígio no domínio do sagrado e da vida pública. Ao canonizar o homem Francisco, a Igreja o transformou em santo da Igreja, amado pelo povo, mas politicamente vinculado ao tecido de uma instituição específica.

         Ao desenhar o retrato-relâmpago de São Francisco de Assis, o homem de fé Murilo Mendes não deixa de atender, por outro lado, aos apelos rebeldes do poeta do olho armado. Sua voz poética reencena São Francisco de Assis como um santo às avessas, razão pela qual o que há de santidade no ente exemplar é reinterpretado como uma qualidade inerente ao próprio homem. Instaura-se, portanto, um contraste entre o discurso institucional e o discurso poético/pessoal. No primeiro, São Francisco de Assis é representado como o santo oficial, portador das sandálias e protetor dos pobres na terra. Contra essa imagem ctônica do santo oficial, o discurso do poeta nos reapresenta São Francisco como o portador de “sandálias aladas” (MENDES, 1994, p. 1201), cujo movimento ascensional – índice de rebeldia do poeta ou do santo – culmina na classificação de Francisco como uma voz dissonante dentro da própria ordem que o legitimou:

                        Fazem dele um homem da ordem. Mas é um inconformista, um rebelado,
                        um fuorilegge; tal seu mestre.  (MENDES, 1994, p. 1201)
 

            Em termos sociológicos, o discurso poético de Murilo Mendes nos revela um Francisco de Assis para quem o ser em si é, na verdade, um ser para o outro. Para tanto, Francisco age na sociedade; sua atitude de doar os próprios bens aos humildes sinaliza politicamente o seu modo de relacionar-se com as tensões entre a riqueza e a pobreza, a justiça e a injustiça. Esse modo fransciscano é caracterizado, em geral, através de atos que desconcertam as convenções. A voz poética de Murilo Mendes capta essa perspectiva, ao ressaltar que uma forma para desmontar as máquinas ideológicas advém não da força, mas do humour, que permite a Francisco reinar “sobre a cela, o crucifixo” (MENDES, 1994, p. 1201). Sendo assim, ao optar pelos humildes ou, mais amplamente, pela humildade e pelo despojamento, Francisco de Assis explicita que a transcendência (entendida como prêmio na vida eterna por conta do investimento na justa vida terrena) é construída no espaço social. Portanto, a sociedade se converte para Francisco de Assis em sua “área de ação”, isto é, o lugar onde ele “realiza a sua humanidade e apreende, dele mesmo, uma consciência parcial ou geral.” (FONTENELLE Apud DUVIGNAUD, 1983, p.8)

2. Desde dentro: na oficina do poema

Em obras anteriores a Retratos-relâmpagos, Murilo Mendes se debruçou sobre a figura de São Francisco de Assis, dedicando-lhe poemas incluídos, respectivamente, nas coletâneas Bumba-meu-poeta (1930-1931) e Contemplação de Ouro Preto (1949-1950). Portanto, o que temos em  Retratos-relâmpagos é uma revisitação ao mesmo tema. Por isso, não seria impróprio supor que a persistência do poeta no trato da imagem franciscana demonstra, ainda que de maneira implícita, uma tentativa de construir uma reinterpretação de códigos há muito entranhados na sociedade. Vista sob essa perspectiva, a sequência de textos mencionada alude ao embate entre o discurso eclesiástico e o discurso poético (ambos empenhados em configurar uma representação para São Francisco de Assis) e se espraia, ao longo da poética de Murilo Mendes, como linha de reflexão sobre o papel que indivíduos e instituições desempenham na produção de sentido para omundo.

Mais do que evidenciar o que há de circunstancial nesse embate, Murilo nos leva a pensar que além da encenação, que remete às várias formas de representar um personagem, se desenvolve um jogo permeado por relações que se referem ao domínio das técnicas de representação do real. Se o objeto da contenda é São Francisco – representado desta ou daquela maneira –, o elemento subjetivo, que confere pertinência a essa contenda, é o jogo que revela as negociações entre agentes bem municiados em suas argumentações, ou seja, de um lado a instituição eclesiástica e, do outro, o sujeito do olho armado. É importante ressaltar que os movimentos realizados por esses agentes resultam de  uma rede de valores estéticos e ideológicos nem sempre visíveis no modo como São Francisco está representado. É para essa rede invisível, situada nos bastidores da representação, que a poética de Murilo Mendes nos reenvia, seja para indagarmos, sociologicamente, o que faz com que “significados subjetivos se tornem factividades objetivas [...]” (BERGER E LUCKMANN, 1985, p. 34), seja para ponderarmos, esteticamente, que  “a poesia tem papel ativo na constituição de nossa relação com a linguagem e, sem dúvida alguma, de nossa relação com a realidade.” (SISCAR, 2010, p. 9)

         Na série dos retratos-relâmpagos, o texto que Murilo Mendes dedica a São Francisco de Assis não é  dos mais extensos, nem dos mais enredados em termos de construção dos argumentos. Isso se torna evidente se o compararmos com outros, dedicados, por exemplo, a Victor Hugo, Castro Alves, Dino Campana, Raul Bopp, Jorge Luís Borges, André Breton, Pablo Picasso, Tarsila do Amaral, René Magritte, Ezra Pound, Guimarães Rosa. De fato, no conjunto dos retratos-relâmpagos, muitos dos textos – tal como aqueles voltados para o poeta Miguel Hernández  e o dramaturgo Michel de Ghelderode – possuem um caráter de ensaio crítico, no qual as ideias do analista literário, conjugadas à sensibilidade do poeta, apresentam um Murilo Mendes em dupla face. Exemplo disso, são as análises apresentadas acerca do poeta espanhol e do dramaturgo belga, respectivamente:

            Miguel Hernández pertence ao número dos poetas que morreram cedo e não
            puderam se realizar totalmente como artistas, ou melhor, artesãos.

Pessoalmente penso que não se pode levar ao negativo de Miguel Hernández um certa imperfeição formal salientada pela crítica. É inútil procurar Garcilaso de la Vega em Miguel Hernández, ou vice-versa.
                                                           (MENDES, 1994, p. 1229-1233)
 
*

O estúdio de Michel de Ghelderode na sua casa de Bruxelas, onde nasceu a 3 de abril de 1898, fornece ao visitante um elemento imediato para situar o dramaturgo.

            O ambiente é ao mesmo tempo romântico, teatral, solene e desarrumado.

Penso que a inatualidade da obra de Ghelderode é provisória. Ela se deve em parte à ausência de qualquer tese e ao abandono dos elementos psicanalíticos. Com efeito o dramaturgo lutou contra as correntes estéticas do seu tempo.
                                                                       (MENDES, 1994, p. 1229-1233)

Ao mesmo tempo, na série dos retratos-relâmpagos há textos que se articulam como poemas em prosa, margeando as fronteiras do registro lírico e da expansão reflexiva que, dentre outros aspectos, geram dificuldades para demarcar com clareza as características dessa modalidade textual. Nessa categoria, podemos dizer que se encaixam os poemas em prosa que Murilo Mendes dedicou a Homero, Tolstoi, Jorge de Lima e São Francisco de Assis. De início, o despojamento formal do poema que focaliza São Francico reduplica o que, em geral, inferimos a respeito de sua figura, uma vez que esperamos dele entrega e simplicidade, sem levarmos em conta os esforços e os métodos colocados a serviço da construção de uma filosofia do escasso, segundo a qual a modéstia se converte em força e a carência em abundância.

Essa representação prototípica de São Francisco de Assis – fixada nos limites da instituição eclesiástica através da hagiografia (voltada, em geral, para a apologia de sua vida e obra),  do ensalmo que o identifica (“fazei que eu  procure mais consolar que ser consolado”, “pois é dando que se recebe”) ou da iconografia (que, no Renascimento, fixou-o como jovem e pobre e, no Barroco, como uma figura envelhecida e austera) – não impediu, no entanto, a formulação de outras interpretações  que inseriram o santo homem de Assis em outras linhagens de representação. Esse último aspecto pode ser observado em várias instâncias sociais, nas quais o discurso da arte se apropria de eventos da vida social, reinventando-as tanto na forma quanto no significado; a título de demonstração, nos concentraremos nas proposições interpretativas que a arte sacra de viés popular e a poética de Murilo Mendes estabeleceram para São Francisco de Assis.

         Em seu artigo “Misticismo popular na poética mineira”, a ensaísta Francis Paulina (2005), autora de um livro minucioso sobre o autor de A idade do serrote, retoma as análises de Jean Duvignaud no ponto em que este “chama  a atenção para a tendência brasileira a expressar uma ‘visão barroca da arte’, na qual se observa como que ‘uma invasão imprevista de fantasmas, do sonho, do desejo perpassando formas literárias, plásticas musicais, antes subjugadas aos cânones ‘clássicos’” (DUVIGNAUD, 1983, p. 23). Essa perspectiva, aplicada à iconografia de São Francisco, indica que no campo da cultura popular brasileira muitos artistas, sem fugirem às referências eclesiásticas, cuidaram de acrescentar-lhe elementos formais e conceituais a ponto de constituírem um contraste entre o santo da Igreja e o santo do povo.

Na pintura, por exemplo, a representação de São Francisco registrada pelos autores naïfs agrega traços locais, sobretudo paisagísticos, àqueles tradicionalmente atribuídos ao santo, tais como árvores, regatos e animais silvestres. Estes elementos, por seu turno, podem ser percebidos como uma estrutura, que contribui para a construção do vínculo simbólico entre o santo e a natureza. Porém, as reinterpretações que os artistas locais realizam dessa estrutura demonstram que determinados dilemas de comunidades restritas podem ser expressos através do diálogo com a representação de São Francisco de Assis, sem, contudo, minimizar o sentido universal da relação santo/natureza.

 

1.         São Francisco de Assis, patrono da Ecologia

 

No que se refere à escultura, a tensão entre o local e o universal se explicita tanto na variada gama de materiais utilizados pelos artistas populares (da madeira à cerâmica, da argila ao macramê, da palha ao arame, etc) quanto na necessidade de representar o humano numa imagem que remete, em sentido profundo, ao transcendente. Uma das consequências desse embate de forças, são as releituras contemporâneas de São Francisco, que o associam às iniciativas de conhecimento e preservação do meio ambiente, à divisão das riquezas e à recuperação de uma relação ecumênica entre as diferentes maneiras de se vivenciar o sagrado. A reunião desses aspectos, numa espécie de manifesto humanista veiculado através da arte, resulta em pinturas e esculturas nas quais o santo surge integrado à natureza. Essa recuperação do legado santo/natureza se articula como um discurso político que, mediado pelo sagrado, procura redimensionar os vínculos do sujeito contemporâneo com o meio ambiente onde vive. Por isso, mais do que mostrar São Francisco de Assis como um amigo da natureza, tais representações o associam a uma ética de preservação ambiental que não exclui, entre outras possibilidades, o relacionamento entre mística e política em defesa de um patrimônio social que foi, em síntese, criado por Deus e cedido por empréstimo aos homens.

 

2. São Francisco de Assis, zoológico de Volta Redonda, RJ

 

Ainda no âmbito da cultura popular, São Francisco de Assis goza de especial atenção entre os devotos da Folia de Reis, uma vez que estes o relacionam à montagem da cena do presépio. As narrativas sagradas da Folia de Reis, embora variando de região para região, têm como um de seus fundamentos o fato de o mestre da Folia representar Francisco de Assis. Esse vínculo simbólico estabeleceu-se como uma reduplicação ritual do gesto de Francisco de Assis que, no ano de 1223, organizou uma encenação do nascimento de Jesus (GOMES E PEREIRA, 1995, p. 96 e 184).  Além desse vínculo entre o santo e o mestre de Folia, o fervor dos devotos em relação a São Francisco de Assis se exprime por meio de um repertório poético-musical, que inclui ladainhas e cânticos de louvação. Um exemplo desse enlace, pode ser observado no “passo” (canto) a seguir, registrado na comunidade de Santo Antônio do Baú, em Minas Gerais:

            Abrirei meus lábios
            Com respeito tanto
            Aos justos louvores
            De Francisco Santo
(GOMES E PEREIRA, 1995, p. 79)

         A reinterpretação de São Francisco, numa fatura que chamamos de local, evidencia, entre outros, o fato de que nela se desdobram significados oriundos da vivência que um certo grupo social tem do fenômeno estético e religioso. De modo específico, a pintura e a escultura aqui consideradas, emergem do complexo território da cultura popular brasileira e trazem em seu bojo indícios da constituição desse território, tais como o ludismo, a exuberância de formas e cores, a tensão entre o sagrado e o profano, a contextualização social dos eventos e a sua identificação com situações locais. Além de destacar esse fato, é pertinente considerá-lo como uma espécie de dobradiça social que permite ao sujeito, em diferentes instâncias, reconfigurar tanto as relações quanto as práticas sociais. Em termos práticos, isso significa dizer que assim como os agentes da cultura popular, também no âmbito da literatura brasileira, outros agentes, tal como Murilo Mendes se mobilizaram para reinterpretar a imagem de São Francisco de Assis proposta pela instituição eclesiástica.

         Não tratamos, portanto, de comparar as reinterpretações que o artista popular e o poeta erudito realizam de um mesmo fato social mas, sim, de ressaltar o processo social que lhes permite reinaugurar esteticamente um fato dado a priori por uma instituição legitimada. Sob essa perspectiva, adquire relevo o trabalho do sujeito que se debruça sobre uma realidade construída, seja para reafirmá-la ou para apontar as fissuras que a tornam instável e, por isso, passível de constestação.

No poema em tela de Murilo Mendes, o discurso em torno de São Francisco de Assis alude uma única vez à sua representação oficial (“Fazem dele um homem da ordem.”). As demais declarações feitas pela voz poética contradizem aquilo que, em geral, se pressupõe seja de conhecimento público acerca de Francisco. Por vezes, o poema insinua uma repetição da representação legitimada, fato que logo se desfaz e acentua a divergência entre o discurso oficial e o discurso do poeta. Pode-se dizer, por exemplo, que uma das informações consensuais, referente ao desapego de Francisco à riqueza e aos excessos, é visualmente retomada por Murilo Mendes na arquitetura descarnada do poema. Contudo, mais do que indicar um desapego místico do homem à materialidade das coisas, o poema sugere que tal destino diz respeito a um método escolhido para traduzir uma certa maneira do sujeito estar no mundo. Nesse sentido, o despojamento do poema, tanto quanto o percurso de Francisco de Assis, denota um procedimento complexo, segundo o qual a aparência conta menos do que a essência. Ou, dito de outro modo, estamos diante de um procedimento que transforma certa ordem de valores dominantes – relacionada ao excesso – em objeto de contestação. Isso porque tal ordem indica o distanciamento do sujeito em relação aos valores fundantes de sua própria humanidade. Para evidenciar a crítica ao excesso e ao poder que dele advém, o poema se realiza através de assertivas econômicas na forma, porém, transbordantes nas derivações e ilações de sentidos que propõem ao leitor:

            Poeta, por isto, fundador da palavra essencial (...)

            Cosmonauta antecipado, levita-se.                   

         O modo como Murilo Mendes faz e refaz a imagem de São Francisco de Assis revela o posicionamento de quem – como ressalta Francis Paulina da Silva (2005) – é um “profundo conhecedor da doutrina católica, na qual crê com convicção, mas com fé crítica, nunca ortodoxa (…)”. Uma evidência do conhecimento acerca da doutrina e dos preceitos católicos, é destacada pelo poeta no “Murilograma a N.S.J.C.”, inserido no livro Convergência (1963-1966). Nessa passagem, Murilo revista o tema da proximidade entre o divino e o humano para dar-nos uma versão crítica e perturbadora da transubstanciação:

                        Santíssimo cordeiro
                        (…)

                        Dá-nos até o fim do fim
                        O pão subversivo da paz.
(MENDES, 1994, p. 663)

 

         Em função dessa intimidade, construída na relação com o Verbo Divino, o poeta vale-se do direito de interpretar, através do humour, a representação oficial, que encarcera o santo numa redoma de significados austeros. Ao fazer isso, a voz muriliana abre para São Francisco de Assis – tal como os artistas populares – uma constelação de significados que, uma vez decifrados, situam o santo fora da ordem eclesiástica que o legitimou. Veja-se, por exemplo, a configuração desse outro retrato de Francisco em algumas das assertivas que, segundo o olhar muriliano, compõem o seu perfil:

                        As sandálias aladas aligeiram-no.

                        Inventa o humour da santidade…

                        … é um inconformista, um rebelado.
                                                           (MENDES, 1994, p. 1201)

         De modo similar, já na coletânea Bumba-meu-poeta, esse outro Francisco fora apresentada por Murilo Mendes.  A ironia que perpassa o poema revela a contraposição entre o mundo da ordem e o mundo da desordem, entre a lei divina e a lei humana. Em meio a essa tensão, o poeta captura o Francisco santo que aproveita “uma folga que o senhor do céu” lhe deu para dançar na festa dos homens. Assim, por estar imerso na esfera terrena pela segunda vez, torna-se mais  provável para o poeta anunciar que ainda ressoam no Francisco-santo as suas vivências de Francisco-homem:
                       
                        Louvada seja esta gente
                        que de vez em quando esquece
                        as tristezas desta vida,
                        cai na farra, que nem eu
                        na minha primeira fase.
                                                           (MENDES, 1994, p. 135)

         Contrapondo-se à versão acima, que deixa transparecer a predominância do homem sobre o santo, em Contemplação de Ouro Preto o poeta retoma, de maneira cerimoniosa e ritualizada, o tema da proximidade entre o santo e o homem:

                        Traslado, em pedra vivente,
                        Do afeto de um sumo herói
                        Que junta o braço do Cristo
                        Ao do homem seu igual.
                                                                       (MENDES, 1994, p. 491)

Porém, no retrato-relâmpago, o aspecto tenso das assertivas que contrapõem o Francisco do discurso poético ao Francisco do discurso eclesiático, bem como o homem ao santo, se evidencia quando o homem Francisco é, intencionalmente, reconhecido pela voz de Murilo Mendes como um fora-da-lei. Fora de qual lei, é apropriado indagarmos, embora, de maneira subliminar, o poeta já nos ofereça a resposta. O óbvio é que pensemos a rebeldia de Francisco como uma contestação à rigidez das normas eclesiásticas. Porém, se considerarmos que a fala e a ação de Francisco se dirigem não apenas para instituição eclesiástica, poderíamos dizer que nele se encarnam as aspirações de um sujeito social que se bate pela liberdade do que dizer e do como viver.  Sob esse aspecto, o fuorilegge constitui-se como um sujeito que rasura os ditames de qualquer modalidade de vigilância, daí a possibilidade de sua prática e de seu discurso serem adotados pelos defensores de diferentes causas, em diferentes contextos.

Ao ampliar as vertentes de sentido atribuídos a São Francisco – que rasura o caráter vetusto e sacrificial da instituição eclesiástica –  a voz luminosa do poeta tangencia na experiência religiosa e social os embates que ele próprio enfrenta nos domínios da experiência poética. Ou seja, ante a chamada para reiterar as propostas do cânone poético, Murilo Mendes arma-se esteticamente para ser um fuorilegge da poesia brasileira. Por isso, como já enunciado no início do retrato-relâmpago, o poeta ratifica a sua proximidade com o homem de Assis, também ele “Poeta, isto é, fundador da palavra essencial…” (MENDES, 1994, p. 1201)

Por fim, chama a atenção o fato de que no final do retrato-relâmpago de São Francisco de Assis o poeta tenha feito uma ressalva que, por um lado, absolve, se preferirmos esse termo, o homem e o santo de suas rebeldias e, por outro, assinala a estirpe de rebeldes superiores com a qual ele se identifica. São Francisco de Assis é “um fuorilegge, tal como o seu “mestre”, acentua Murilo Mendes. Essa cumplicidade com as instâncias maiores do poder espiritual, cujas interferências mudam o curso dos acontecimentos na vida social, permitem a Francisco transitar entre o alto e o baixo, o dentro e o fora dos sistemas de representação. Isso significa que, mais do que um objeto apreendido pelas cadeias de representação, de diferentes modalidades, Francisco vem a ser o desarticulador dessas cadeias. Ou seja, a cada representação que dele fazem os diferentes agentes ou instituições (por exemplo, o poeta ou a Igreja), Francisco reage com uma contra-imagem de si mesmo. Por isso, nele encarnam e desencarnam a austeridade e o humour, o sacrifício monacal e o hedonismo hippie, o humano e o animal/vegetal, o irmão sol e a irmã lua.

4.      Do protótipo de imagem à imagem protéica

A conjunção das linhas interpretativas propostas desde fora e desde dentro aplicada ao retrato-relâmpago de São Francisco de Assis nos ajuda a demonstrar o imbricamento dos valores sociológico e estético num mesmo discurso. E nos permite também observar como, através da arquitetura do poema, Murilo Mendes coloca em debate as funções sociais que perpassam, às vezes, implicitamente, uma obra de arte, bem como a necessidade de considerarmos a autonomia do fator estético no instante de apreendermos o pragmatismo de certas relações sociais.

Em vista disso, podemos dizer que o embate entre o pragmatismo da instituição eclesiástica e o relativismo da leitura artística revela, de modo particular, uma imagem de São Francisco de Assis que se recusa a ser apenas uma ou outra forma de representação. Levando-se em conta esses aspectos, é válido pensar o retrato de São Francisco proposto por Murilo Mendes como um processo de produção de sentido, no qual a superação do santo como protótipo conduz à configuração do sujeito como uma imagem protéica. Dito de outra maneira, o São Francisco de Assis que não pertence apenas à Igreja, mas a toda a humanidade, como frisou o autor de Convergência, constitui-se como um desafio à cristalização dos sentidos e à restrição da experiência interpretativa. O São Francisco fuorilegge vem a ser, portanto, um provocador não só da ordem eclesiástica, mas também da arte poética. Esse a quem o poeta considera o descobridor do “alfabeto da formiga”, é um sujeito experimental e experimentador, de cujas palavras e gestos nascem formas inesperadas que, prezando pelo despojamento, resultam de um complexo processo de negociação entre o indivíduo e a sociedade.

Por não render-se ao mimetismo entre a obra de arte e a realidade ou à restrição da arte que faz de si o próprio tema, o retrato-relâmpago de São Francisco de Assis revela a astúcia de Murilo Mendes para tangenciar essas duas margens sem, no entanto, abrir mão de articular uma outra para o seu discurso poético. Essa margem, densa e fluida, ao mesmo tempo, constitui a linguagem através da qual o poeta intervém sobre a realidade e sobre os modos de falarmos a respeito dela.

 

 
         Referências iconográficas

1. http://natrilhadocastelo.blogspot.com/2011/06/hoje-dia-mundial-do-meio-ambiente-e-da.html
Consulta: 09 de junho de 2011  20:11 min

2. http://cienciaseecologia.blogspot.com/2010/05/zoologico-de-volta-redonda-tem-muita.html
Consulta: 09 de junho de 2011  20:22 min

Referências bibliográficas

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DUVIGNAUD, Jean. Festas e civilizações. Trad. L. F. Raposo Fontenelle. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará; Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1983.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

GOMES, Núbia P. Magalhães e PEREIRA, Edimilson de A.. Do presépio à balança: representações sociais da vida religiosa. Belo Horizonte: Mazza Edições, 1995.

SARTRE, Jean-Paul. Qu’est-ce que la littérature?. Paris: Gallimard, 1948.

SILVA, Francis Paulina Lopes da. “Misticismo popular na poética mineira”. In: Anais do V Congresso de Letras: Discursos e Identidade Cultural. Caratinga: Centro Universitário de Caratinga (17 e 21/05/ 2005,
http://bibliotecadigital.unec.edu.br/ojs/index.php/unec02/issue/current, versão on-line: ISSN 1981-4410

SISCAR, Marcos. Poesia e crise: ensaios sobre a “crise da poesia”como topos da modernidade. Campinas: Editora da Unicamp, 2010.

 

 

EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA nasceu no Brasil, na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1963. É docente de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Na área de antropologia social publicou, dentre outros, os livros “Mundo encaixado: significação da cultura popular” (Belo Horizonte, 1992) e “Do presépio à balança: representações sociais da vida religiosa” (Belo Horizonte, 1995).  Dentre seus livros de poesia destacam-se “homeless” (Belo Horizonte 2010), “Guelras” (Belo Horizonte, 2016), “E” (São Paulo, 2017) “Qvasi” (São Paulo, 2017) e “Poesia + antologia 1985-2019” (2019). O autor publicou, em 2013, o volume “Blue note: entrevista imaginada”, pela editora Nandyala, de Belo Horizonte. Publicou os livros de ensaios sobre etnopoesia intitulados “A saliva da fala: notas sobre a poética banto-católica no Brasil” (Rio de Janeiro, 2017) e “Entre Orfe(x)u e Eunouveau: análise de uma poética de base afrodiaspórica na literatura brasileira” (Rio de Janeiro, 2017). Este último teve edição em Portugal através dos Cadernos Ultramares. O autor teve sua obra analisada em diversos trabalhos críticos (teses e dissertações), dentre os quais se destaca o livro “Recitação da passagem” (Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010), de autoria de Maria José Somerlate, docente de Literatura Brasileira na Iowa University, nos Estados Unidos.

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