ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista com o poeta André Luís Câmara    

 

1-) Como é abrir um livro que parece um mosaico de memórias e lembranças escrito entre gêneros da crônica e da poesia. Parodiando, Perec, naquele famoso seu livro Vida modo de usar. Como foi este "uso "quando você resolveu escrever o livro?
André Luís-Curioso você falar em um mosaico em relação a esse livro. Faz muitos anos, tive a ideia de escrever um conto que teria exatamente o título de “Mosaico”. Eram várias histórias que se emaranhavam a partir de um cenário inicial. Esse conto ficou somente na ideia e jamais fui além do título. Na época, não me lembro se fiz alguma ligação com o livro do Georges Perec, que li em meados da década de 1990, e do qual gostei muito. O fato desse meu livro, Desgaste, levar você a vê-lo, de algum modo, como um mosaico, me agrada imensamente. Quem sabe, consegui dar a ele, ao menos um pouco, a aparência de um roteiro que abre no cenário de Vista Alegre, como é chamado um dos locais do bairro de Santa Teresa, onde moro no Rio. Segue por diferentes caminhos da cidade, passa por Ipanema, Grajaú, Engenho Novo, Gávea, Laranjeiras, Centro, se sente estrangeiro em São Paulo ou nos Estados Unidos, mas também estrangeiro no próprio Rio. E vai perambulando, observando. Quando comecei a perceber que havia novos poemas surgindo, que poderiam dar em um novo livro, fui recolhendo vontades guardadas de escrever sobre determinados assuntos. E cheguei em certos momentos a me dizer: “Agora vou escrever um poema sobre isso, agora um outro sobre aquilo”. Ao final, fui formando um certo quebra-cabeça, um jogo da memória e da vivência, sempre mantendo uma ligação forte com invencionices e o sonho, sem abrir mão do cotidiano real. E isso me levou, quem sabe, a expor esse mosaico do qual você fala. A crônica que já ouvi dizer que há nos meus versos vem certamente da minha paixão pela música popular. Escrevo poemas porque, na verdade, “eu queria ser um tipo de compositor/ capaz de cantar nosso amor modesto”. Agora, espero que meus versos tenham vida própria e possam ser vistos como poemas, não como canção que ficou incompleta ou como crônica fora de lugar. Embora, claro, minha poesia se identifique com a canção e com a crônica.

 

2-) O exercício da lembrança parece ser seletivo, é como uma gravação de fita cassete, gravamos, record, aquilo que gostamos de retornar-retomar ao convívio dos vivos. Você acha que o trabalho do poeta está muito ligado ao exercício de trazer à tona, reminiscências?

André  Luís- Drummond diz, no poema “Resíduo”: “E de tudo fica um pouco. /Oh abre os vidros de loção/ e abafa/ o insuportável mau cheiro da memória”. E já no poema “Memória”, ele termina com aqueles versos que eu adoro: “Mas as coisas findas/ muito mais que lindas/ estas ficarão”. Então ao se ter a consciência, a certeza da fugacidade das coisas, do instante único de cada minuto da vida, talvez isso provoque o movimento de querer apreender, reter determinadas passagens que nos parecem importantes e que talvez tenham interesse para a vida presente. Ao mesmo tempo, há coisas que são lembradas e incomodam, que gostaríamos de apagar, mas algo fala mais alto e, mesmo se procuramos apagá-las, retornam, talvez como recalque, trauma ou simples mau cheiro. A literatura costuma fazer essa viagem às lembranças, e a poesia, muitas vezes, desce fundo nisso. Claro que ao puxarmos esse tema pode vir, em grandes doses, uma nostalgia, e ficarmos somente nessa sensação superficial dos bons tempos que não voltam mais. Ao poeta interessa esse “insuportável mau cheiro da memória”, memória feita de “coisas findas/ muito mais que lindas”. E ficarão as coisas que passam, acabam e procuraremos registrar em palavras, imagens, música. Como um ator ou uma atriz em cena, no teatro. Por mais que se façam vídeos, filmes, fotos, algo ali é um momento exclusivo para quem vê. E é exatamente o impulso de procurar perpetuar e transmitir um instante desses que nos leva a gravar, fotografar, escrever. Por vezes, disso pode resultar um excesso de documentação que nos afaste da plenitude desse momento entre ator e plateia. Eu quero que meu verso possa reverberar esse momento, manter essa ligação, essa emoção. Fitas-cassete, discos, livros, filmes saltam de alguns dos poemas desse livro não apenas como registro nostálgico, mas como tentativa de passar à leitora ou ao leitor determinada sensação vivida.

 

3-) Há uma veia bem acadêmica, não no sentido de estudo, mas sim, de vivências do que você organizou no seu repertório emocional de experiências. Aqui vejo quase como um cruzamento de álbum conceitual entre o vinil e um álbum de fotos. Você trabalha conceitos de imagens que são sensoriais e ao mesmo tempo, carregam uma carga de informação que passa pelo jornalismo e a crônica. Fale um pouco disso.

André  Luís- Olha, é possível que isso aconteça. Eu estou com 55 anos de idade, publiquei meu primeiro livro aos 53. Em Rua sem saída, que foi lançado também pela Patuá, em 2018, reuni uma série de poemas escritos ao longo de quase quarenta anos. Quando me dei conta que um novo livro estava surgindo, me animei com o fato de publicar poemas feitos para aquele momento e não mais guardados ao longo de anos. No entanto, isso não é inteiramente verdade, pois Desgaste começou com a reunião de uns poucos poemas, talvez uns quatro, que não haviam entrado no Rua sem saída. Durante um tempo, deixei o título provisório de Sobras, que depois ampliei para Umas sobras e uns sonetos. Agora, dos quarenta e sete poemas que há em Desgaste, creio que bem uns quarenta tenham sido escritos para o livro, ao longo de um ano e meio. Portanto, apenas vinte por cento ou menos são de poemas que estavam guardados. Eu não me dei conta imediatamente dessa ligação com a memória, com reminiscências. Cheguei a abrir um arquivo, no computador, que chamei de “ideias para poemas”. Que eu me lembre, um ou dois poemas saíram dessas ideias. Afinal, quando a ideia me vinha já ia tomando a forma de poema, em sua primeira versão, então não havia motivo para ficar nesse arquivo, já vinha numa forma além de simples ideia. Não trabalhei com conceitos muito claros, definidos. Fico contente em saber que o livro lhe dá essa impressão. Se há nele algo de minha vivência no jornalismo é provável. Agora, cabe esclarecer que sempre fui um jornalista empresarial, trabalhando com assessoria de imprensa, comunicação institucional, coisas assim. Tive poucos artigos publicados na grande imprensa. Cheguei a ter uma passagem relâmpago por redação de jornal. No entanto, o jornalismo a que você se refere pode não estar tão associado a uma experiência profissional mas a uma afinidade de interesses, de temas, de visão, quem sabe. Um jornalismo que vem dessa forma da crônica, que você cita, e que sempre me encantou. No entanto, eu comecei a organizar um livro de crônicas e outro de contos, a partir do que escrevi em antigos blogs ou no Facebook. E me dei conta de que eram coisas que não se sustentavam muito. Pode ser que, um dia, veja motivo para retomar esses textos. Por enquanto, o que me interessa é mesmo a forma poema.

 

4-) Fiquei curioso com o título Desgaste. Ele dá uma ideia de erosão? De perda, de desacumulo de algo que está perdendo o seu conteúdo. A frase é um ponto de partida para o quê? Fraseado poético, o fraseado de uma guitarra, talvez pareça mais com a voz...
André Luís -O livro teve diversos outros títulos, Desgaste me surgiu à última hora. Dei muito trabalho à Editora Patuá, com inclusão de poemas e mudanças, inclusive no título do livro, e eles foram muito camaradas e parceiros. Não me sentia confortável dando ao livro um título que passasse a ideia de que estava tudo bem. Eu me via atravessado por uma conjuntura das mais tenebrosas por que já passamos no Brasil, com um retrocesso gigantesco, uma ameaça às liberdades, aos direitos humanos, ao meio ambiente, uma perversidade que enaltecia e enaltece torturadores, golpistas, racistas, fascistas, atos antidemocráticos. E, ao mesmo tempo, havia o próprio livro difícil de fazer, com poemas escritos e reescritos tantas vezes. Sem falar nos embates na internet e por aí afora, com o crescente discurso do ódio. Então, no próprio livro, procurei uma palavra que pudesse expressar esse momento. E, no último poema, exatamente o último verso diz: “cada frase um desgaste, viu, pra quê?”. Quando olhei isso, não tive dúvidas mais do título. O livro tinha que se chamar Desgaste. E gostei muito de me referir à frase e não ao verso. Um verso pode conter uma frase, a frase pode conter um verso. A frase musical que leva a um poema, a frase dita a esmo que sugere um verso. Num livro com versos metrificados, com sonetos, poder falar de frase, e não apenas de verso, foi uma libertação para mim. Talvez uma afirmação do meu apreço pela música popular, talvez uma tentativa de me livrar do incômodo de verem meus poemas como crônica. Meus versos têm frases, minhas frases querem ser versos. Pode ser um caminho, mas sem certeza de nada. O momento é desse Desgaste que leva a uma indagação, a um ceticismo.

 

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Paginação:

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