ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

João Rasteiro


7 poemas    

“É querer estar preso” sem “vontade”
“é ter com quem nos mata, lealdade”
Luís de Camões

 

Um vírus assim é quase uma praga do Egipto
entre a ordem de Deus e a sua grande família
entre o maculado e bulímico berço em vigília
e o breve castigo da espécie em que regurgito

                                *
No banheiro descasco as mãos no sabão azul
este vírus é rebento do filho de uma adúltera
e nem sequer me ocorre o sabor da nêspera
nos dias do medo e da piedade em olho azul.

                                *
Do poema e das flores de Baudelaire as uvas
que reflorescem sob o encantatório da cítara
e isto será Verlaine sob o arquejar das chuvas.

                                *
Vamos, pois, nós e o vírus, rociar nossa cântara
e escorar ainda o nosso fogo vivo sob as luvas:
ó poesia minha, que é só apartamento e máscara.

 

 

 

 

 

 

“Somos órfãos de uma grande fome”

  “A terceira miséria é esta, a de hoje.
                                           A de quem já não ouve nem pergunta.
                                           A de quem não recorda.”
                                                Hélia Correia

 

No Senado
errámos todos o eloquente discurso
de nossos efémeros dias,
pereceu o amor nos interstícios da Pólis
na história que depois do crepúsculo
merecíamos ter neste púrpuro chão,
e também o panegírico do corpo
por onde se derramava o vinho
e o eco cintilante como a palavra radiosa
na sabedoria e glória de Babilónia,
no alastro olvidámo-nos pela clareza da folha
de fausto em “banquete às aves de rapina”,
nós, “os poetas em tempo de indigência?”

                          *

No Senado
ignorámos todos a siderurgia do mal
de nossas resplendorosas batalhas,
somos hoje a cegueira na divindade dos homens,
sob a voracidade que antes da obscuridade
se desgasta sobre o tempo do banquete,
e a extrema altivez do narciso
no qual desvive a inocência da beleza,
é a pura condenação que nivela o golpe
sobre a renúncia cristalina de outras Grécias,
num entre os mais, num entre os que se” doam,
desfazemo-nos ante a poeira das leis
deportando heróis “como espólio para os cães”.

                          *

No Senado
deslembrámos todos a profligação do verbo
de nossas perfumadas rosas e mãos,
um poema deslumbrado entre teus seios
no lugar daquela fonte de vida em teu corpo
mergulhado é hoje ilha de bruma inacessível,
e prossigo, prosseguindo tu em mim
em poema ou “ideia de Pólis resgatada”,
e não cuido sequer de mensurar a culpa,
a minha, a tua, a nossa, sob o coração da Ágora
nós, os ateus, nós, os monoteístas,
nós”, os ocultos, alimentámos o incesto que nos agita
carregando um resgate imensurável” e cruel.

                          *

No Senado
agora, só a fineza acumulada do linho
e do branco em dois frágeis mundos de vidro,
lambe-te o nome, cada odor e memória
circunscrita a uma só raiz de tristeza,
a minha que se esconde “sob cada pedra”,
o meu fulgor de ti, o fulgor das Grécias
onde sempre “pode esconder-se um escorpião”.

                          *

No Senado,
decide-se agora se a cicuta
deverá ser o castigo, para mim que te não esqueci,
se para aquela mãe que logo esqueceu o filho
recém-nascido, atirando-o para o caixote do lixo,
para um fundo de corpo onde não subsiste chão,
ó miseráveis anjos despidos
sob estreito sopro, sob frágil voo e divina incúria.

                          *

No Senado
excede-se o pudor da orfandade
da palavra justa, e em ramo de loureiro
a arder está o nosso nome
e embora cintilando pujante o sol para eles,
como usuários de parca sabedoria
em anzóis de aditamentos tão irrelevantes,
não entendem que, “sem bárbaros o que será de nós?”

 

 

 

 

 

 

  Deus, ecce deus

                            “(Penso no que o medo vai ter
                             e tenho medo que é justamente
                             o que o medo quer)”
                                       Alexandre O'Neill

 

Rubro soltou-se o vírus.
O medo aspira o corpo
para dentro dos bofes da palavra.
Asfixia as coronárias.
Enxerto-me na rendição à luz
e “penso no que o medo vai ter”.
A garganta busca o odor
da rosa – “Deus, ecce deus”.

           *

Dias cerrados mesmo a deus.
Poemas brancos, por inaugurar.
Veneno, de cal virgem.
Nossa débil e última guarida.

               *

À submissão da sombra a língua
larga os rebentos.
Assédio das casas mudas.
Onde escavar a saída?

               *

Espiga, Deus!
Entre as duras colunas de um vírus
e não receies a sua insolência.
Espiga, Deus!

 

 

   

 

 

 

     Em finais de março

                                           «Lembro-me de toda a areia
                                           até chegar ao ouro»
                                           Joaquim Manuel Magalhães

 

Em finais de março o poema deteve-se
em seu obscuro relicário de joias raras.
Os deuses não apreciavam os céus
e o corpo agredia a terra como um pugilista
que agride o alento em que está ancorado.

                                *

Proclamava coisas prováveis, a inércia
do mundo onde éramos afago de nascente.
Uma jura, uma crença, uma alegria,
somente coisas mal-entendidas e irreais.
Há apenas alguns interlúdios curtos de ilusão.

                                *

O poema fixava na goiva uma chama ao centro
com a silhueta de Eros, uma silhueta una,
a fluvial sanguínea potência em propagação.
Amo a energia com que ilude o invisível,
desse exímio pânico de corpos nus no centro.

                                *

E, porém, na terrífica elegância dos estilhaços,
não esqueço os instantes, esqueço os dias,
não me lembro dos poemas, lembro-me de ti.

 

 

 

 

 

 

Epístola anónima do amador

“E, tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo”
Manuel António Pina

 

1.

Escuta: palavras não me faltam (quem diria o quê?), pressentes que regra geral o amor é o que acontece quando estamos demasiado ocupados a olhar outros medos nos braços do mundo. E, no entanto, volto a dizer: é desta vez. Não temerás as feridas que te abrirão, e o amor acalentará o lugar disponível entre a terra e o céu, entre nós dois.

 

2.

Escuta: “palavras não me faltam (quem diria o quê?), sentes que os misteriosos ciclos do coração efabulam em seu exíguo movimento, e pelas ameias deste corpo, aqui te conduziram mais uma vez. Enamorado, solitário e demasiado temeroso: tudo descomunal para ti, tudo admiravelmente belo e aterrador. A fugidia traição do acaso.

 

3.

Escuta: “palavras não me faltam (quem diria o quê?), tivesses ainda tempo e talvez acabasses por abrir o coração, e então sugares o medo de que sob o mais intenso brilho do sol sempre alimenta uma névoa. Aquela que te distancia precocemente do seu nome. Do corpo todo onde estiveste e a que jamais regressarás no regresso ao primordial afecto.

 

4.

Escuta: “palavras não me faltam (quem diria o quê?), sabes de imediato que é de medo e de amor o teu nome. Mas estás tão pouco onde estás: entre a tua distância e a sua solidão. Baldios, que embora irreconciliáveis os mesmos podem ter intervalos distintas. Gostaria tanto que me tivessem escrito algo parecido num tempo diferente e imprescindível.

5.

Escuta: “palavras não me faltam (quem diria o quê?), procura o que sobrevive, um espaço vivo onde as palavras não soçobrem a cada instante de solidão. Talvez também ela não consinta dizer-se só o que a luz permite dizer. Sê o corpo breve que ainda aguarda. Vês como os olhos do gato brilham intensos perante o sol que desperta?

 

6.

Escuta: palavras não me faltam (quem diria o quê?), reconhece a tua mão. Pretendesses tu apenas a primeira manhã do amor e tudo se assemelharia a uma única despedida. Era só isto que tinha para te dizer.

 

7.

Escuta, “palavras não me faltam (quem diria o quê?), abraça a luz esbatida no espelho, a assustada distância a que sempre largas o coração nesse obscuro lugar, a face breve da paixão que expõe a opulência do desnorte. Em algum instante do amor que se achou, fomos simultâneos. Aí será a palavra viva: “eis o lugar onde guardarei a vida e a morte”.

 

 

 

 

 



 O incendio da esplanada

                                  “Respirar debaixo de água era isso.
                                   E isso foi só o começo”
                                            Carla Maia de Almeida

 

Uma mulher numa esplanada
brilhando com ramos de céu e pureza.
Uns lábios com saliva de mar.

                          *

Perscruta-se uma mulher e um homem
num oceano qual farol de oiro
perscrutando outra mulher e outro homem
como as magnólias entre o tojo.

                          *

Um homem numa esplanada
mergulhando no brilho como um falcão.
Aparece a noite e adolesce o fogo.

                          *
Não foi em vão que se procuraram.
Do oceano e do canto das gaivotas
perfilha-se a lua e o jubilo e o leito de sal
traiçoeiro. E o aroma e a poesia: o amor.

 

 

 

 

 

 

A textura da terra

“Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,
ornados de ouro e prata em luz”
W. B. Yeats

Se deus detivesse a textura guarnecida da terra
embelezada de homens e mulheres sob o sol,
palavras acesas, turvos sobressaltos
do verbo na língua, do querer, e do bem-querer,
prolongaria essa textura sob nossas falas
adornada na claridade divina do erro e do pecado.

                                *

Mas, crédulo, possuo somente a poesia;
é ela que prolongo sob nossas falas.
Trilha-a lentamente, tu és a voz da minha poesia,
esta pura nascente de palavra incorpórea.

                                *

“Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus”, e deus
a textura guarnecida da terra, a poesia
serias tu, a bordadura do amor, e o centro do amor,
             tudo o que há de solícito “de ouro e prata” no vulto da fé.

 

 

João Rasteiro (Ameal - Coimbra, 1965). Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra, é Vogal de Direção do PEN Clube Português. Tem poemas publicados em revistas e antologias em Portugal, Brasil, Itália, França, Espanha, Finlândia, República Checa, Hungria, Moçambique, México, USA, Colômbia, Nicarágua e Chile. Obteve o Prémio Literário Manuel António Pina (2010). Publicou 18 livros (Portugal, Brasil e Espanha), que vão de, A Respiração das Vértebras, 2001 a, Levedura, 2019. Em 2009 e 2018 organizou antologias dedicadas à poesia portuguesa contemporânea, respetivamente: "Poesia Portuguesa Hoje" (Arquitrave, Colômbia) e “Aquí, en Esta Babilonia” (Amargord, Espanha). Em 2015 e 2020 integrou as antologias de contos “O País Invisível”, organizada pelo Centro de Estudos Mário Cláudio e ”Antologia de Contos Originais”, Edições Colibri. Em 2017, o grupo 'Os Controversos' adaptou e levou à cena a peça 'A rose is a rose', a partir do livro "A rose is a rose is a rose et coetera" (Edições Sem Nome, 2017). Tem participação diversa (letras), em vários CDs de Fado (Canção) de Coimbra. Vive e trabalha (Casa da Escrita/CMC) em Coimbra.

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Colaboradores de Julho de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alberto A. Arias ; Rolando Revagliatti, entr., Álvaro Alves de Faria, André Giusti, Antonio Manoel Bandeira Cardoso, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Clécio Branco, Danyel Guerra, Deusa d’África, Edimilson De Almeida Pereira, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Godofredo de Oliveira Neto; Maria Eugênia Boaventura, Myrian Naves, Hélder Simbad, João Rasteiro, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Morais, Lia Sena, Luciana Siebert, Ludwig Saavedra, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas ; trad. Sayanbha Das, Myrian Naves, Myrian Naves, Heitor Schmidt, André Nigri e Sérgio Sant’Anna, Nagat Ali, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Waldo Contreras López


Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


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