ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: A noite em que as estátuas falaram    

Não, não vou abordar hoje outro filme, que no caso poderia perfeitamente ser a trilogia de Uma Noite no Museu... Vou contar um episódio que se passou comigo, em Minas Gerais.

Começo explicando que sou uma capricorniana muito convicta (o mais possível) de minhas responsabilidades e compromissos assumidos. Considero o provérbio “não deixe para amanhã o que pode fazer hoje” um tanto obsoleto, pois não costumo deixar para daqui a pouco o que posso fazer agora (e ainda começo pela tarefa que considero mais difícil). Isto tem me proporcionado algum tempo livre nos meus amanhãs ou nos meus daqui a pouco. Porém, há sempre um porém, mesmo assim já cheguei um pouco atrasada em alguns debates que participei, quando eu morava em Maricá, na Região dos Lagos, no Rio. Eu saía pelo menos uma hora mais cedo do que devia quando tinha algum evento com horário marcado, pois nunca se podia prever como estava a ponte Rio-Niterói e o afunilamento do tráfego em consequência do pedágio logo na entrada. Fiz todos meus mestrados, doutorados e pós-doutorados saindo de casa às seis e meia da manhã para assistir aulas que começavam às dez no Fundão, pois, mesmo com a Linha Vermelha facilitando o escoamento dos veículos, se eu não saísse bem cedo, pegaria já às sete horas engarrafamento pela estrada durante boa parte do trajeto, e provavelmente não chegaria a tempo de estar presente desde o início das aulas (que eram de Poética, imagina se eu ia deixar de aproveitar cada segundo...). Lembro-me inclusive de uma tarde bem frustrante, quando fui convidada para assistir uma peça teatral em um domingo ensolarado; então eu sabia que haveria rush do pessoal que vinha das praias ou de seus fins de semana, por isso resolvi sair duas horas e meia mais cedo. Pois fiquei na estrada: depois de duas horas eu não tinha chegado nem perto da ponte propriamente dita. Tive de ligar e adiar minha ida para um outro fim de semana, de preferência chuvoso ou pelo menos nublado... Que fique claro. portanto: em se tratando de horários sempre fui a mais pontual possível – detesto esperar, ser esperada, ou me deparar com qualquer imprevisto que gere algum tipo de atraso.

Tendo armado o cenário da minha crônica, posso agora prosseguir contando-a: eu aceitava quase todos os convites para participar de eventos literários em outros Estados, porque eu gostava muito de viajar (ainda gosto, mas agora com um minizoo em casa fica bem mais difícil, tenho recusado a maior parte dos convites). Eu procurava conhecer melhor o lugar dos congressos, às vezes ficava um dia a mais para passear – foi assim que conheci o Brasil (até algumas cidades do interior) quase que de ponta a ponta. Imagine agora a minha decepção quando, só depois que voltei do Seminário Nacional de Batatais (São Paulo), em 1987, soube que podia ter visitado a Igreja Matriz do Bom Jesus da Cana Verde, onde Cândido Portinari foi batizado, e onde eu encontraria várias pinturas dele: cinco quadros do Bom Jesus da Cana Verde, quatro de Nossa Senhora de Aparecida, cinco invocando cenas bíblicas, além de catorze quadros representando a Via Sacra. Simplesmente achei que toda a obra de Portinari devia estar na cidade vizinha onde ele nasceu: Brodowski (ah esses lamentáveis achismos!). Indesculpável. Queria muito ter visto a Via Sacra através da visão deste grande pintor – e comentei com os mais próximos: levaram-me para conhecer lugares aprazíveis, em vez das obras de Portinari, nas quais eu tinha o maior interesse até porque, no Rio, eu já tinha visto réplicas de quatro telas impressionantes dele na Capela Mayrink situada na Floresta da Tijuca (as obras originais estão sob custódia do Museu Nacional de Belas Artes). Eu lamentava ter estado tão perto e ter ficado tão longe.

Pouco tempo depois, neste mesmo ano, participei do Festival de Inverno da UFMG em S. João del Rei do qual guardo gratas recordações, entre elas estão ter encontrado pessoalmente pela primeira vez o poeta multimídia Marcelo Dolabela (mantínhamos correspondência constante), e também ter sido surpreendida com a presença de um grande amigo, o escritor Sérgio Fantini, acompanhado de uma amiga bonita e simpática. Talvez por eu não ter escondido minha recente frustração, ele resolveu me preparar um verdadeiro combo de surpresas: a primeira foi efetivamente ele estar lá. A segunda, ele ter dito que após o evento me levaria ao hotel em Belo Horizonte (onde ele mora) para eu pegar minha mala e depois me deixaria no aeroporto. Juro que não desconfiei de nada, de nenhuma das suas intenções, apenas previ um ótimo e prolongado passeio. No entanto, ele reservara para depois, já na estrada, a surpresa maior, a cereja do bolo: passaríamos por Congonhas para eu conhecer as esculturas esculpidas no século XVIII por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho – como era conhecido –, e com sorte (dependendo do horário), talvez conseguíssemos ver a Via-Sacra também. Vibrei mais ainda, e seguimos despreocupados, pois havia tempo de sobra, meu voo de volta era o último, já de madrugada, sem problemas portanto. Só que tivemos alguns percalços pelo caminho (pneu furado, entrada errada na estrada – ainda não havia GPS) e só conseguimos chegar lá à noite, fora do horário de visitação para o público.

Eu estava bem desanimada: de novo perto e tão distante?, mas a moça que veio com Sérgio resolveu o que poderia ter sido uma decepção a mais: ela era guia turística (outra  informação que eu não sabia) e por sorte conhecia o vigia daquela noite; depois de conversar com o guarda, e ele, sensibilizado também com nossos apelos e com os contratempos que tivemos que superar no percurso para estar ali naquela hora, nos deixou entrar no adro da Igreja de Bom Jesus de Matozinhos para olhar as esculturas de perto. Enfim eis-me diante dos doze profetas: os quatro principais do Antigo Testamento - Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, em posição de destaque na ala central da escadaria - e oito profetas menores, escolhidos por um clérigo segundo a importância estabelecida na ordem do cânon bíblico. Nos três planos do átrio, primeiro estão Jeremias e Isaías de frente; atrás deles, no primeiro patamar, Baruc e Ezequiel; no terraço do adro, Daniel e Oséias, de perfil; mais além, Jonas e Joel dão-se as costas; finalmente, nos ângulos curvilíneos do pátio, Abdias e Habacuc, e nas extremidades do arco Amós e Naum apresentam-se de frente. A maioria deles me era inteiramente desconhecida (nunca tinha nem ouvido seus nomes), porém senti-me acolhida de imediato, como se fôssemos grandes amigos há longo tempo.

A disposição deles, a altura, a textura, a minúcia dos detalhes de suas vestes (as dobras, o movimento delas), a expressão de seus rostos, o gestual das mãos, a pedra-sabão brilhando, repleta de múltiplos reflexos sob o clarão de uma lua lindíssima, tudo transmitia uma paz que eu nunca tinha sentido antes. De tempos em tempos surge a polêmica na imprensa sobre a real existência do escultor; pois quando, eu extasiada, toquei em alguns Profetas, incondicionalmente acreditei na real existência de Aleijadinho. Consta que ele pintava de joelhos, pois sua doença também atingira os artelhos (de seus pés). Também acredito nisso, porque aquelas esculturas são de quem fez arte o tempo todo em posição de profunda oração. Eu tinha vontade de me ajoelhar diante daquela exuberância artística também. E em meio a tanta beleza não me contive, chorei muito, muito, muito, muito, sem parar, sem me importar onde ou com quem eu estava (chorar em público? Jamais...), eu não conseguia parar. Foi incontrolável: quanto mais os olhava mais entendia que os profetas não meditavam, no sua época, apenas sobre as suas vidas, mas creio que sobre as nossas também.

Resultado: ninguém conseguiu me tirar dali, por horas a fio. Naquela madrugada, perdi meu voo para o Rio de Janeiro, como já era de se esperar. Na verdade Sérgio tentou (inutilmente) me apressar um pouco, eu tinha plena consciência do que podia acontecer, mas estar ali no adro por mais algum tempo era tudo o que eu queria, sem precisar olhar para o relógio, ou me sujeitar a horários, segura de que valia qualquer atraso, qualquer inconveniente a ser enfrentado depois. Quando voltei à realidade, diante de ter ocorrido o ocorrido (risos) realmente – espantoso! –, não esbocei qualquer sentimento de culpa, censura ou irritação; eu transbordava era de agradecimento pela bênção de ter conhecido aquelas doze magníficas criaturas. Sei que já devia estar preparada para o que senti, pois lera maravilhas nos matutinos sobre os doze profetas. No entanto, nenhum jornal me avisou de que podíamos receber milagres deles: saber que aquelas estátuas estão vivas, que falam conosco (falaram comigo, eu as ouvi), e que mexem com as pessoas, mesmo com as que acham que são de ferro ou que têm o coração de pedra.

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Paginação:

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