ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


O capador    

Pode perguntar por aí a quem quiser e vão lhe confirmar. Todo mundo dessas bandas conhecia o sujeito. Conhecia de vista, pois Zé Firmino era homem de poucas palavras, um bruto com pouca história. Pela profissão que tinha, e que todos comentavam ao pé da orelha, com medo, até que se mostrava muito, pois era sempre possível encontrá-lo no bar do Peixoto, na esquina da 11 de Setembro. Não estivesse por ali, era só bater na casa dele. Não tinha erro. Não se escondia de ninguém. Mas isso foi antes, bem antes de ele ganhar fama e se tornar lenda por estas bandas. Desapareceu, virou um fantasma que metia medo em todo mundo. Seu paradeiro tornou-se um mistério. O que se sabe é que ele levou muita gente para o outro lado. Era um cabra frio. Dois olhos gelados que quando grudavam na gente dava um arrepio ruim. E é curioso notar que ele até que não tinha a cara feia, era bem apessoado, imberbe, traços finos, quase femininos, o que aumentava ainda mais a curiosidade: de onde vinha tamanha crueldade? Tinha a merecida fama de maior matador dessas redondezas e ninguém se metia com ele, nem a polícia, que fazia vista grossa àquela sucessão de defuntos que eram manchete de jornal, aqui e ali, de Santana à Freguesia de Água Funda. Quase todos na conta do Zé Firmino, normalmente pequenos proprietários em litígio com algum poderoso, um amante justiçado, um político em ascensão, um devedor inveterado. Quando aparecia um corpo de homem, só de olhar, já se sabia de quem era o trabalho. Essa sabença era fácil de ser sedimentada no conceito das gentes, uma vez que o matador costumava assinar sua obra arrancando os ovos do finado. Assim como lhe digo. Zé Firmino decepava o saco de todo o macho que eliminava, sem exceção. Capava o cabra como se capa um boi. Ele não se metia com mulheres, nem crianças, tinha lá seu código de ética. Quando o padre de Santa Rita foi encontrado no fundo da casa paroquial, isso há muitos anos, o que mais chamou a atenção não foi o fato de ele ter sido assassinado com um tiro certeiro de escopeta. O vigário era carta marcada para morrer, mexia com gente poderosa dali, defendia um bando de sem terras, comprava briga com fazendeiros e políticos, diziam que era comunista, não tinha medo de ninguém, acreditava que Jesus estava ao seu lado e o protegeria. Não protegeu. O que chocou mesmo foi encontrá-lo com a batina levantada até o pescoço, o rombo no peito, e a surpreendente ausência dos ovos, além da poça de sangue em que dormia o frio sono dos defuntos. Padre Baggio deve ter sido a primeira encomenda de Zé Firmino, pois foi o primeiro defunto capado que se tem registro. Discutia-se o porquê desse jeito de matar. Isso não é comum, pelo contrário, ninguém, por mais cruel que seja, sai por aí dando-se ao trabalho de castrar defuntos. Então, por que ele fazia isso? Discutia-se nas barbearias, nos bares, nas feiras. Uns sugeriam que ele queria dizer que era mais macho que suas vítimas. Outros inventaram uma história, nunca confirmada, de que ele havia sido casado e que a mulher lhe passara uns cornos bem passados e era por essa razão que ele deixava marcada a sua vingança arrancando os bagos de todo o macho que matava. Havia até quem jurasse de pé junto que ele, num ritual de bruxaria, comia a iguaria frita, com farofa, porque acreditava que ia lhe dar mais brabeza. A verdade é que ninguém nunca soube o motivo dessa estranha mania do grande pistoleiro da região de Santana do Faro, conhecido por muita gente como O Capador.

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Gilvan, o Bacamartinho, era vereador em Goiana, cidadezinha localizada exatamente no meio do caminho entre Recife e João Pessoa. Sujeito gordo e suarento como meu primo Julião, casado com Marina, e tão safado quanto. Cabra sem palavra, enrolador de marca maior, cheio de noveora, um vaselina completo. Filho do finado Pedro do Bacamarte, Gilvan acabou se elegendo vereador às custas do bom nome do pai que, durante muitos anos, foi também vereador do município e que, embora não tivesse feito grande coisa, também não tinha feito grande merda na investidura do mandato. Acreditando que filho de peixe é sempre peixinho, um punhado de eleitores o colocou na câmara local, lugar que, no fim das contas, ele pouco frequentava, preferindo sempre a companhia das quengas, dos bares, dos arrasta-pés da região. Foi justamente num desses assustados que desgraçou-se ao se engraçar por uma mocinha das coxas grossas, olhar molhado e lábios de pão doce.  Juliana, dos olhinhos negros e levemente estrábicos, era filha única do velho coronel Alceste, neto de antigo usineiro e proprietário de um pedaço de terra fértil por ali. Homem rígido, de moral com mofo e limo, de costumes mais antigos que cagar de cócoras, sujeito-homem de palavra e zelo, Alceste tinha em Juliana a sua princesa, sua menina preciosa. Gilvan acabou se metendo com a morena errada. Quando ela comunicou, entre soluços sinceros, que as regras estavam atrasadas e que um filho seu estava a caminho, Gilvan, para desespero da mocinha, negou-se a reconhecer a paternidade da criança. Juliana pariu o filho do vereador já na zona, a casa de Lizete Rabada, para onde foi encaminhada pelo próprio pai, depois de aplicar-lhe uma surra e cortar-lhe os cabelos. Com espuma no canto dos lábios, disse ele à filha ao empurrá-la para fora do carro: Para mim, você morreu, desgraça. Mas as coisas não ficariam assim, impunes. Há uma lei maior na região: a lei da vingança. Por ali, safado não se cria, é o que dizem. Aqui se faz, aqui se paga, todos repetem. Espalharam que o Coronel Alceste deixou que as coisas esfriassem um pouco e foi procurar Zé Firmino com o trabalho: eliminar Gilvan Bacarmartinho.

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Nessas terras de meu Deus, não existem segredos que perdurem. Quem quiser que se engane, eu não. Essas coisas não se escondem por muito tempo, são sussurradas pelos cantos, parece que pulam dos espinhos do mandacaru para o vento, e desse para as frestas nas portas de madeira, chegando aos ouvidos do povo que, para esse tipo de assunto, nunca dorme. Coisas assim não se guardam facilmente, acabam vazando como infiltração no teto, na parede, fazem mancha, anunciam-se pelo mofo, pelo cheiro ruim que exalam, e assustam. Podem até não ser verdadeiras, mas quem se importa? Foi assim que cantaram, não sem uma gota de sadismo, ao pé do ouvido de Gilvan: Estão dizendo por aí, soube agorinha, que contrataram Zé Firmino para matá-lo, visse? Andasse bulindo com quem não devia. Se eu fosse tu, fugia daqui, ia para bem longe, sumia. Consciência é um embornal onde a gente guarda as coisas que não tem orgulho de ter feito. Vira e mexe, estão lá, hibernando, a vergonha, o arrependimento, o medo. Lembrou-se logo de Juliana e do velho coronel Alceste. Era coisa dele, engoliu em seco. A notícia caiu-lhe feito um tiro de bacamarte numa noite de silêncio, espantando grilos e corujas, tirando todo o sossego do vivente. O vereador sabia muito bem de quem se tratava e, num ato reflexo, movido pelo instinto inconsciente de preservação, levou imediatamente a mão aos ovos, pousando os dedos sobre eles, apertando-os com carinho e muito medo, como se o pânico antecipasse o corte entre as suas pernas. Eram as primeiras das incontáveis horas de pavor que ele teria pela frente. A situação exigia que ele adotasse medidas extremas, alheias à sua índole. Gilvan não era de briga, nunca foi. Não passava de um mau caráter, de um frouxo. Sempre fora assim, um covarde. Passou a andar armado e deixou de frequentar as festas, os bares, os prostíbulos. Tornou-se arredio, quase um monge. Era comum pegá-lo em silêncio, em local público, postado estrategicamente num canto que lhe possibilitava a visão de todo ambiente. Não se sabe de onde vem o tiro, ele dizia, mas virá. E ele acreditava nisso, pois a fama do matador Zé Firmino era de total eficiência. Ordem dada, ordem cumprida. Serviço encomendado, defunto entregue e, ele tremia ao pensar, os ovos cortados. Era esse o motivo para o seu grande desespero, ser encontrado com as pernas abertas, capado, humilhado, emasculado, exposto a Deus e ao mundo como um sub-homem, um eunuco, uma coisa desprezível, um maricas, um baitola. Não! Ele se dizia baixinho, isso não. Um homem deve morrer homem, inteiro. Redobrou o cuidado, passando a não sair de casa. Perdeu o apetite, mergulhado que estava na paranoia absoluta. Qualquer barulho o deixava em estado de alerta, perdia o sono facilmente. Quantas vezes, durante a noite, vigiava, à janela, o movimento na rua deserta. Para Gilvan Bacamartinho, a vida perdera todo o sentido, tudo agora era apenas medo, não de morrer, que fique claro, mas de perder as partes e virar notícia em toda Goiana, Santana do Faro, Freguesia de Água Funda. Quando imaginava o jornal anunciando a sua morte, sentia calafrios terríveis, pois se via na primeira página, estirado, olho fixo no nada, capado, e todo o populacho nas feiras, nos mercados, nos puteiros, comentando e sorrindo de sua imolação. Viraria motivo de chacota. Foi quando ouviu o barulho de passos sobre as folhas secas da mangueira, no fundo do quintal. Levantou-se da cama num pulo. Era Zé Firmino, ele pensou e tremeu. O coração acelerado, o suor na testa, a arma engatilhada. É Zé Firmino, falava baixinho, o matador infalível, uma cinquentena de machos capados no currículo, impossível escapar. Tudo isso lhe vinha à mente, enquanto os olhos arregalados tentavam enxergar alguma coisa na escuridão do quintal. Apenas sombras que ele confundia com uma figura humana caminhando em direção à casa. Mas o barulho de passos era real, ele se dizia, e se encolhia com uma mão entre as pernas, protegendo seu tesouro, e a outra no .38 que pertencera ao velho Pedro Bacamarte. Um ruído na lateral da casa, perto do tanque de lavar roupa. Ele teve a impressão de ouvir alguém forçando a porta. É ele, é ele. Desesperou-se. Gilvan abriu a porta da sala e saiu correndo feito um louco pela rua.

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Disseram as testemunhas que o vereador veio correndo desembestado pela calçada, parou em frente ao bar. Não falava coisa com coisa, assustado, tremendo como vara verde. Afirmava que Zé Firmino estava atrás dele e pedia que não permitissem que ele tocasse em seu corpo. Não deixem que ele me toque, não deixem, repetia. Encostou o trinta e oito na testa e puxou o gatilho. A gente não pôde fazer nada, disseram. A polícia não encontrou nenhum sinal do matador, apenas um casal de gatos no quintal.
***

Meses depois da morte de Gilvan Bacamartinho, a polícia de Recife, seguindo uma denúncia anônima, invadiu um endereço na comunidade da Baixa da Égua, perto do rio, região de mangue. Segundo a denúncia, na casa de porta cor-de-rosa, a única do lugar com essa cor, se escondia o tal Zé Firmino. Os policiais o encontraram na rede, fumando calmamente. Não esboçou reação alguma: fumando estava, fumando continuou, como se nada estivesse acontecendo. Chamou a atenção dos policiais o fato de que o afamado e temido assassino era, na verdade, um sujeito de baixa estatura, franzino, corpo miúdo e gestos muito suaves. Nada que impusesse temor a quem quer que fosse. Não havia nele nenhum sinal de violência, era pura delicadeza e gestos afetados. No armário da cozinha, trinta e sete potes de vidro, cheios de formol, preservavam trinta e sete pares de testículos: era a prova inconteste de que o grande matador finalmente fora encontrado e preso. Mas a mais chocante descoberta desse dia aconteceu no IML, durante o exame de corpo de delito: Zé Firmino era, na verdade, uma mulher de nome Maria Rita das Dores dos Anjos, paraibana de Uiraúna, procurada há anos pelo assassinato do marido, de quem arrancou os ovos depois de meter-lhe uma peixeira no bucho e expor-lhe as tripas. Vizinhos disseram, à época, que Raimundo Nonato espancava regularmente a mulher, que um dia reagiu e sumiu no mundo.

***

Maria Rita afirmou ao delegado que nunca ouviu falar em Gilvan Bacamartinho.

 

Brasília, julho 2020 (ano da pandemia)

LAF

 

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título “Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito”).  Alguns trabalhos publicados: “O livro de Loraine” (romance, 1998), “logomaquia: um manefasto” (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano “Antologia do Conto Brasiliense” (2004) e  “Todas as gerações” (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro “Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem”, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos “Nebulosa fauna & outras histórias perversas”. Publicou em 2018 o volume de poesias “Babelical”, pela Editora Patuá e em 2019 o romance “Grande Mar Oceano”, pela Gato Bravo. Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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