ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Leonardo Morais


Por uma poética biossonora    

 

Lançado em 2010, o CD neonão, mais uma empreitada do irrequieto poeta e performer Djami Sezostre, desta vez ao lado do também poeta e músico Francesco Napoli, nos convida a ouvir, ou melhor, a estabelecer outras formas de relação, de interpretação, de apreciação da poesia. Possibilidades ainda pouco conhecidas ou divulgadas.

 

Os poemas de neonão parecem ter sidoelaborados para funcionar a partir de um modus operandi que se realiza na “manifestação orgânica do poema ao vivo” (SEZOSTRE, 2010). Manifestação que se faz necessária à legitimação de uma poesia que pretende provocar alterações em relação à percepção que se tem das palavras habitualmente empregadas, inseridas, articuladas em seus respectivos e sem-número de discursos, inclusive o poético.

 

Em relação à poesia produzida nos últimos tempos, sua materialização enquanto objeto artístico e passível de apreciação, reflexão e questionamento, se dava (e ainda se dá) predominantemente sob a forma de publicação em livros. Esta é, ainda, a principal maneira pela qual a produção poética contemporânea circula, colocando muitas vezes por terra a possibilidade de uma atuação mais íntima do poeta com sua obra e, tão importante quanto   com seu leitor.

 

Em neonão, a busca por uma relação mais orgânica, mais visceral de se fazer e se apresentar poesia pareceu nortear os autores e pode ser considerada ponto-chave a um melhor entendimento dessa chamada “poesia biossonora”. De acordo com as palavras do próprio Sezostre:

Partimos do pressuposto de que a poesia é o sopro-energia, eco-vibração, eco-ondulação e sinergia-radiação. Com ela, é possível imaginar uma civilização em estado de poiesis (arte da poesia), uma civilização de hiperidiomas que ultrapasse o poema como objeto. O objeto de arte como fenômeno da vida, onde a existência foi realizada em sua metamorfose, podendo viver, existir e fazer. Portanto, coexistindo no mesmo corpo e no mesmo espírito. Poesia Biossonora é pulsação, arte primeira, ritmia sendo a essência dos sentidos, a palavra e o murmúrio primitivo, imaginários de ruptura em estado de liberdade. (SEZOSTRE, 2010)

 

Uma vez que a existência dos tais poemas enquanto registro sonoro, no CD, só pôde ser levada a termo mediante a atuação, a intervenção (humana, logo biológica), de seus  criadores, de seus intérpretes, pode ser concluído que “poesia biossonora” é uma poética que se faz possível, num primeiro momento, através dos sons produzidos, frutos das articulações entre a fala, o ritmo e a melodia, encerrados em cada um dos poemas.

 

Djami e Francesco propõem em neonão uma poética “biossonora” que tenha a capacidade de mudar, de alterar o espaço em que é executada, enquanto é executada. Ainda de acordo com Djami Sezostre, seguindo

(...) o filósofo e poeta americano, Hakin Bey e suas zonas autônomas temporárias, propomos a criação de uma poética que tenha conceito e liberdade. Zonas de atuação artística que se dissolvem antes que o sistema as reprima ou as incorpore. “NEONÃO” é uma recusa da arte que é banalogia. É a busca pelo grau de negação que está além do pensamento. (SEZOSTRE, 2010)

 

 À “poesia biossonora”, pelo que foi visto até aqui, cabe uma maneira, um modo de agir em que poesia e vida são indissociáveis. E tudo isso deve convergir, junto às melodias, produzidas também por recursos “não-orgânicos” (instrumentos musicais) em direção a uma tentativa de elevar a musicalidade, o som da  fala humana ao status de poesia. Poesia que, pasmem, pode existir, resistir, independente dos significantes e significados fixos que este ou aquele idioma oferece e, por vezes, necessita. A poesia em neonão sugere outra abordagem ante as velhas e mesmas codificações lineares possíveis em relação à palavra poética. Codificações que já foram questionadas e superadas, há muito, pelo dadaísmo, surrealismo, etc.

 

É um erro considerar as 17 faixas do CD como simples poemas musicados. Ao contrário, cada um dos poemas interpretados por Djami e Francesco, a maioria deles pinçada de livros anteriores do primeiro, ganha muito em força e expressividade com a ajuda preciosa dos arranjos musicais instigantes, cheios de efeitos, paridos das cordas, dos dedos e da sensibilidade do guitarrista Francesco Napoli.

 

Nesse sentido, é quase impossível escutar neonão  e não recordar o já clássico Poesia é risco, de Augusto e Cid Campos, precursores, na seara poética tupiniquim,  no que tange a questão da associação da palavra poética falada a outros elementos musicais (orgânicos ou não) e visuais executados ao vivo, simultaneamente.

 

Conforme visto, a construção dos poemas por parte de Djami e Napoli em neonão não é mero fruto do acaso, não foi concebida a partir do nada. Há referências. Podem ser percebidos não apenas ecos, alusões ou referências, mas influências nítidas da chamada “poesia sonora”, definida assim por Philadelpho Menezes:

Poesia sonora pode ter várias definições e manifestações. Mas alguns pontos são comuns em qualquer de suas vertentes. Primeiramente, ela é um tipo de poesia oral, mas associado a uma característica especial: ela é essencialmente experimental. Isso significa que a poesia sonora se distancia claramente da poesia declamada. (MENEZES)

 

Um dos pontos citados anteriormente, a oralidade, é um dos pilares da poesia arquitetada em neonão. As performances vocais e instrumentais, respectivamente de Sezostre e de Napoli, são imprescindíveis à compreensão de cada poema em particular. É claro que alguns deles fariam sentido se apenas lidos silenciosamente, uma vez que foram compostos inicialmente não para a declamação ou para a performance, mas para a leitura. É o caso de “réquiem” (“meu chão / é o gado pastando / na margem do rio paranaíba […] oh chão da minha vida”), “saudade dada” (“e há nevoentos desencantos / dos encantos dos pensamentos”) e  “outono” ( “tudo limbo / ou outono / outra vez”).

 

Outros, como “EE TU MAO”, “caracter” e “x”, só fazem sentido quando interpretados à luz dos arranjos feitos. A performance dos poetas, atuando como  “cavalos do verbo” (termo cunhado pelo poeta Marcelo Sahea), é fio condutor de uma poética que quer se situar para além das limitações que os idiomas naturalmente possuem e impõem aos seus falantes quanto às suas possibilidades de interpretação artística e textual.

 

Em neonão, o expectadoré constantemente provocado a sair da clássica posição de “leitor confortavelmente entrincheirado atrás de suas mesas e cadeiras”, para construir, também a partir de suas próprias leituras, através de suas próprias referências, de suas vivências particulares, a percepção de que existe uma poética que não se traduz apenas por palavras de dado idioma, que independe de interpretações objetivas ou cartesianas do discurso linguístico que um poema poderia ou, segundo alguns, deveria encerrar.

 

A “poesia sonora”, embora há muito não seja exatamente uma novidade, tem suas raízes, ainda conforme Philadelpho Menezes, fixadas na “poesia fonética das vanguardas futuristas e dadaístas do início do século.” (MENEZES)

 

Mas não são apenas alguns ecos das vanguardas do início do século passado que podem ser percebidos em neonão. É fragrante sua aproximação, seu diálogo, com outros trabalhos de “poesia sonora” que tiveram, entre seus criadores e representantes mais significativos, nomes como Kurt Schwitters e Jaap Blonk. Aqui no Brasil, atualmente, vale destacar neste sentido os trabalhos de Márcio-André, Marcelo Sahea, Ricardo Aleixo, entre outros.

 

A primeira faixa de neonão, EE TU MAO, demonstra o tom que permeia grande parte do trabalho: o esvaziamento do sentido semântico da palavra, uma desconstrução do léxico até sua transformação em pequenas unidades fonéticas fraturadas, fragmentadas. Tudo complementado pela melodia e pelo ritmo que, juntos, reconstroem significados alinhavados junto às palavras, então despidas de sua habitual carga de plurissignificações previamente codificadas.

 

A faixa-poema “caracter”, cujo ritmo lembra o barulho cadenciado das linhas de montagem, deixa nas entrelinhas uma crítica não exatamente à pop-art em si, mas à pasteurização que foram submetidos certos segmentos da arte pós-moderna.

 

Outra faixa-poema, “atlas”, com um arranjo que parece misturar Bach e berimbau, nos atenta para o caráter de intertextualidade presente em neonão. Intertextualidade que é levada a termo na medida em que tanto os elementos humanos, orgânicos, junto aos elementos eletrônicos, tecnológicos, dialogam entre si o tempo todo, construindo a si mesmo e ao outro, numa relação simbiótica. É o discurso poético agindo sobre a melodia da voz e do instrumento e vice-versa. Interação intertextual instantânea.

 

A coloquialidade, assim como na poesia contemporânea de maneira geral, está presente em  neonão. Mas, neste último, a coloquialidade não se faz presente apenas pelo uso de expressões tomadas ao léxico diário, cotidiano, e sim a alusão a situações que constroem o lócus de alguns poemas, como em “réquiem” ou “céu dos olhos”. Silviano Santigo, a propósito da coloquialidade em relação a literatura produzida no Brasil a partir de 1964 escreveu: “[...] prefere se insinuar como rachaduras em concreto, com voz baixa e divertida, em tom menor e coloquial” (SANTIAGO, 2002).

 

Conforme já mencionado, a poética de neonão, do ponto de vista de execução, não traz nenhuma novidade que já não tenha sido devidamente investigada pelos movimentos de vanguarda. Todavia, tanto nos primórdios do “dada” como no contexto pós-moderno artístico atual, essa “poesia sonora”, ou conforme a própria definição de Djami Sezostre e Francesco Napoli, “poesia biossonora”, para fazer sentido enquanto manifestação artística, literária, necessita de algo mais que o suporte oferecido pelos livros. À “poesia sonora” ou “biossonora” é necessário o elemento humano funcionando nem sempre como ser vivo racional, mas como um canal, uma via capaz de gerar sonoridade e sentido através da melodia dos instrumentos e do próprio idioma, na voz do intérprete. Além do mais, uma mera junção dos elementos acima enumerados, por si só, não poderia validar tal tarefa como artística ou poética.

 

Ao ler os poemas no encarte e escutar o CD, ou ter a oportunidade de presenciar a performance da dupla ao vivo, fica a certeza de que a  interpretação, a performance do trabalho é um dos pilares da “poesia biossonora”. E tal performance só faz sentido, plenamente, quando executada ao vivo, para um coletivo de pessoas. Nisso, o conjunto de poemas em neonão perde para uma performance ao vivo dos mesmos poemas. Não há dúvida de que o registro em CD é válido, mas se a proposta é fazer “poesia biossonora”,  nada mais coerente que essa poética só possa ser apreciada em sua plenitude quando presenciada ao vivo.

 

Na faixa “iiii” (sim, é esse o título do poema!) que soa como um híbrido de mantra hindu e guitarras pós-punk-pinkfloydianas fantasmagóricas, há quase uma relação de simbiose entre os elementos do poema, em que cada uma das partes só sobrevive, só faz sentido, junto às outras. Ocidente e oriente entrelaçados. Tal simbiose fica ainda mais evidente e apreciável em “outono”, que traz uma melodia que também evoca ares orientais.

 

“Anu”, aqui presente sob a forma de um excerto do longo poema de Sezostre, ganha ritmo e melodia hipnóticos. A poesia de neonão, para melhor ser apreciada, requer, exige a presença, enquanto performers, de seus criadores para ser apreciada plenamente.

 

O flerte com a etnopoesia, visível em alguns dos trabalhos de Djami Sezostre plasmados no CD, também dá as caras em neonão atravésdo “poemeto ecológico para a amazônia”, referência, reverência, homenagem aos índios, sistematicamente erradicados desde a chegada dos colonizadores portugueses em terras brasileiras, e a “chico mendes”, mártir da causa da floresta amazônica.

 

Enfim, pode ser dito que neonão, de Djami Sezostre e Francesco Napoli representa um passo interessante em busca de uma poesia, de um pensar e fazer poéticos que não se prendam exclusivamente aos limites impostos pelo branco da página, mas que consigam construir significados independentemente do sistema léxico em que são executados. É uma caminhada rumo a essência da poesia, forma de arte intrínseca à humanidade.

 

Referências bibliográficas

MENEZES, Philadelpho. Máquina futurista. Disponível em: <http://www.elsonfroes.com.br/psonora.htm > Acesso em 17 jan. 2010

NAPOLI, Francesco; SEZOSTRE, Djami. Neonão: poesia biossonora. Belo Horizonte: Serrassônica design de som, 2010.

SAHEA, Marcelo. Leve. Brasília: edição do autor, 2006.

SANTIAGO, Silviano. Poder e alegria. In: Nas malhas da letra. 2. ed. Rio de Janeiro:
Editora Rocco, 2002. 

SEZOSTRE, Djami. Release. Disponível em:< http://serescoletivos.com/2010/08/11/noticias-do-www-twitter-comsempreumpapo-3/> Acesso em 17 jan. 2010

 

 

 

 

LEONARDO MORAIS: Professor de línguas e literatura. Mestre em Estudos de Linguagens (CEFET-MG). Estudioso da obra do poeta Roberto Piva e das Edições Massao Ohno. Publicou as obras poéticas Colecionando Fraturas (Editora Patuá, 2017) e Mousse de Napalm (Editora Scriptum, 2019). Vive algures em Belo Horizonte. Contato: leodemorais@gmail.com.

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