ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Lia Sena


depois o Amor, um romance, lançamento    

CULTURA: LANÇAMENTOS

 

Lançamento brasileiro
Myrian Naves, pelo Conselho Editorial

 

depois O AMOR

 

Revista Ser MulherArte publica novo romance da escritora brasileira Lia Sena

 

 

depois O AMOR Lançamento de Lia Sena

 

Um acontecimento bastante dramático, norteia toda a trama de depois o Amor. A autora imprime uma dose de suspense desde o início e a não linearidade dos fatos, exige uma atenção maior de leitoras e leitores.

Propositalmente, o livro não apresenta grandes ou meticulosas descrições, nem dos lugares, nem das personagens. o leitor vai descobrindo aos poucos e surpreendendo-se também com isso, ao passo que a história vai sendo contada.

Personagens vão surgindo de forma bem natural, numa tessitura muito bem amarrada que resultará num resultado coerente e verossímil.

depois o Amor, toca sutilmente em várias mazelas e preconceitos, sem nenhuma tentativa de falar didaticamente sobre essas questões ou utilizar um tom de militância, mas deixa um recado que pode levar a alguma reflexão.

No mais, depois o Amor é entretenimento, prazer de leitura e descobertas.

Um livro que não permite "spoiler".

 

Um trecho do prefácio da poeta Agueda Magalhães:

 

"Lia Sena estreia no romance com a mesma verve, domínio e maestria presentes em todos os gêneros que frequenta. Dona de uma prosa vigorosa, consegue construir, através de pinceladas vibrantes, um quadro de matizes variados com tipos do cotidiano. Contempla, assim, sem pretensões didáticas e com extrema naturalidade, temas que abordam desde o racismo até o feminicídio - barbárie que atinge, em nossos dias, estatísticas alarmantes. A elegante construção do texto tece cortes na narrativa através de capítulos que não obedecem à linearidade cronológica, mas estão absolutamente conectados na tessitura do enredo, assegurando a perfeita coesão da história. O suspense, colocado logo no início, consegue envolver o leitor e manter a sua atenção até o final do romance. Essa obra, vai além das meras narrativas, exibe um dos leitmotiv da temática da autora: denunciar, os flagelos sociais, sobretudo, a violência contumaz e cotidiana, contra a mulher, quase sempre passiva, silenciosa."

 

depois o Amor
Excerto do romance

 

Lia Sena

 

Capítulo I

 

Nem que eu viva mais de cem anos vou conseguir esquecer. Ficou tudo aqui, moço, colado na minha mente, nos meus olhos, nas minhas entranhas. A gente vai superando, tentando voltar à vida, se ocupa com outras coisas. É verdade que a família me ajudou demais.
Me pagou tratamento. Paga até hoje. Me deu emprego e me botou pra estudar. Fiz faculdade e mudei de vida. Passei por muitos médicos. Faço terapia até hoje. Tudo financiado pela família. Melhorei muito. Estudei, trabalhei e ainda trabalho, casei, tive filho. De vez em quando meu marido me acorda. Tenho pesadelos e grito. Acordo suada, chorando. Meu marido é muito calmo. Me abraça, espera passar. Crio o meu filho com um amor danado. Nunca deixei que ele percebesse minhas crises. O pai me dá muito suporte, mas essa dor, de vez em quando volta. Virei uma espécie de apêndice dessa família.

Nossos destinos ligados de um jeito trágico e irremediável. Mas tenho também muita gratidão e afeto por essas pessoas e sei que elas também por mim.

Talvez esse meu desespero silencioso não acabe, porque há uma peça nesse quebra-cabeça, que nunca se encaixou. O silêncio dela. A negação. Esse monstrinho germinando que cresce mas não vinga.
Esse silêncio e essa visão que se repete, grudadas na minha alma feito visgo. Esse silêncio.

Soluços entre lágrimas, interrompem a fala daquela mulher. Uma fala que pra ela é mais um desabafo. Para o rapaz que a ouve, cada declaração é absorvida com a ânsia de saber mais. Ela levanta e vai até a cozinha beber um pouco de água. O rapaz desespera-se intimamente. Não quer ir embora em meio a essa conversa carregada de um suspense que não revela nada, mas teme pelo bem estar daquela mulher. Pensa em lhe dizer que por hoje não precisa falar mais nada. Que ela deve descansar. Mal consegue disfarçar a alegria quando ela, resoluta, volta à sala e diz pra ele:
- Não se preocupe, agora vou até o fim.
                                       

 

O recém-lançado romance ‘depois O AMOR’, de Lia Sena

 

Chris Herrmann

No dia 9 de junho, ou seja, há dez dias foi lançado o primeiro romance da escritora baiana Lia Sena, depois O AMOR, em um evento virtual no Facebook. O livro digital leva o nosso selo, da Ser MulherArte Editorial, e em tão poucos dias já podemos dizer que é sucesso de público que teve acesso à leitura.

Tive o imenso privilégio de ser uma das primeiras amigas a ler seus originais, até porque tive o segundo privilégio de editá-lo pelo novo selo da revista. Como outras amigas de Lia, eu também não pensei que fosse lê-lo em um só fôlego. Mas quem disse que conseguimos parar depois de ter começado? Ah, essa é uma tarefa difícil, visto que tanto a história do livro, quanto a sua narrativa, são tão instigantes e magnéticas a cada página, que não resistimos.
 
Esta obra não é apenas bem escrita e narrada. Ela também possui uma profunda e bela mensagem às mulheres que sofrem abuso em uma sociedade patriarcal e que, por medo ou até ignorância dos próprios familiares em não saber lidar com os fatos, fazem com que a vítima se cale, carregando absurdamente um sentimento de culpa e culminando no aumento do trauma sofrido. Não que isso seja uma novidade em nossa sociedade e no mundo inteiro, mas a extrema sensibilidade com que a história é contada, faz com que essa reflexão exponha esse grito urgente e abafado.

É preciso que se denuncie, que se grite alto e que não se negue mais o feminicídio no Brasil. Uma sociedade moderna e democrática não pode ignorá-lo. E é sobre este assunto delicado que Lia trata com maestria no romance. Ela conta a história de uma menina que durante muitos anos calou-se e como esse trauma travou sua vida, sem que nem ela mesma tivesse a noção da real dimensão do estrago que isso lhe causou.

Em cada capítulo de ‘depois O AMOR’, há mistério, reflexão e emoção.  Quem leu, sabe disso. Quem ainda não leu, vai amar. Uma leitura imperdível e mais do que recomendada!

 

LANÇAMENTO:
DEPOIS O AMOR – Lia Sena, 2020
Romance Brasileiro
marialiasena@gmail.com
Ser MulherArte - Revista Feminina de Arte Contemporânea
www.sermulherarte.com

 

 

Lia Sena, escritora brasileira, baiana, e desde a mais tenra idade se descobriu poeta. Em 1988, lança o seu primeiro livro de poesia, "Pedaços" (Editora Interbahia). em 2013, retorna à cena literária com o segundo livro, "Por Todo Risco", uma produção independente. Em 2014, "Lume dos Anseios" (Edições Mac - Coleção vinho e poesia). Participou de várias Antologias, sendo inclusive, uma das organizadoras da Antologia, "Outras Carolinas - Mulherio da Bahia" Editora Penalux/2017), em 2017, participou do II Prêmio Sosígenes Costa de Poesia, ficando com a Menção Honrosa e o segundo lugar. Em 2018 foi a vencedora da terceira edição desse mesmo prêmio com o livro, "Na Veia da Palavra" que se encontra em processo de edição pela Editus. Também em 2018, "De foro íntimo" (Editora Penalux). Eventualmente escreve contos e crônicas; é autora de algumas canções e nesse ano de 2020, decidiu escrever esse, que é o seu primeiro Romance, "depois o Amor", publicando-o em formato digital, diante dos tempos de pandemia que vivemos. Um trabalho realizado pela editora Chris Herrmann através da Revista Ser MulherArte.

Participante ativa do Coletivo feminista Mulherio das Letras, desde o seu início, Lia Sena é também Articuladora do Mulherio das Letras da Bahia, um dos núcleos do Mulherio Nacional. Publica em diversas revistas eletrônicas, como Mallarmargens, Ruído Manifesto, Amaité, Escrita Droide e atualmente, exerce a função de editora adjunta da Revista Ser MulherArte.

marialiasena@gmail.com

Instagram sena3249

Facebook https://www.facebook.com/lia.sena.7

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Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


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Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Julho de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alberto A. Arias ; Rolando Revagliatti, entr., Álvaro Alves de Faria, André Giusti, Antonio Manoel Bandeira Cardoso, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Clécio Branco, Danyel Guerra, Deusa d’África, Edimilson De Almeida Pereira, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Godofredo de Oliveira Neto; Maria Eugênia Boaventura, Myrian Naves, Hélder Simbad, João Rasteiro, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Morais, Lia Sena, Luciana Siebert, Ludwig Saavedra, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas ; trad. Sayanbha Das, Myrian Naves, Myrian Naves, Heitor Schmidt, André Nigri e Sérgio Sant’Anna, Nagat Ali, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Waldo Contreras López


Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


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