ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Silas Correa Leite


FILOSOSILAS – ÁREA 11, SUTRA 55    

(Silas e suas “siladas”) (In, do “Livro de Silas”, em formação)

“Quando a minha poesia, não fizer mais nenhum sentido//Terei feito a minha melhor e mais pura Poesia”  -   (SCL)

(1)

Como querer que a minha estrambólica LITERATURA tenha sentido, se viver não faz sentido, a própria existência não tem nenhuma lógica e não faz nenhum sentido?

(2)

Como forçar que meus personagens loucos tenham um eixo psicológico presumido, se o parco ser humano na sua reles existência finita é paradoxal, contraditório e de fundo falso?

(3)

Como querer final feliz nas minhas historietas, causos e romances, nas minhas ficções destrambelhadas e nos meus poemas tristes, se na vida real o triste final feliz é que todos morrem?

(4)

Como querer nexo causal com começo, meio e fim no que se escreve nesses tempos tenebrosos, se contradizer tudo isso é mesmo o que terrivelmente funda a levedura da própria literatura contemporânea propriamente dita encorpada, com um pós-modernismo disparado e beligerante assim também por isso mesmo bem contemporâneo e um liquidificador de arames?

(5)

Porque, afinal, temos que aceitar e seguir bovinamente os conceitos blasés do tal currículo LATTES universo-otário, metodologias trololós pseudocientíficas ou coisa assim de residual acadêmico de carteirinha, se a própria meritocracia é um blefe, a lei de oferta e procura é um tampão mercantil de fraude fundada em máfias e quadrilhas de bastidores hediondos ao cubo, disformes do real transparente, e normas, regras, currículos, em tudo corrompido se espelha e retrata o inumano-decoreba, a proliferação de pomposos títulos falso-felizes, ou mesmo seguem mantras pequeno-burgueses de PHDeuses de nadas e ninguéns entre achismos, mesmices, ensaios e estatísticas de ordem unida charlatã, entre caixinhas de quadrados órfãos de realidades emergentes com grifes espúrias?

(6)

Se a imaginação e a criatividade podem muito mais do que o rótulo, a regra-formol, o verniz e o próprio conhecimento, como posso pensar, sentir e criar “escrevivendo” sem “enloucrescer” naquilo que produzindo espremo bem partisan de minhas neuras, escuridões e muito além de territórios-limites que estupidamente predam primitivos humanismo de resultados e camuflam torpezas humanas, demasiado humanas?

(7)

Não compreendo o sofisma da morte, não compreendo, esse é o terrível defeito de fabricação do meu DNA e produto final exacerbado. “Se foi para destruir, porque que é que fez?”, cantou o Poeta Vinicius de Morais. Então escrevo, escrevo e escrevo... para não me morrer de alguma forma, para não me matar de alguma maneira, ainda assim e por isso mesmo também achando – a fuga! a fuga! a fuga! - que na morte estão todas as respostas...

(8)

“Firo porque Silas”. Escrevendo fermentações, disparidades e ilicitudes, irrazões, erratas, epifanias, troios perigritantes, desvairados inutensílios, porta-lapsos; poemas como bulbos transversos, ou mesmo irados textos brucutus, ou até poesias que solam pinos-de-granada, tento desesperadamente tocar a pele do indizível, sempre visando ferir as cerpas do inominável, delatar o irreal customizado, e assim de forma estranha que seja, afinal, tento dar testemunho de mim, e do que fiz de mim, depois de tudo o que essa amarga e terrível existencialização fez de mim...

(9)

Não escrevo para contrariar ou agradar ninguém, nem para parecer que sou o que não sou. Cada um que ao me ler assustado tente entender com seu quinhão de luz ou de trevas, de base ou de desvio de rota, de caco de espelho ou assento de privada no entendimento ou derrama de entendimento mal sustentado. Escrevo para me imantar, para me salvar de mim, para me proteger da vida a qual fui condenado ao nascer aqui sendo o que sou, se não sou daqui, e assim vazo meus monstros residuais e sótãos marcados. Mas não moro no que escrevo. Eu não suportaria.

(10)

Uma vida só é pouco, muito pouco. Como um exilio vim para isso aqui, estou aqui, mas não sou daqui, não me sinto qualquer coisa que o seja aqui e daqui agora, e, às vezes, mas só as vezes, me questiono, terrivelmente ilhado em uma bolha sustentável de mim, em mim, sobre o que é que estou fazendo aqui? Aliás, se eu soubesse que iria morrer (e que minha mãe iria morrer), eu nem queria ter nascido. Mas não vim a essa dobra inferior do espaço multipangalaxial para prevaricar, para ser derrotado sem luta, para escoicear sem quebrar ritos e sombras, nem para ser corrupto camuflado de conquistar tudo fácil, e assim acabar também um mero ovelho tosquiado no covil de salteadores, cheio de achismos, mesmices, com as mãos leves, com os viciados olhos vadios, mais vazios conhecimentos tantãs, e tampouco me interessam posses e pompas ilícitas de falso tatus quo para parecer humanus entre pseudohumanus carnicentos e disformes, como muito bem cantou Shakespeare, por afinal sermos todos Hamlets.  Assim, resistindo, desesperadamente tento não perder para mim mesmo. Minha vida não é desse mundo. Pago meu preço, minha pena, minha galé espiritual? Uma vida inteirinha é pouco para se aprender esse inferno todo? Então, paradoxal, contraditório, esquisito que o seja, escrevo, escrevo, escrevo... feito um louco desvairado, registro feito um escriba condenado, dando assim testemunho de meu tempo tenebroso, me entregando inconformado com a sociedade pústula, mais o câncer do lucro a qualquer custo, o pobre e rastejante sobrevivente humano como um escravo parvo de poses puxando a carroça da mediocridade, a parir bezerros de ouro, entre a escória e o lodo em que ela se sustém, também sendo por fim parte infame desse lixo que é a naveterra, o aterro sanitário no espaço, dando nesse feudo sobrevivencial de muito ouro e pouco pão, de muito rótulo e pouco conteúdo.

E fica o dito pelo não dito.

E quem quiser que produza seus próprios monstros.

-0-

(“Memórias do Subsolo de Me Ser”, Parte Um. Apontamentos para rascunhos de um ensaio de abril parindo moscas mortas)

 

Silas Corrêa Leite, Poeta, ficcionista, blogueiro premiado
Autor entre outros de GUTE GUTE, BARRIGA EXPERIMENTAL DE REPERTÓRIO, Editora Autografia, 2016, RJ
E-mail: poesilas@terra.com.br

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Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


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