ANO 9 Edição 94 - Julho 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: O grande mentiroso    

Quem é familiarizado com a literatura infantil e gosta de fábulas, talvez conheça a história do Pastorzinho e o Lobo. Conta-se que um pastor diariamente levava seu rebanho para o alto do monte vizinho a uma comunidade, em busca de pasto. Sentia-se enfadado e muito só naquele trabalho. Um dia teve a ideia de mudar a situação. Em determinado momento gritou:
- Socorro, um lobo!

O pessoal da aldeia ouvindo acudiu correndo. Logo perceberam a armação, e muitos voltaram desapontados para casa. Mas o plano não falhou totalmente. Alguns homens ficaram por ali, pois acreditaram que o animal poderia voltar. Teve, então, a companhia desejada. Às vezes, quando a solidão apertava, repetia o expediente. Certa vez, de fato, um lobo apareceu. O pastor gritou forte, chamou os aldeões, mas ninguém veio. O lobo pode fartar-se, muitas ovelhas morreram. Voltando à aldeia e queixando-se do ocorrido, ouviu de um sábio: “Na boca de um mentiroso, o certo é duvidoso”.

Há um ditado popular no qual se afirma: “A mentira tem pernas curtas”. Com isso as pessoas desejam passar a ideia relativa ao caminho percorrido pela inverdade. Ela não teria condições de ir muito longe, os passos encurtados não permitiriam um alcance longo. E nem prolongado. As falsidades durariam pouco tempo, seriam rapidamente descobertas. E quanto mais o sujeito mente, menos credibilidade ele tem, mesmo as verdades acabam provocando desconfiança.

O problema citado tornou-se questão de Estado no Brasil, já que o maior mandatário da nação, exatamente como o pastorzinho, tornou-se um vivente não crível. E embora finja completamente, nada tem de poeta. Usa o engodo de forma contumaz, sem a menor responsabilidade, visando atingir objetivos espúrios, muitas vezes cruéis, apenas para conseguir, via adulteração da veracidade, obter seus objetivos.

A questão é séria. Torna-se quase impossível conduzir uma nação quando o presidente perde a confiança dos cidadãos. Embora ainda existam alguns poucos partidários capazes de crer na autenticidade de suas palavras, até por ser mesmo muito mais uma questão de fé doentia, do que de sabedoria, a maioria, exatamente como os habitantes da pequena aldeia de nossa fábula, já ignora as afirmações feitas pelo chefe do governo, muitos fazem piada, riem, divertem-se com o pouco caso do governante com aquilo digno de fé. A reação deveria ser diferente. Embora sejamos um povo bem-humorado e alegre, não deveríamos admitir um mentiroso nos comandando.
 
Recentemente ele se colocou como portador do Covid-19. Mais uma de suas artimanhas. Quando realmente teve omitiu a doença, escondeu os exames, alegou o direito de não revelar um problema de saúde seu, seria um resultado de foro íntimo. Agora, justamente às vésperas de prestar um depoimento na justiça federal, resolveu assumir-se contaminado. Assim, adiou a audiência, pousou de garoto propaganda da cloroquina, medicamento comprovadamente ineficaz e perigoso, mas que foi comprado em quantidade e agora está encalhado, desviou a atenção sobre os problemas relativos aos seus filhos, todos comprometidos até o pescoço com ilegalidades.

E assim caminha nossa humanidade local. Sujeita aos desmandos de um indivíduo pernicioso, incapaz de levar o eleitorado em uma direção aceitável, precário, tosco, sem a menor capacidade humanística. Diariamente ouvimos o nosso pastor pedir socorro, mas quase ninguém acredita. Já não existe certo, apenas o duvidoso.

Julho/2020

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Julho de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Julho de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alberto A. Arias ; Rolando Revagliatti, entr., Álvaro Alves de Faria, André Giusti, Antonio Manoel Bandeira Cardoso, Antônio Torres, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Clécio Branco, Danyel Guerra, Deusa d’África, Edimilson De Almeida Pereira, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Godofredo de Oliveira Neto; Maria Eugênia Boaventura, Myrian Naves, Hélder Simbad, João Rasteiro, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Morais, Lia Sena, Luciana Siebert, Ludwig Saavedra, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas ; trad. Sayanbha Das, Myrian Naves, Myrian Naves, Heitor Schmidt, André Nigri e Sérgio Sant’Anna, Nagat Ali, Nilo da Silva Lima, Ricardo Ramos Filho, Silas Correa Leite, Waldo Contreras López


Foto de capa:

HENRI MATISSE, 'Le desserte, Harmonie rouge', 1908.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR