ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Bruno Brum


Noventa e nove blefes    

1

 

 

Uma estratégia para se escrever um poema que, ocasio- nalmente, pode ser considerada é a que se baseia em imagens mais ou menos abstratas.

 

Digo mais ou menos porque não pretendo, neste breve relato, levantar discussões desnecessárias nem esgotar um assunto tão vasto e controverso.

 

E porque, como já foi largamente demonstrado pela ex- periência, não há razões para se classificar esse ou aquele corte como sendo concreto/abstrato: a ampliação abrupta à qual são submetidos assemelha-os a eventos isolados no tempo e no espaço, amparados apenas por conceitos e formulações estranhos à sua natureza.

 

Paralelamente ao uso das imagens, é possível que se faça uso de técnicas e recursos de outras linguagens artísticas, tais como a música, a pintura, a dança.
 

 

As técnicas de montagem presentes no cinema, por exemplo, com suas combinações ideogrâmicas de ele- mentos visuais e sonoros, são capazes de produzir efeitos de grande interesse para a linguagem poética.

 

Assim, registram-se coisas diversas: pessoas caminhando, automóveis esparramando poças de lama, manchas de edifícios passando rapidamente – o que se queira e o que se tenha à mão.

 

O autor presenciou recentemente uma das mais es- tranhas técnicas de filmagem. Foram filmados apenas fotogramas isolados. Cada fotograma, ou por vezes alguns fotogramas, focava apenas um objeto diferente. O filme era breve, talvez vinte ou trinta segundos, mas foi uma das mais extraordinárias experiências vividas pelo autor.

 

Visto e meditado, não seria tão estranho; mas, antes, inte- ressantíssimo e excitante.

 

É preciso frisar que os acontecimentos não se conservam imóveis. É praticamente impossível mantê-los no mesmo
 
lugar o tempo suficiente para fazer qualquer registro com a duração desejada. Mas o corte entre os planos ajuda a produzir continuidade na sequência a que não seja possí- vel dar duração suficiente.

 

A experiência foi registrada para que se pudesse usá-la em momento oportuno. Ao final de certo tempo, o autor concluiu que o momento não era oportuno, mas a expe- riência, sim.

 

 

 

 

 

 

2

 

 

Se parece consigo mesmo separado em pedaços.

 

 

Dentre os vertebrados, a faca é o único que possui duas vidas: uma em cada extremidade.

 

Atravesso a rua. A rua me atravessa.

 

 

Falamos as mesmas coisas de maneiras diferentes – so- mos praticamente a mesma pessoa quando acordamos, nunca quando dormimos –, se é que falamos de manei- ras diferentes.
 

 

Sobras do lugar onde resíduo.

 

 

Nu, entre os estranhos.

 

 

Quantos zeros eram?

 

 

Borboletas & Scanias.

 

 

O coração dispara como um rifle.

 

 

A morte não vai a lugar algum.

 

 

Há muito tempo não digo uma palavra./ Há muito tempo não ando pela rua./ Há muito tempo não sei mais o meu nome./ Há muito tempo deixei de respirar./ Minha cabeça agora boia/ numa panela de feijão.

 

Finesse & delitos light.

 

 

Tudo conta ponto contra.
 

 

Cuspo duas vezes no chão e já não estou só.

 

 

Entre outros truques e troças de salão, grasnam e sacole- jam os bundalhões fofos.

 

Junkies em horário de pico.

 

 

Milagres sob encomenda.

 

 

Um lirismo contido. Uma comoção sem concessões. O princípio da economia. A tragicidade seca e realística. O cálculo preciso dos efeitos. A superposição planejada de estilhaços. Poetas de todo o mundo: puni-vos.

 

Deserto de estimação.

 

 

Pássaros trincam. Carneiros explodem.

 

 

Todo mundo atrasado/ pra uma festa que nunca/ vai acontecer.
 

 

Dinossauro de louça.

 

 

Fezes, no plural.

 

 

Anestesistas & açougueiros.

 

 

Samba-canção no banheiro químico.

 

 

Uma velha geladeira consola três garrafas vazias.

 

 

Todos dormem./ Chaminés expelem/ o seu pólen.

 

 

Arara cult.

 

 

Lombrigas & colibris.

 

 

Doar os órgãos. Vender a alma.

 

 

Um grande poeta inglês do século passado retrasado.
 

 

Comete-te a ti mesmo.

 

 

Submonstro.

 

 

Barata oficial.

 

 

Consultar as horas ao dicionário.

 

 

Um anjo porco, desses que vivem de sobras.

 

 

O exílio mora ao lado.

 

 

Roupas enforcadas no varal.

 

 

Sonoridade. Rinoceronte.

 

 

A água, de longe, azul.

 

 

O azul, de perto, azul desperto.
 

 

Equipamentos de última geração calculam a área útil do inferno.

 

Noite ácida. Chuvas a fio.

 

 

Cobra pompom.

 

 

Esquifes decorativos.

 

 

Ilha brilha. Ir abri-la.

 

 

HIV FM.

 

 

Cidades inéditas.

 

 

Signos em cativeiro.

 

 

Orla. Casas correndo. Pequenos intervalos entre. Um susto branco.
 

 

Universo retroativo.

 

 

Não se sabe o que se sabe, soube. Não se sabe o que se sabe sobre.

 

A questão do riso em Zacarias: uma análise fenomenológica.

 

 

Ao redor, roedores.

 

 

Alguém desvela seus sonhos: não ouço palavras, apenas o ruído constante do sono enquanto a cidade desperta com o afago do tráfego.

 

Um buraco com um abismo dentro.

 

 

Domingo de sol. Crianças e sorvetes derretendo.

 

 

Durante muitos anos/ o meu maior sonho/ era comer a bunda/ da Mara Maravilha.// O tempo passou/ e acabei não comendo a bunda/ da Mara Maravilha.
 

 

Fadas? Pernilongos.

 

 

Ando pela cidade/ fingindo estar apressado/ para que não percebam/ que vou a lugar nenhum.

 

Bambis & zumbis.

 

 

Do lado de lá pra quem olha de lá.

 

 

O herói não tem cara de melhores amigos. Talvez não esteja mesmo contente ou considere sorrisos em foto- grafias algo um pouco forçado, meio propaganda de cre- me dental. Ou seja, de quem acha que os dentes servem apenas para sorrir.

 

As árvores sujas do Centro.

 

 

Nuvens cobiçam o azul e se dispersam.

 

 

Siga aquele mosh!
 

 

Conforme imaginamos, não era nada do que imaginávamos.

 

 

Aqui. Sob o céu de abril. Produzindo lixo. Engordando.

 

 

O mundo dá muitas voltas. Não consegue ir direto ao assunto.

 

Os desastres são sempre os últimos a saber.

 

 

Diz que já não há mais nada que se possa ver ou tocar. Diz que já não há mais rumos, rotas ou colisões. Diz que na esquina alguém espera de mãos abanando.

 

Natureza-morta com bananas e granadas. Óleo sobre tela, 35 x 46 cm.

 

Ouço sempre as mesmas músicas, vejo sempre os mes- mos filmes: com o som bem baixo, como se dormissem.

 

Artigos para trapaceiros.
 

 

Troco o dia pela noite, a noite pelo dia e não peço di- ferença. Troco os passos e tropeço em meus próprios sapatos.

 

Aplausos dependurados no teto.

 

 

Cortar a boca fora. Engoli-la com os olhos.

 

 

Bruno Brum disse:
É por muito pouco que se escapa. É por muito pouco que se     é pego.

 

Ninguém precisa de poemas. Todo mundo precisa de chupeta.

 

Salientamos que os espectadores devem manter-se abai- xados, de forma a não interferir no trabalho dos fotógra- fos e cinegrafistas.

 

Mastigo e cuspo, uma a uma, as sementes. E em meu jardim florescerão serpentes.
 

 

O vizinho mala do 202 insiste em ouvir Djavan no do- mingo às nove da noite. O vizinho mala do 202 sou eu.

 

Coisas que não existem, por exemplo.

 

 

Endereços. Adereços.

 

 

Quinta-feira, 06/01/2011: hoje o caixa eletrônico me de- sejou um feliz aniversário.

 

O pensamento cessa. Transfixa uma ideia.

 

 

Não se cruza duas vezes a mesma porta.

 

 

Me viu e foi logo dizendo: Sou uma carta não lida, um bilhete perdido na chuva. Tentei encontrar algo que eu também pudesse ser. Um símbolo, uma imagem. Nada.

 

E eu, eu sou o demônio. Qualquer dúvida me liga.

 

 

Bruno Brum nasceu em Belo Horizonte, em 1981. É poeta e designer gráfico. Publicou os livros Mínima ideia (2004), Cada (2007), Mastodontes na sala de espera (2011, vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia, em 2010) e Tudo pronto para o fim do mundo (Editora 34, 2019). Vive em Monte Santo de Minas-MG.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Colaboradores de Junho de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Costa, Antônio Torres, Diego Mendes Sousa, Beatriz Aquino, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carmen Moreno, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Cláudio Daniel, Danyel Guerra, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Elisa Scarpa, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Hermínio Prates, José Manuel Simões, Julio Inverso, Leila Míccolis, Liliana Ponce ; Rolando Revagliatti, entrev., Luís Giffoni, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Ana Carol Diniz Hassui e Audemaro Taranto Goulart, Ricardo Ramos Filho, Tanussi Cardoso, Vitor Eduardo Simon


Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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