ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


O jogo da visibilidade e da invisibilidade da poiesis em Noite de Dioniso, de Alexandre Bonafim    

 

No livro de poemas Noite de Dioniso (Terra Redonda, 2019), Alexandre Bonafim explora a visibilidade do corpo a partir da invisibilidade dos múltiplos sentidos implícitos do texto. As palavras tecem a filigrana de Dioniso que ora esconde, ora revela os esconderijos do real, na concretude da carne aberta aos planos sedimentados pela poiesis. Assim como Sophia de Mello Breyner Andresen, sua musa inspiradora que exaltava a literatura clássica, há uma simbiose corpo/natureza, em que a noite é vista como momento propício à criação. Sophia tem vários poemas com a temática da noite, onde esta é revelada como inspiração do fazer poético. Kafka dizia que se não fossem as noites de insônia, não escreveria.

 

A noite, em Bonafim, imagem do despertar poético, tangencia os momentos da via dupla e ambígua da eroticidade, que não é comedida, mas impactante nos seus riscos de embriaguez dos sentidos. Vejamos o poema-título do livro, “Noite de Dioniso”, para contemplarmos sua beleza erotizante: “A taça já está/repleta de êxtase//No mundo fulge/uma noite/mais silenciosa/que o próprio mistério//Incendido/o rapaz fere-se/no delicado toque/da embriaguez”. Dioniso, como deus do vinho, levava ao desvario dos sentidos. O erotismo é esse abismo que submete o amante e o amado aos contornos do caos, onde matéria e espírito se sobrepõem no labirinto dos corpos em anoitecimento plural dos desregramentos. Nos versos do poeta estadunidense Longfellow, temos a caracterização da festa báquica, onde Baco era o símbolo do deslimite: “Da embriaguez se mostram presa, quando/Bem alto entoam versos delirantes.” E Bataille, o grande ensaísta francês, disse: “O sentido último do erotismo é a fusão, a supressão do limite”.

 

Mas é precisamente pelo corpo, este elemento da finitude e da morte, que Bonafim vai nos mostrar os véus da literariedade erótica que atinge a infinitude e o céu do inaudível. A noite só é plena em seu dia, a dinâmica do chiaroscuro convive na poesia de Alexandre para nos revelar as duplas faces paradoxais da existência, que é urdida pelo antagonismo do que é dionisíaco, com sua noite de desordem e caos, em que os seres não mais se diferenciam, no seu enigma artístico; do que é apolíneo, com sua organização clarificante, onde o indivíduo e a persona ganham força, o sol da razão. Há a síntese entre as vias abertas dos sentidos invisíveis e implícitos com a carnalidade transparente da matéria. Densidade e clareza são as duas forças antagônicas que encontramos na poesia excepcional e inventiva de Alexandre Bonafim.

 

No prefácio do livro, Claudio Daniel escreveu sobre a poesia deste poeta singular: “Dionsio é a deidade que rege os poemas reunidos no presente livro de Alexandre Bonafim, que concilia o furor sensualista com a geometria, a arquitetura do poema”. Podemos dizer que é através dos jogos entre corpos e sentidos, que a poesia deste escritor magistral se conjuga. No poema “Sorriso”, a luz do sol ilumina os perigos do erotismo, do corpo, que se apresentam na imagem dual do pássaro que acolhe e do escorpião que envenena. E a luz da boca é capaz de nos apresentá-lo como algo que nos chama à vida, mas também que nos aponta para o abismo das “pequenas mortes” em seus orgasmos flamejantes.

 

Dioniso como corpo desejante e delirante para o amante, torna-se a via perigosa da vida em sua fúria e sede de imortalidade. Esse deus como o acesso ao inconsciente, às forças caóticas e primordiais tem o apelo do sangue, representado pelo vinho, que é ao mesmo tempo, morte e vida, prazer e sofrimento. No Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, temos: “Na Grécia antiga, o vinho substituía o sangue de Dioniso e representava a bebida da imortalidade”. Dessa forma, na sua poesia de cunho homoerótico, em que o amante e o amado se banqueteiam numa festa orgástica, encontramos a tentativa do ser humano em atingir a plenitude da divindade a partir do esvaziamento dos orgasmos. Neste sentido, amante e amado se fundem e se tornam um só, como num rito dionisíaco, em que todos se igualavam.

 

As imagens na sua poesia, como o touro e outros animais, eram sacrificados no rito dionisíaco em que através do corte e da mutilação, tínhamos o despedaçamento, sparagmós. É constante na poesia de Alexandre os símbolos do açoite, dos ferimentos e do apunhalar, como significativas desta falta. A ausência é a contraparte da presença corporal. O culto a Dioniso revelava esta quebra dos tabus, a libertação. Era um deus catártico. Mas ao mesmo tempo, a dor estava escondida nesta purgação. Em “Jovem desnudo”, de Bonafim, vemos: “No mais secreto íntimo/do teu corpo respira/um touro decepado//Com ímpeto selvagem/esse animal apunhala/meu corpo/meus sonhos/os nomes todos/de minha agonia.” Também está presente na poética de Alexandre a metáfora do escalpelo. Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, assim falou sobre essa imagem: “Escalpelado: sensibilidade própria do sujeito amoroso, que o torna vulnerável, exposto na carne viva aos mais leves ferimentos”.

 

A dor é uma recorrência nos versos de Alexandre, que sabe conduzir com maestria este ser poético na carne do mundo. O ser e o mundo se conjugam num só corpo. Dioniso, o amado, é o objeto de admiração e desejo do amante, os dois se abraçam dolorosamente, num mesmo aspecto de sofrimento. Se temos um touro decepado, este apunhala o outro com ímpeto e delírio de um deus, que subjuga o amante num mesmo estágio que o amado. Assim, deus e humano se igualam pela eroticidade da chama das palavras, que são invisíveis aos olhos: “Morar em ti/como quem escalpela/a face contra espinhos”. Aqui, neste poema, a linguagem é entranhada nos gestos. Encontramos uma tessitura linguística da gestualidade, onde o corpo ganha forma vibrante.

 

Em “Rosto”, a cegueira é a invisibilidade de não ver, o rosto arcaico da poiesis, em que aquilo que eu não vejo, são os vazios gestuais da escrita: “Não há como fugir/dessa verdade frontal/estúpida:/fitar teus olhos/e desenhar em tuas pupilas/o ardor de um tigre cego”. Porque amor é desejo. Citando Santo Agostinho, Hannah Arendt disse, no seu livro O conceito de amor em Santo Agostinho: “Amar não é mais do que desejar (appetere) uma coisa por si mesma”. E indo um pouco mais longe: “Pois o amor é desejo (appetitus).” Desejar a coisa ausente é a coisa que não se vê, um “tigre cego”, que tateia o infinito e o invisível. A ausência é o apelo para o encontro dos corpos, eis o paradoxo. O corpo é a imagem de uma presença. No desejo de uma ausência que se esvai após essa presença, o deleite é plenamente satisfeito e, assim, completa-se o ardor pelo apelo das sensações e dos apetites. É forte na poesia de Bonafim a presença de imagens corporais e materiais, a natureza é outro espaço de seu dizer poético.

 

O abstrato e o concreto são outras combinações perfeitas em seus poemas, onde a linguagem e a imagem visual se casam a partir dos opostos do corpóreo e do incorpóreo: “o gesto antes da mão”, “o sorriso antes da boca” e o “branco antes da palavra”, como podemos vislumbrar em “Carícia”, uma belíssima poesia com toda a potência das contradições as quais o desejo nos submete. O desejo não se sacia totalmente. É sempre feito de incompletude, reunindo o pleno e o vazio, a interdição e a transgressão, uma “mordaça que esfacela”. O belo é transitório, e leva ao perecimento, mas a poesia é capaz de eternizá-la numa “flor esbelta”. Essa incompletude é descrita em: “Cântaro/que cheio/nunca se completa/que repleto/sempre se ausenta.”

 

Outra figuração presente em seus versos, é a ambiguidade entre violência e delicadeza. Da pluma suave se produz as mais agressivas imagens, nos paradoxos do erotismo: “Pupila dilatada pela/suavidade de um açoite/Beleza dos teus pés/esculpidos pelo pólen”. A coincidentia oppositorum da poética mistura as coisas mais díspares, revelando um virtuosismo barroco, em que a imagem traça a trajetória das analogias mais inebriantes. A sensibilidade e o intelecto são duas forças motrizes na poética de Bonafim, que sabe dosar os elementos mais distantes com grande perfeição, trabalho literário digno dos mestres. A poesia de Alexandre fere e toca suavemente.

 

Outra característica marcante, nos seus poemas, é a ausência de pontuação, como a revelar o fluxo vertiginoso das palavras, num rio célere dos pensamentos, que adquirem um equilíbrio pelas imagens originais e límpidas, mas que não deixam de trazer a densidade dos sentidos ocultos. No poema que abre o livro, encontramos: “Um corpo/despido até a ausência/capaz de purificar/o pensamento/concentrando-o/em maciça precisão/correnteza fixa/cortante delírio”. Assim, reunindo a “precisão” e o “delírio”, duas imagens paradoxais, sua poética se caracteriza em hibridizar polaridades, como a noite e o dia, a carne e o espírito, o dionisíaco e o apolíneo, o ferimento e o bálsamo, símbolos próprios da eroticidade, que amalgama sentidos os mais diversos em sua pluralidade inaugural e desdobrante, como numa biblioteca infinita borgeana. Ou para irromper no seu contrário, o vazio anti-borgeano, onde o infinito se cala e nos leva à morte e à finitude da vida: “Labirinto/que se aborta/em labirintos/para renascer/no puro nada”.

 

Nesse sentido, imortalidade e mortalidade são também as avenidas nas quais trafegam os delírios dionisíacos, que açoitam seus amantes num perigo de morte, mas os leva ao êxtase profundo da infinita chama do erotismo. Portanto, nesse livro brilhante e genial de Alexandre Bonafim, encontramos os jogos implícitos da leitura nos corpos erotizados do amante e do amado, em que a partir da visibilidade poética de uma presença corporal, a linguagem imaterial pode nos trazer os sentidos mais plenos e densos, cheios de energia e exatidão, não a da matemática, mas a dos versos sempre artísticos e completos em sua necessidade de comunicar, não de forma simples e, sim, pela profundidade e complexidade da literatura, mostrando o que se esconde e se revela na dupla face da poesia, em que a potência do claro-escuro se move com destreza.

 

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior à distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente “A serenidade do zero” (Penalux, 2017). Tem poemas traduzidos para vários idiomas.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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