ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Ana Maria Costa


Textos    

“Rainer Werner Fassbinder escreveu:

 

«É claro que uma pessoa apesar de tudo tem de se adaptar. Dê lá por onde der. Disso ninguém se safa. Atenção, adaptar-se não quer dizer pores-te logo a pensar de uma maneira diferente daquela que costumas pensar. Para te adaptares começas por reprimir os pensamentos. É como com os sonhos ou com os desejos, é possível a gente viver na sociedade, a sociedade até nos pode oferecer uma ou outra coisa. Tens é de saber ao que vais renunciar. Não se pode ter tudo, é óbvio. E se se pudesse também era demais, não era? No fundo, sabes, tu és responsável por tudo, se levantas a mão, és responsável por isso, ou quando falas, és responsável. És responsável por tudo.»

 

Da minha casa vejo as árvores com grandes galhos. Deles crescem folhas, umas, pequenas, outras, grandes. Todas as vezes que o sol lhes bate, avivam cores e a rua desce em sua direcção; as minhas janelas inclinam a sombra dos pássaros. Depois dos seus barulhos, tudo se parte em cacos e ferros no parapeito, a dois dedos da pouca terra que a floreira suporta, algumas flores, violetas e sardinheiras brancas, que atravessam a morte.

 

Nos limites das pedras a cidade escondia a idade, depois dos pássaros passarem e do ruído voltar a circular nas rotundas no início da rua, no início do desenho.

 

Quando era pequena achava que a minha língua era demasiado grande para me caber na boca, enquanto dormia. Todas as noites, antes de adormecer, media, com os dedos, a língua da minha irmã mais velha e, depois, a minha que, claro, era a mais curta, embora me parecesse o contrário! Como precaução, não fosse magoá-la, decidi que devia dormir com a língua fora da boca e, muitas vezes, acordava incomodada pela humidade da baba que caía para o queixo e, depois, para a almofada, molhando-a, por fim, antes de a secar. Com o passar do tempo a cola da baba na roupa incomoda a minha mãe que se farta de me ralhar; forçada pela minha mãe, aceito a ideia de que a minha língua tem o tamanho certo; só necessito de arranjá-la mais, isto é: curvá-la para caber toda dentro da boca ao lado dos dentes colada ao céu, depois da garganta, perto de ninguém e do desenho.

 

A seguir à língua foram as árvores e as suas folhas caídas, e as penas dos pássaros, que passaram antes do barulho, os cacos da morte das flores, o declínio do sol na rua e nas janelas; mais os monólogos a ficarem dentro da boca durante a noite. Ainda assim, mesmo a não sujar as roupas da cama. Não entendo porque que a minha mãe continua preocupada com o limite de coisa má que possa sujar o desenho; se o prendo com lábios lentos, a noite toda, para se ir adaptando ao interior da boca antes do amanhecer!?

 

Setembro de 2009

 

 

 

 

 

 

*-*

 

Nascido Tarde

 

Quando nasci tinha trinta e nove anos de idade. Poesia é o nome da minha mãe que me teve numa idade avançada. Como sabem, em idades avançadas não se devia ter filhos porque se corre o risco de malformações nos fetos.

 

A minha mãe foi avisada pelos médicos, mesmo assim correu o risco e eu nasci.

 

Agora tenho mais dois anos.

 

Quando passeio no jardim escuto as pombas que param para beber no lago do livro de histórias que leem, enquanto eu me escondo dos meus vizinhos que atiram pedras de papel branco, a mando das mães.

 

Escondo-me porque nasci tarde, com trinta e nove anos, e sinto vergonha dos outros que nasceram antes de mim.

 

Os pedúnculos das flores que tenho pelo corpo nasceram ocos. Um dia, cheia de curiosidade, quis saber se os das árvores também seriam iguais. Foi quando me acusaram de ter cortado as veias às árvores do parque e elas morreram. Tentei explicar-lhes que só as queria ver como eram por dentro, e depois ia cozê-las com linhas de costura da minha mãe. Mas ninguém me entendeu e consideraram o acto como um defeito de ter nascido tarde. Agora escondo-me por baixo da capa do livro, cheia de ervas, e fico ali até à noite quando sigo as estrelas dos lençóis da minha cama.

 

Também não poderei frequentar as escolas porque tenho idade avançada.

 

A minha mãe ralha-me por eu ter nascido tarde mas eu não tenho culpa e ela sabe.

 

Um dia tentei agradar-lhe e arranquei uma flor do meu corpo e dei-a para ela ficar feliz, mas ela pisou-a com o pé.

 

Os médicos dizem que não tenho cura, serei assim toda a vida: o ter nascido tarde.

 

Um Médico escreveu à minha mãe que eu podia fazer um tratamento intensivo para aprender a fazer poesia, que assim ia aliviar as minhas dores. Disse à minha mãe para me levar a uma clínica de livros e de leituras para fazer fisioterapia aos músculos das minhas flores; ao mesmo tempo que lia, levava choques eléctricos nos olhos e raios infra – vermelhos, por baixo da pele, no sangue.

 

Nunca mais fui ao tratamento! Mentia à minha mãe e fugia para o mar. Atirava areias à água com as gaivotas. Um dia a minha mãe desconfiou que não fazia os tratamentos e bateu-me, aqui nas costas, com uma pena, onde tenho a marca nas costelas.

 

Gostava de ter outra mãe que não fosse tão má.

 

Esta, quando mamo nos bicos das suas letras. Diz que já não tenho idade para mamar.

 

Ela tem razão, mas eu não tenho culpa de ter nascido tarde. Com trinta e nove anos tenho mais fome de cores e imagens. É por isso que lhe trinco os bicos, para ir buscar o que ela tem dentro dela. Sei que lhe dói quando faço isso porque ela grita e não me dá mais.

 

Gostaria de ter nascido como os outros poetas, com sete ou com nove anos de idade, não mais nem menos.

 

A minha mãe não teve culpa de eu ter nascido tarde. Foi a bruxa que vive no monte, na casa dos partos que adormeceu durante trinta e nove anos. A minha mãe não queria acordá-la, mas teve que o fazer porque já não podia estar grávida, mais tempo, porque o mar se soltou rebentado pelas pernas abaixo.

 

Foi por isso que eu só nasci aos trinta e nove anos.

 

30 de Março de 2007

 

 

 

 

 

 

*-*

 

CARLOS

 

Após a morte de meu pai, aos meus doze anos, comecei a frequentar a Escola do Ciclo Preparatório.

 

Algumas raparigas que já lá andavam, disseram-me que os rapazes, maiores, eram atrevidos com os novos e raparigas.

 

Às quartas-feiras, dia da aula de Ginástica, era obrigatório levar o equipamento. Ao chegar a casa dei conhecimento à minha mãe da norma, esta com muita dificuldade improvisou um que preparava dentro dum saco vulgar, umas vezes na manhã do dia da aula outra no dia anterior.

 

Normalmente quem levava malas, casacos, sacos que não quisesse andar com eles, podia deixá-los ficar no hall da entrada pendurados em cabides que a escola disponibilizava para o efeito.

 

Numa bela quarta-feira depois da aula de Matemática, dirigi-me ao sítio dos cabides para pegar o saco.

 

Quando o abri, pensava ver o equipamento, um casaco amarelo coçado que tinha pertencido à minha irmã, umas calças feitas em casa dum  ano de algodão escuro que por lá andava nos montes de roupa e umas sabrinas brancas novas que em casa lavava no tanque com água e sabão.

 

Para meu terror verifiquei que o saco estava cheio de trapos de variadas cores e, nada do equipamento.

 

Jurava a Deus que o tinha trazido e pendurado naquele cabide e não noutro.
Mantive a minha versão perante o conselho directivo da escola que entretanto havia sido chamado pelo contínuo. Iniciava-se ali um tribunal popular cheio de opiniões e dúvidas, onde alegava roubo em voz alta e chorava sufocadamente. Lembrei-me daquilo que as raparigas diziam dos rapazes. Percorri a memória para encontrar rostos maldosos. Surgiu-me o Carlos que andava na minha turma.
 
Logo após a minha denúncia, chamaram-o. Em roda de vozes femininas alteradas, a acusação foi decisiva, tínhamos encontrado o ladrão. As provas que havia contra ele eram muito fortes, baseavam-se nas minhas fragilidades de menina órfã.

 

– Onde está o saco com o equipamento? – Alguém gritava da roda.

 

– Não sei, não fui eu quem o tirou. – defendia-se ele e dos seus olhos lágrimas coloridas deslizavam rosto abaixo.

 

Passou-se uma semana até a seguinte quarta-feira. Desta vez a minha mãe entregou-me à mão um saco e disse: – Toma lá rapariga o teu saco para não te esqueceres dele como aconteceu na semana passada. E depois comentava numa voz de sussurro: – Que cabeça a minha, onde será que meti o saco com os trapos da costura?

 

 

 

 

 

 

*-*

 

Do céu!

 

procuras o princípio do chapéu, da casa, dos sítios escuros que cobres de estrelas extraídas e brilhas flor.

 

entras no jardim da frente como maestrina, és a única voltada para as notas do vento, cumprimentas a oliveira e, de repente, estás em casa, na sala, e perto de ti!, dentro do cesto azul, só podia ser azul, a fotografia da Florbela Espanca fixa em ti, tal animal doméstico, dócil, fiel e leal!  Afinal, és tu e não ela, nunca foi ela. sou eu!

 

procuras o princípio do chapéu, da casa, dos sítios azuis e os teus olhos brilham porque embalam buracos que pensas serem estrelas - lágrimas de deus e se distrais uma linha o poema cambaleia, envelhece amarelado como a tua pele. Deves! hidrata o rosto, hidrata dentro dos olhos, aproveita e hidrata as sílabas do corpo. hidrata as janelas e portas de casa. Depois, guarda o chapéu no princípio, mas procura-me sempre no amanhã. amanhã caminho azul como mãe.

 

23 de Março de 2017

 

 

 

 

 

 

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Eulália

 

Já passou muito tempo desde que estive dentro duma semente. Agora, só mantenho raízes na terra: o lugar com as ideias; quanto ao pedúnculo, às folhas e às pétalas, andam soltas a espalhar a visão do horizonte.


Mas nem sempre foi assim, há muitos anos, neste mesmo jardim, nasceu uma planta diferente chamada Eulália. Era uma semente como eu que morreu jovem — logo que foi mãe de duas sementes.


Éramos muitas plantas numa terra das ideias; de vários conceitos como as cores guardadas nas raízes das flores mais velhas — as únicas que podiam abrir as suas pétalas aomundo e espalhar o conhecimento.


Enquanto sementes, deixávamos o corpo pousado nas ideias dos nossos pais. Mexendo-nos pouco; não falávamos ou dirigíamos olhares uns aos outros, só nos comunicávamos com os batimentos dos corações. Esperávamos crescer com algumas ideias dos nossos progenitores.


Assim obedeciam os que estavam nesta situação, excepto a Eulália que era considerada uma fora-da-lei no jardim, ou como queiram chamar! A sua fotografia estava pendurada na entrada da caverna das ideias das plantas mais velhas. Por baixo da fotografia, dizia em letras gordas: A Eulália está proibida de crescer durante o Verão todo
e de ver a luz do Natal — enquanto Jesus nascia todos os anos, vá-se lá entender. Mais, se por acaso voltasse a infringir as normas, seria punida seriamente quando fosse mãe pela primeira vez ou quando desse à luz duas sementes — coisa rara, quase proibida. No fundo, só a queriam assustar e afastar os curiosos, impedindo-os de avançar além do permitido.


Todos tremiam quando liam aquele exemplo dado através da Eulália.


Sentiam-se à noite, entre as areias que coabitavam connosco, as correntes que nos prendiam aos sonhos (e a alma ao sono) a arrastarem as nossas cores sem corpos ou fé. Não éramos grande coisa, apenas umas coisitas, apesar do conforto e, até, quase se poderia
dizer que éramos muito felizes com a vida que levávamos.


A caverna — o sítio por onde entravam as ideias para as raízes guardarem de dia e saírem de noite — atraía a Eulália que, apesar de castigada e ter a vida precariamente segura, disse ao seu coração para comunicar a todos:
— Ou lhe diziam a verdade ou preferia a morrer!


Dito e feito! Os batimentos cardíacos eram sons de selva que anunciavam sarilhos para a pequena Eulália. O destino estava-lhe traçado pela sua curiosidade — e preferir conhecer o como é que apareciam as ideias dentro da caverna, e como de lá saíam.
Naquela noite, fez questão de nos enviar a informação — para quem quisesse juntar-se-lhe, o que não aconteceu de todo — do método de sair da casca da ideia onde crescíamos. Então explicou, com toques leves, como passar a fronteira das ideias fixas: roendo, com os dentes ainda pequeninos, os fios das grades até aparecer um buraquinho
para sair e, sem mexer nas ideias principais, de maneira a evitar ser apanhada — como já havia acontecido a outras atrevidas.


Depois, continuou a explicação: esconde-se das grossas e duras raízes, aninhando- se debaixo do seu tamanho e ficava ali a noite toda à espera de ver entrar ou sair uma ideia que fosse. Mas a única coisa que via era a água a alagar a caverna, entrando pelo buraco.
Não havia inimigos com dentes podres e pernas de pau atrás a tentar entrar no buraco para a apanharem. Apenas água. Água simples que bebia quando tinha sede. Numa dessas fugas, foi apanhada por todas as ideias mais velhas e castigada a ter duas sementes — coisa que acontecia somente às jovens mães, luminosas — Eulália teve-as e morreu.

 

 

 

 

 

 

*-*

 

Se não escreves poesia...

 

o papão vem e leva as tuas emoções
e a carne.
No caixão não poderás meter as mãos
dentro do corpo ou bulir no barulho
que o coração faz
— pum-pum, pum-pum —
nas veias vão abrir-se letras e seios
ecos que o coração guarda entre a carne e o som.
No lado esquerdo da terra
o teu polegar levanta-se e urina porque na morte
e na poesia tudo é possível...
A tua língua desprenderá o lacre só para rir,
dar gargalhadas, trazer rosto ao poema.
Tudo flutuará dos buraquinhos da terra em bolhas
para o céu!
Eu espero,
espero a voz
parafusos, pregos e linhas
para compor o teu som
a libertar sentidos e medos!

 

 

 

 

 

 

*-*

 

Inocência

 

Porque meteste dentro de mim estas coisas: fígado, pulmões, barrigas, coração, sangue, enfim... coisas que não falam comigo e obrigam-me a andar sempre com elas. Ainda para mais, tu dizes que não devo andar com desconhecidos! Então porque me fizeste um corpo que não conheço?

 

Mãe, quando me puseste uma alma nos olhos, lembraste-te de verificar se estava pura ou se trazia coisas dentro dela, daquelas! Iguais às minhas, fígado, pulmões, barrigas, coração, sangue, enfim! Enfim, dúvidas? Como vês mal....

 

Mãe, o que meteste dentro de mim em saquinhos brancos de linho: uns pendurados nas costelas outros pousados na virgindade do ventre, têm alma?

 

Sabias que existe uma ameaça de perda. Sabias que hoje em dia há ladrões para tudo? Pois, é verdade minha Mãe! Os médicos querem todos os meus sacos para examinarem o conteúdo. Mesmo a insistir que
tudo que me deste é meu e não o devo dar, eles não me dão ouvidos, e, um dia destes..., porquê? Mãe, avisaste que haviam contraindicações escritas no rosto dos sacos a dizer; alguns são vazios, outros são como ovos chocos.

 

Quantas vezes confundiste as coisas que metias dentro dos teus filhos, lembras-te que uma vez esqueceste da alma da minha irmã pousada ao lado do rio numa cesta de palha com muitas flores e vieste embora com uma borboleta que corria nas cores dos olhos? Agora ela não existe igual, como tu e eu, na terra dela só há ervas bravas e doentes.

 

Devias ter pedido ajuda quando colocaste os sacos dentro de mim, logo ao nascer ou antes do parto, ainda com as raízes dentro de ti, não sei bem quando mas esqueceste-te. E agora, nada! Só tenho linho branco morto e palavras chocas em vez de geração.

 

Estou cansada de tentar saber o motivo da troca....

 

Os médicos querem analisar a minha virgindade mesmo estando vazia, concluíram que só tenho coisas, aquelas coisas que não conheço. Penso que é tudo um disfarce da parte deles, o que eles querem são os sacos de linho pendurados nas minhas costelas, porque alguns ainda mexem por dentro e, no ventre, dizem que há um grande ovo, onde mora uma tecedeira parecida contigo, velha como tu, com poucas forças para sair do cómodo lugar.

 

— Por favor Senhora Tecedeira, sai de dentro da minha idade e leva as coisas, aquelas de que falo, para das costelas os sacos largarem as sementes no fundo da inocência.

 

 

 

 

 

 

*_*

 

A CERVEJA E A MOCA

 

Era uma vez, uma garrafa de cerveja que se chamava Cerveja e vivia dentro duma caixa na cave dum restaurante. Todos os dias, se lamentava da escuridão em que vivia e ansiava uma boca sequiosa, apreciadora da sua frescura e cor.

 

Um bonito dia, a rapariga que servia ao balcão, foi buscá-la para a servir a um casal de clientes. A Cerveja quase espumou de alegria…, finalmente ia ser apreciada à luz do dia onde a sua cor se reflectia. 

 

Pedido do casal: para ele, um jarro de vinho verde; para ela, cerveja…! A Cerveja! 

 

A Moca, como ela, a Cerveja, a pensou chamar…, dizia ela para o seu companheiro: 
— Gosto delas bem frescas e com gás activo.

 

— Então e a cor? —, interrogou-se a Cerveja. 

 

O homem emborcava a primeira taça, demoradamente, molhando os lábios com a última gota que ficou da golada e olhava a Moca antes de se pousar novamente noutra taça do líquido branco. 

 

A Cerveja, servida sem grande cerimónia pela rapariga, logo foi consumida pela sequiosa boca da Moca — alma alegre — depois, ali ficou, garrafa vazia, abandonada e esquecida dentro da simples cor. Mas, mesmo assim sua presença contrastava com todos aqueles que também estavam no tampo da mesa; sem concordarem a quem se doavam, como aquela faca, feroz e fria, que perto se colocara ameaçadora.

 

 

 

 

 

 

*-*


Conto

 

Saí, bati a porta depois de tirar a chave da fechadura. A manhã era de Maio mas o conto não é naturalista ou romântico, pode até não ser mais nada do que:
Palavras para o ar.

 

As sandálias pretas, a calça amarela solta tipo moda anos 60, uma camisola azul com desenho de duas bonecas grávidas e uma carteira de tecido de várias cores, mas a predominar o azul, toda feita à mão, e, no cabelo, uma fita a segurá-lo e uns óculos de sol.

 

Bati com o portão da rua depois de olhar para a erva do jardim e para as poucas flores que sobreviviam à chacina do desmazelo.

 

Comecei a coçar os paralelos no lombo e segui o caminho com um sorriso citadino, o jeito das ancas ondulantes a provocar a natureza que me circundava e o braço direito ligeiramente erguido com as pregas castanhas da mala na mão, a fitinha, também castanha, voava livre como uma jovem virgem.

 

Na aldeia as flores dos jardins das casas por onde ia passando, olhavam-me de forma diferente das da cidade, libertavam uns odores tradicionais que faziam chegar a infância ao meu horizonte.

 

Estranha! Tal me começo a sentir com a passagem dos carros locais e que por mim se demoravam a desaparecer na recta.

 

Ia atenta à paisagem do céu onde se via, ao longe, o oxigénio a formar-se e a cair sob a minha pele. Era leve como a água da presa, da qual aproximo a minha sombra.

 

Deslumbra-me esta natureza destemida.

 

O destino era ir ao minimercado, que fica no centro da Vila, buscar um raminho de salsa para as iscas de bacalhau — o almoço que ficara programado para aquele dia.

 

Levantei-me com tempo e arranjei-me devagar, o que acontece raramente, fiz a cama e olhei-a, depois, sem me apetecer lá voltar senão no final do dia, liguei o computador, vi os e-mails, sorri-lhe e ainda brinquei nas extensas escadas para chegar ao último degrau antes de ouvir o eco dos meus passos e dos meus risos pela vivenda quase cheia de vazio.

 

O sol, encoberto pelas nuvens, além dos vidros da janela do quarto, não se via.

 

Estava sem carro para me deslocar à Vila, o que podia ser um impedimento de ir e podia remediar sem salsa, afinal só eu é que gostava dela na comida. Porém, a curiosidade de conhecer as manhãs na aldeia era alguma, porque nova era no local.

 

As casas ornamentadas com lindos jardins, algumas com os quintais ao lado, penteados com regos de cebolo, batata e penca sem um cabelo de ervas que se apontasse por perto; alguns cafés, uma drogaria, talhos, cabeleireiros, um pintor de quadros, um Garanjeiro, um mediador de seguros, perto da padaria, uma sapataria e o minimercado do outro lado da rua para onde me dirigi descontraída e radiosa: dei um bom dia altivo e furei o corredor de velhas ali agrupadas, perto da caixa; umas, com compras; outras, sem nada, ou melhor: com a cavaqueira toda! Estavam ali, talvez, como em todas as manhãs, a repisar passagens da vida alheia — como é natural nestas paragens.

 

Amanhã irão falar da mim, se ainda não for hoje.

 

Uma delas, que parecia ser a mais velha pelas roupas escuras, incluindo o avental rendado “à lavradora”, a trança branca enrolava-se na nuca, o cabelo dava a sensação que crescia naquele caminho há anos, realçava os seus olhos esbugalhados no rosto carcomido, disse em alta voz: — As mulheres novas conseguem tudo e as velhas nada! — e ficou a olhar para mim quando me voltei na sua direcção, estava muito séria.

 

Baixei o olhar, estava em desvantagem numérica e era uma desconhecida, não me podia arriscar a uma má interpretação, pois há olhares que ferem. Contudo, ainda a desvantagem da carteira e do sotaque, só por si denunciadores do meu “estrangeirismo na terra e força para levantar vozes contra mim.

 

Peguei na salsa e em alguns legumes que me despertaram a atenção pela sua frescura, e encaminhei-me, devagar, para a caixa.

 

Entretanto, a velha tinha saído do estabelecimento voltando pouco depois; a jornada era longa e o peso demasiado para os seus braços idosos; por isso, pediu à dona do minimercado uma caixa vazia de fruta, onde depositou os sacos cheios e, depois, meteu a caixa à cabeça e foi-se embora em passo vagaroso e calmo.

 

Agora, pensativa e mais vagarosa, senti-a o braço pendurar-se ao corpo com o estorvo da carteira exótica, escondida pelo saco plástico, com os dizeres “A nossa loja”.

 

Atravessei a rua para ir à padaria e acrescentar outro saco ao corpo da cidade — que acabava por tapar completamente o aroma das minhas cores.

 

 

 

 

 

 

*-*

 

Fosse o meu coração um campo e as memórias sementes e nele nasceriam berços, bonecas, jogos de futebol e cordas para a alma brincar. E, quando chorasse, oxalá houvesse sementes de chupetas e mel e amor para calar as noites dos sonhos mortos. Seja o coração o cofre da minha infância — a descobrir pelos piratas que vivem no celeiro e procuram a chave da sua morte.

 

Seja o meu coração a minha mãe (que se chama Rosa e no seu pedúnculo conta onze espinhos em volta das mamas) e dele sairiam poucos dentes.

 

Não fosse o meu coração um campo verde cheio de sementes fervorosas de sonhos — de piratas e de Rosa — e a minha alma uma jovem e bela planta com folhas a tocarem os seios do passado: e a visibilidade da morte acabaria nas mãos do capitão pirata.

 

Um anjo perto do celeiro.

 

Coração
arena para as memórias,
origem nos ombros da flor.
Fosse o meu coração
um jogo de futebol…
E a infância?!

 

 

 

 

 

 

*-*

 

Que mistério me espera o hoje? Entrara em casa — como habitualmente acontecia findo o dia de trabalho — desajeitada e carregada com sacos de compras; no meio das pernas e à frente delas ruídos de recepção dos seus animais que a aguardavam em vários sítios do exterior até àquele momento de reunião no lar.

 

Geralmente, os bichos entram pela porta da cozinha, por onde saem, novamente, pouco depois. Frisam o ritual semanal. Testam espertezas. Uma corja cheia de manhas, com tempo livre para formar estratégias de conseguir entrar em casa, mal a porta se abra… e quase sempre com sucesso.

 

Entrara no silêncio escuro e logo se apercebeu que perfumara o mistério. Levou as mãos aos olhos e, sentiu as pestanas enormes, como pés a caminharem. Bateu-as várias vezes para se certificar do som; e ambas concordaram que chegara a altura de as cortar — pelo barulho que faziam ao abrir os olhos.


26.10.2011

 

 

 

 

 

 

*-*

 

«Por vezes,
abro-me poema e entro nas frases
— e ir além delas, são noites»

 

 

 

 

 

 

Olhar o espelho.


Gostava de evitar certas emoções, sempre que me olho ao espelho. Se pudesse, queimava-as, mas não o faço e acabo por as aplicar no corpo, por debaixo dos braços, onde as penas respiram. E de dia voo noleve peso do engano.


Sempre que me olho, o espelho avisa-me que a rua é perigosa, cheia de lixo e que devo resguardar-me do silêncio suspeito, ter cuidado com os vidros e os pedaços de gelo que os meus pés, despidos, podem
pisar, rasgando o meu reflexo nas nuvens. Depois, posso não acordar com o coração inteiro.


O olhar a idade.


Construir o tédio, é uma malha que a minha avó passou à sua geração; das suas mãos e da sua infância quando se sentava perto da palavra; venerando-a, fazia os genes da família falar aos pássaros e, dizem,
que nunca se queixava — talvez por ser mulher! Também nunca reparou nos infortúnios, de calma, ou foi esquartejada pelo trinar de uma ave. Amontoava-a perto de lá, quando os campos vestiam sons, com
que fiava, Memórias. Um trabalho duro, porquanto as ervas eram muito moles e quebradiças e, com elas, vinham teias de aranha coladas; mas o pior era a fragilidade do orvalho que perto dali como daqui,
crescia dela para mim. E já naquela altura a minha avó olhava o espelho, mas do que via, nada sei porque não me foi passado — haverá flores vivas que, desses momentos, me possam contar como foi
crescer dentro daquele espelho.


Sabes!, o meu telhado não é vermelho, é descartável, incolor e anda comigo pegado cabelo, e com ele cresce e morre.


Sabemos que atravessar a rua com emoções no peito e a pressa de apanhar a rotina que nos aguarda, faz bambalear o telhado nas costas, e dói o frio que faz, que o sinto nos pés quando sobe à boca o medo
do espelho.


Nunca pensei ver um peso a voar como um pássaro.


Nada de engraçado senão decorativo e desimportante.


O acto de lembrar é um acto de coragem, esmiuçar agendas e telemóvel   um acto de covardia — de doença. Dizer que o é, não é fugir à responsabilidade ou negar um poema. Se calhar, é tudo engano e
deves ter razão ao questionar se vale a pena ver um peso a voar como um pássaro.


É um objectivo recente que nasce como pelos no corpo, para ocupar buracos mal explicados, alguns de tédio e, muitos, de ignorância. Mas uma mulher, apesar de não gostar de pelos, gosta de se lembrar que
o é, nem que seja uma vez na vida, como são as vírgulas que esta planta tem penduradas no tronco e abanam naquele vento frio, como os teus lábios quando de manhã se esquecem do calor de uma
palavra que as cores dos teus olhos têm.


Haja harmonia entre os seres — como dizia a minha avó — e o mal fugirá, como foge o peso; e o céu ficará repleto de pássaros informes — como as sombras.

 

 

A.fe é o nome artístico de Ana Maria G. S. Brito Fernandes, conhecida nas redes sociais como Ana Maria Fernandes. Nasceu no dia 17 de Março do ano de 1966, em Vila Nova da Telha na Freguesia de Moreira da Maia, do concelho da Maia |Porto | Portugal.  Atualmente habita na Vila de Paço de Sousa do concelho de Penafiel|Porto|Portugal. 

A.fe e Ana Maria Fernandes também é conhecida como Ana Maria Costa pelas suas atividades culturais quando assinava os seus poemas e textos de teor literário, que pratica e fomenta desde 2006, ano que adquire a marca cultura AMANTEDASLEITURAS. 

Ultimamente, em paralelo com a literatura, abraça também as artes visuais figurativas."

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


FICHA TÉCNICA


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Junho de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Costa, Antônio Torres, Diego Mendes Sousa, Beatriz Aquino, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carmen Moreno, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Cláudio Daniel, Danyel Guerra, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Elisa Scarpa, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Hermínio Prates, José Manuel Simões, Julio Inverso, Leila Míccolis, Liliana Ponce ; Rolando Revagliatti, entrev., Luís Giffoni, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Ana Carol Diniz Hassui e Audemaro Taranto Goulart, Ricardo Ramos Filho, Tanussi Cardoso, Vitor Eduardo Simon


Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

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