ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Beatriz Aquino


Cartas do outro verso do Atlântico (ou bilhetes para atravessar a escuridão)    

É difícil ser sóbria e boa. Também eu faço parte da grande multidão perdida, dessa grossa amálgama de martírio e espanto, sendo que não possuo a paz dos idiotas para atenuar as cólicas existenciais.  Também eu faço parte dessa gente que teve a inocência pisada. Também eu sou mais um rosto sem expressão em meio à miséria anônima. Possuo o ar perdido dos imigrantes. Veja que não há nada que eu faça que possa me tirar esse manto de melancolia dos ombros. Sobretudo quando vejo o que se passa em nosso país. Sou tão solitária e esquisita que me exilei antes do golpe. Já me arrastava lânguida e ferida por essas planícies antes de ser denominada como exilada. Tamanho é o gosto que tenho por dramas. Mas a coisa está séria por lá, meu caro. E em momentos assim é preciso esquecer um pouco os dramas pessoais, as verticalidades existencialistas e ir direto ao ponto. Sofrer junto com o nosso povo, enxugar o suor do rosto dessa gente burra e inocente. E que de tão burra e inocente é tão bonita, porque já não se fazem gente burra e inocente como antes. 

 

 

O mundo se dividiu entre cervos e chacais. Ou somos um coração a serviço da fome da vilania ou somos as hienas a morder os calcanhares da bondade humana. Que já é pouca, que já é falha. Precisamos de mais cervos. Não para matar a fome sem fim dos governantes, mas para olhar com doçura para os bárbaros. E claro, precisamos de heróis para lutar as guerras que somos covardes demais para combater. E eu não sou nada heroína. Vaidosa como uma, talvez, mas nada heroína. Minha bravura vai até o momento em que o sol severo começa a manchar a minha pele e que a sede grita impropérios em minha garganta. O resto é essa covardia maquiada de indignação. Essa apatia mascarada de revolta.

 

 

Mas escrevo. É o que sei fazer. Nosso país se prepara para uma grande convulsão. E não é justo  que eu fale apenas de mim e sobre a minha insustentável leveza do ser. O mundo sangra e é preciso que alguém fale sobre isso. As mães perdem a voz em um choro uníssono. Seus filhos assassinados dentro de casa. A milícia recebe honrarias das forças maiores. Tudo virou um grande conluio. Aliás como sempre foi, sendo que agora esse é um dos mais perigosos. Pois é sangrento e sem intenção de disfarce. É sangrento e pronto. E quando a humanidade chega em um ponto onde acha isso normal, é deveras preocupante. 

 

 

Cumpro a minha sina. Para o bem ou para o mal, existo para confrontar as coisas mal feitas ou muito bem feitas. O estabelecido nasceu para ser apedrejado. É saudável que assim seja. A mão rude dos homens não deve calar a voz das crianças. Mesmos que essas vozes morem no corpo de homens e mulheres de vinte ou setenta anos. Escrevo para quem sabe uma esperança surgir entre essas linhas como num passe de mágica, embora eu saiba que não tenho talento e nem capacidade para produzir milagres. Mas faço como exercício de consistência. Enquanto estivermos exercitando atentamente o nosso direito de pensar, os muros e alicerces da tirania continuarão a tremer. Senão, meu bom amigo, 
será o mais negro e pesado silêncio.

 

 

Beatriz Aquino é formada em Publicidade e Propaganda e é atriz de teatro. Tem publicados os livros:  Apneia (romance), A Savana e Eu (crônicas) e Anne B.  - Sobre a Delicadeza da forma (romance). Vive atualmente em Portugal.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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