ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Marinho Lopes


Capacidades sobre-humanas    

 

O nosso cérebro é a máquina biológica mais complexa que conhecemos. Permanece um mistério compreender a forma como este órgão de pouco mais de um quilograma (1,3 a 1,4 kg) consegue criar uma imagem virtual do mundo na actividade das suas células. Como é que percepcionamos o que nos rodeia? Como é que pensamos? Como é que da interacção entre neurónios emerge uma identidade auto-consciente?

 

Além destas questões, podemos também reconhecer que o cérebro humano tem por vezes capacidades ainda mais extraordinárias. Neste artigo vou falar-vos de dois indivíduos que usufruíram de capacidades muito acima da média.

 

Uma das capacidades especiais mais conhecidas é a da memória fotográfica: a capacidade de recordar imagens (e não só) em perfeito detalhe. Embora não haja provas científicas de que existe memória fotográfica perfeita, há sem dúvida casos de pessoas com memórias que transcendem as limitações comuns. Um dos exemplos mais proeminentes é o de Kim Peek (1951-2009), no qual a personagem Raymond Babbitt do filme “Rain Man” (1988) (“Encontro de Irmãos”) foi inspirada.

 

Kim Peek tinha o síndrome do sábio, uma condição neurológica muito rara que se caracteriza por certos défices mentais aliados a capacidades extraordinárias. No caso de Kim, a sua capacidade extraordinária era a memória. 

 

No filme, Raymond é usado pelo irmão para contar cartas de blackjack (21) num casino em Las Vegas. Na realidade, Kim nunca memorizou cartas em casinos, mas fez coisas bem mais impressionantes. Usando a sua memória incrível, Kim conseguia ler muito mais rápido que uma pessoa comum. Uma página que a maioria das pessoas demoraria cerca de 3 minutos a ler, Kim Peek conseguia “ler” em 8 a 10 segundos: passar os olhos “por cima” chegava, como se os seus olhos fossem um scanner. Mais ainda, Kim conseguia ler em simultâneo duas páginas distintas, uma com o olho esquerdo e outra com o direito! E, claro, enquanto que nós depois de lermos um livro conseguimos recordar-nos de ideias gerais, Kim conseguia recordar palavra por palavra o conteúdo do livro. Tendo lido/ visto muitas enciclopédias, atlas, mapas, calendários, etc., Kim era capaz de recordar todas aquelas datas que muitos de nós tivemos dificuldade a decorar na escola. Usando os mapas memorizados, Kim era também capaz de calcular os caminhos mais curtos entre quaisquer duas cidades no mundo.

 

Infelizmente, estas capacidades eram o resultado de lesões cerebrais, as quais foram responsáveis também por muitos efeitos adversos: Kim Peek tinha dificuldades motoras e mentais.

 

 

Kim Peek (1951-2009). Com 18 anos e apesar de não ter grandes estudos, Peek fazia a contabilidade para uma empresa com 160 empregados, um trabalho que lhe tomava apenas algumas horas por semana para fazer todos os cálculos de cabeça. Não obstante, o seu QI (coeficiente de inteligência) era apenas de 87 (a média é 100).

 

Deixo-vos um excerto de um documentário sobre Kim Peek:

 

Para lá da memória, o síndrome do sábio pode também vir acompanhado de outros dons especiais: capacidade de cálculo mental, ou aptidões artísticas para desenhar, pintar ou compor música (a um nível extraordinário, claro).

 

Se por um lado ser capaz de fazer contas aritméticas à velocidade com que colocamos os números numa calculadora é já por si impressionante, há ainda quem possua capacidades matemáticas ainda mais incríveis. Um exemplo ímpar de genialidade matemática foi o de Srinivasa Ramanujan (1887-1920). Recomendo de novo um filme, desta vez biográfico: “The Man Who Knew Infinity” (2015) (“O homem que viu o infinito”).

 

Citando Bruce C. Berndt,
“Paul Erdős has passed on to us Hardy’s personal ratings of mathematicians. Suppose that we rate mathematicians on the basis of pure talent on a scale from 0 to 100, Hardy gave himself a score of 25, J. E. Littlewood 30, David Hilbert 80 and Ramanujan 100.”

 

“Paul Erdös deixou-nos as classificações que Hardy atribuiu a matemáticos do seu tempo. Assumindo que classificamos matemáticos de acordo com o seu talento nato numa escala de 0 a 100, Hardy deu a si mesmo 25, a J.E. Littlewood 30, a David Hilbert 80 e a Ramanujan 100.”

 

Todos estes nomes correspondem a matemáticos brilhantes, em particular Hilbert foi um dos grandes génios do século XX (já aqui falei nele no artigo “Problemas do Milénio”, na ed. 91 da Incomunidade). Não obstante, de acordo com Hardy, Ramanujan é de longe o maior em talento “puro”. Porquê?

 

Quem tem uma noção daquilo que é a matemática moderna, sabe que para encontrar novos resultados (novos teoremas), é necessário dominar a linguagem matemática de um dado campo, sendo que novos resultados podem demorar dezenas de anos a serem alcançados pelas mentes mais brilhantes. Ramanujan foi em grande parte um autodidacta que desconhecia imensas áreas da matemática do seu tempo. O seu grande aliado era a sua intuição ímpar para deduzir resultados matemáticos (sem recorrer aos métodos convencionais). Sozinho, Ramanujan redescobriu teoremas matemáticos avançados que tinham sido o produto de centenas de anos de investigação matemática! Além disso, propôs a solução para muitos problemas que se julgava não terem solução.

 

Os resultados matemáticos podem em geral ser divididos em teoremas e conjecturas, onde um teorema é um resultado provado com base na matemática conhecida, enquanto que uma conjectura é como que uma ideia cuja veracidade (ou falsidade) ainda não foi provada. Ramanujan foi prolífico em conjecturas cuja veracidade tem sido provada ao longo dos anos (algumas delas recentemente).

 

No obituário de Ramanujan, Hardy escreveu:


“He combined a power of generalization, a feeling for form, and a capacity for rapid modification of his hypotheses, that were often really startling, and made him, in his own peculiar field, without a rival in his day.”


“Ele combinava um poder de generalização, uma sensibilidade pela forma e uma capacidade de  modificar rapidamente as suas hipóteses, as quais sendo frequentemente surpreendentes, fizeram dele incomparável na sua área.” (Tradução livre.)

 

 

Srinivasa Ramanujan (1887-1920). Matemático indiano que, quase sem formação avançada em Matemática, produziu contribuições significativas em Teoria de Números, Séries Infinitas, Análise Matemática, Fracções Contínuas e não só. Morreu com apenas 32 anos, presumivelmente devido a uma saúde fragilizada pelos anos em que viveu em pobreza extrema.

 

O que nos dizem estes dois exemplos de genialidade sobre o cérebro humano? Mostram-nos pelo menos que o nosso cérebro tem o potencial de alcançar capacidades que parecem transcender a nossa condição humana. Com a engenharia genética a evoluir a passos largos, é inevitável ponderar se um dia os nossos descendentes terão todos eles capacidades iguais ou superiores às de Kim Peek e Srinivasa Ramanujan.

 

 

No relatório escolar vêm-se as classificações F (a mais baixa no sistema americano). O filho explica: “Mas pai… Não ouviste dizer que nós, humanos, só conseguimos usar 10% das nossas capacidades cerebrais?”

Embora os exemplos de cima possam parecer indicar que de facto a maioria de nós não usa todas as potencialidades do cérebro, a verdade é que usamos. Os 10% são um mito. Porém, as capacidades natas de cada um variam de acordo com a genética e o meio social envolvente, assim como com as experiências adquiridas ao longo da vida.

 

 

Marinho Lopes é Doutor em Física pela Universidade de Aveiro.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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