ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Fábio Pessanha


Três Poemas para InComunidade    

tenho paixão por frases que assobiam

em meus ouvidos. a cada vez que

deitamos no silêncio um do outro, a

noite desce pelas costas do tempo

dizendo com fome sensações bem

sacaninhas até o amanhecer.

abrimos as janelas dos lençóis

e seguimos a direção dos pelos

arrepiados, largados em algum

beijo. tenho paixão por frases que

me procuram dentro das bocas que

uso para dizer poemas muito

mais antigos do que meus nascimentos.

aqueles que deixam de ser a parte

instantânea dos ventos ou ainda

que saem dos cacos sobrados de uma

festa bem acabada. embora me

apaixone, não sei dizer bem as

frases que me fazem apaixonar.

é um tal de fechar os olhos e ir

ao impulso nos ombros, depois de

colher os restos de minhas vontades

nos suores que vivi. e talvez

confundir o destino das palavras

em sintaxes tão mal formadas quanto

meus erros, todos bem livres em mim.

**

 

 

 

 

 

 

ah comprei uma coisa pra você

um mimo uma bobagem coisa pouca

quase oca escrevo só pra dizer

que comprei um presente que na loja

lembrei de você só uma lembrança

um afago um carinho que virou

coisa que atou memória que virou

matéria que vai dar o que falar

ou nada vai dizer e que assim seja...

mas isso aqui não era pra ser um

poema não tinha que mover gestos

não precisava desembarcar mundos

era só pra dizer que comprei uma

coisa que quis encurtar a saudade

que tramei com o futuro que flertei

com o infinito te escrevo só pra

dizer estou dizendo que essa carta

não era pra ser um poema mas

sim uma mensagem no whatsapp

**

 

 

 

 

 

 

... duas camas amanheceram em meu

corpo. numa delas um estranho pássaro

fez seu ninho; naquela outra, o epílogo

do sol alargou o espaço entre as minhas

costelas. deu-se início a ascendência

das manhãs na carnadura tão rente

ao contorno dos meus ossos na pele,

como o refúgio para as eclosões

solares de meus muitos nascimentos...

**

 

 

Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre sua pesquisa, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor do livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Assina a coluna “palavra : alucinógeno” na Revista Vício Velho. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Sanduíches de realidade, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Mallarmargens, Contempo, Poesia Avulsa e na própria Vício Velho.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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