ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


O cinema morreu, viva o sinema    

“(…)somente  Serge  poderia ter sido
                         um guia neste  labirinto  de  imagens(…)”                

 

                                     Wim Wenders

 

Na edição de 24 de agosto de 1981 do diário francês ‘Libération’, o crítico Serge Daney (1944-1992) assinava um tocante epicédio coroado com o título ‘La Mort de Glauber Rocha’. “’A Idade da Terra’ não se parece a nada de conhecido. É um filme torrencial e alucinado. Um OVNI fílmico, sem mais nem menos.”


 
     Nesse tributo, Daney confessava que nele “ainda não se tinha dissipado a estupefação” provocada, em 1979, pelo visionamento da obra testamento do cinemanovista brasileiro.

 

 

     Há males que vêm mesmo por bem! Não fora o desencarne  prematuro do “cabeça falante” do Cinema Novo e talvez eu demorasse mais algum tempo a (re)conhecer Daney. Desconhecimento que para um cinéfilo, mesmo mediano, era mais que um vexame, quase um desacato. 

 

    Esse  (re)conhecimento prosseguiu na biblioteca do Cineclube do Porto, através da leitura de seus editoriais e de outros textos publicados, nomeadamente, nos ‘Cahiers du Cinéma’, enquanto redator  e diretor de Redação. Com destaque para a primeira crítica, dada a estampa na revista, sobre o western ‘Rio Bravo’(1959), de Howard Hawks. Também não escapou ao meu olhar, na sua ‘Traffic’, a reflexão ‘Le Travelling de Kapo’, um controverso texto a propósito de ‘Kapo’ (1959), de Gillo Pontecorvo, filme que ele apenas “viu” através do irado artigo ’De l’abjection’, de Jacques  Rivette, publicado igualmente nos Cahiers, em junho de 61.   

 

 

  Clarividente, asfaltando a estrada na senda desbravada por André Bazin, ele enfatizou na sua opera a natureza impura do Cinema. E preocupou-se com seu ocaso como arte, alertando para o risco da turbulência instalada pela inflação/proliferação imagética. Vertigem que a médio prazo, iria degenerar numa erupção diarrética de lavas de elevada toxidade.

 

   Diagnosticando a crise finissecular da wagneriana “obra de arte do futuro”, ele colocou o acento tônico na cinefilia, definindo-a como um conjunto de práticas sociais “legitimamente socráticas.”                 
      

 

   A era do pós-Cinema 


    
    Daney morreria prematuramente  em 1992, vitimado pela AIDS/SIDA. Nos vertiginosos 28 anos seguintes, o designado pós-Cinema, argutamente pressentido, equacionado e questionado por ele, cimentou e endureceu sua hegemonia. Perante essa conformação, somada a algum conformismo e bastante deformação, a mais estulta das recomendações seria a de guiar os cinéfilos numa fuga para a frente, incitando-os a confrontarem os simulacros projetados num “ ecrã traiçoeiro”, com o fito de trespassá-lo, estilhaçá-lo, pulverizá-lo.

 

    Em boa verdade, as primeiras décadas do século XXI ficam assinaladas pelo paulatino abandono da película celulóide/poliéster, pelo esvaziamento/degradação das amplas salas de projeção, pela subalternização do canônico cineclubismo, pela interpenetração transversal das artes audiovisuais (Cinema, Vídeo e TV & afins), numa caleidoscópica nebulosa, pela vulgarização e abastardamento provocadas por falsas práxis cinemartísticas.

 

   Na hora que passa, qualquer néscio ousa a veleidade de ser autoproclamar cineasta, sem ter as mínimas noções sobre a História, a Estética, a Linguagem e a Gramática da arte sétima. O embaratecimento da parafernália técnica e dos processos de fixação/reprodução da imagem consumaram a democratização do acesso ao universo audiovisual. Porém, esse estado democrático degenerou, em contramão, na ditadura da banalização/contrafação “artística”.
  
    Esse mundo novo, eivado ab initio de sintomas de uma precoce senilidade, tem acarretado, segundo algumas sensibilidades tomadas de pânico, a decadência do CinemArte em favor do cinemartifício. Tal é a designação eufemística do imparável travestimento  do Cinema num mercadológico produto de uma massificada “indústria cultural”.

 

   De acordo com essas avaliações, a arte cinematográfica estará se submetendo aos cânones línguísticos e estéticos do medium televisivo e da publicidade, formatando-se em subserviência aos códigos redutores da ditadura dos simulacros imagéticos, pela via de um exagerado e excessivo recurso a procedimentos eletrônicos/informáticos.      


   
   “Chamem-lhes digital pics Não são filmes

Béla Tarr

 

   Sem pretender estabelecer parâmetros comparativos e valorativos/desvalorativos, constata-se que, em regra, o Cinema coetâneo é concebido para ser veiculado/difundido em multiplataformas, impressionado em suportes digitais, com um crescente aporte de agilidades proporcionadas pelos equipamentos informáticos.

 

    Todavia, embora cada vez mais digitalizado e menos filmado, ele continua sendo Cinema. Ainda que o paradigma da verdade dos 24 fotogramas por segundo de Jean-Luc Godard corra o risco de ser substituído pelo paradigma da fantasia dos 48 fps de Peter Jackson, o Cinema persevera sendo Cinema. E pur si muove, embora possa ser artisticamente (um) paralítico.

 

   Bem a propósito, recorde-se que a última opus de Ingmar Bergman- Saraband  (2003)- foi “filmada” com  “película” digital de alta-definição. E essa contingência não beliscou a excelência da despedida  do mestre. E imensos dos que se maravilharam vendo ‘Danser i Morket’ (2000), de Lars von Trier, talvez ignorem que as sequências musicais foram registradas em simultâneo por 100 câmeras digitais.

 

  
Vamos ao Cinet?

 

   Não partilho, todavia, da prostação pessimista de muitos cinéfilos clássicos, diplomados nos tradicionais cineclubes/ cinematecas/ festivais que diabolizam a atualidade, ironizando que “Cinema agora nem em Ipanema”, que “CinemArte agora só em Marte”. Ou ainda que “o Cinema fenece num sunset sem boulevard”. E que, por fim, alarmam estar o “Cinema duplamente (eletro) domesticado”, ao constatarem que uma crescente parcela da produção  se “auto-condena” a ser visionada sob o formato DVD (em notório refluxo) e correlativos suportes, em maxi ou miniaturizadas telas e ciberplataformas.

 

   É uma evidência que hoje, cinco em cada dez cineconsumidores veem filmes nas telinhas, seja através da programação dos canais de TV, seja através de leitores DVD, seja pela via de uma seleção a la carte personalizada, acessando serviços como o ‘On Demand’ ou sintonizando o ‘Over The Top Television’, ou seja TV por Internet, através da banda larga, potenciada pelo streaming  (transmissão contínua/fluxo de media) e turbinada, em breve, pelo 5G. De tal modo, que começa a fazer sentido aludir a instauração de uma nova nomenclatura. Podemos, com efeito, estar no dealbar da era do Cinet.


  

 “Pessoalmente gosto do invisível, mas o virtual é só uma má versão do invisível”
                                                    Leos Carax

 

 
    Reconheça-se, sem dramatismos, uma evidência: estamos no trânsito de uma concepção, adaptação, conformação, reconfiguração  dialética. Na fase aguda de um transe antitético em direção a uma nova síntese. Em demanda de um outro sunrise que ilumine e esquente uma alternativa cinestética.Um movimento perpétuo associativo, tanto mais sideral e voraz por ser tratar de um fenômeno cinematicamente dinâmico, afeito a uma perene impermanência.

 

    O Cinema de hoje não é, portanto, nem melhor nem pior que o de ontem ou que o de anteontem. É simplesmente diverso e diferente. Diversa e diferente denota ser, em coerência, a nova cinefilia, formada em interativos cineclubes caseiros e pessoais, bilaterais ou multilaterais, alocados em leitores de DVD, em PC, laptops, em Iphones e smartphones. Tendo como ecrãs prioritários as telas do ciberespaço, das redes sociais (Facebook)  ou do Youtube.

 

    Reconheça-se, entretanto, que nenhuma dessas plataformas eletrônicas logra instalar o fascínio  que se sente numa ampla sala de cinema. Sortilégio que formatos como o 3D ou o IMAX pretendem reinstalar nos grandes auditórios.
   
 Um Sinema em que o pecado more dentro…    


  
    Qualquer que seja o formato ou o suporte em que se configure, o Cinema só terá sentido e razão de existir, resistir, insistir e persistir, se for audaz ao limite de se tornar um Sinema. Um Sinema em que o pecado  more dentro e não ao lado. Um Sinema disponível para viol(ent)ar  todas as regras e inclusive todas as exceções. Um Sinema em que opacidade e transparência busquem e atinjam a harmonia. Um Sinema que seja formal e substancialmente abrupto, sem ser bruto. Um Sinema que tenha suficiente talento para equilibrar os complexos forma-conteúdo e arte-linguagem.  Um Sinemaquenãonutra boas intenções, porque delas está o Inferno de saco cheio. Um Sinema de causas (artísticas) e de consequências (históricas). Um Sinema que nunca sendo peco, arrisque, porém, a coragem de pecar contra os deuses do ecrã. Que seja solerte no desempenho dessa ímpia iconoclastia.


   
    Nos seus escritos, Daney ousou a excentricidade de se definir como um cinefils  e não já como um cinephile. Nessa acepção, antigos e novos cinéfilos são filhos siameses do mesmo progenitor, deus jânico, exibindo, rejubilante, duas faces diversas mas complementares.

 

    Lançar uma ponte de mão dupla entre as gerações cinéfilas e  cinefilhas terá sido o principal escopo das sábias reflexões do profeta crítico do pós-Cinema. Seu legado é um notável contributo para o diálogo irrestrito e para a concórdia plural dessa grande fraternidade. Aquela que se considera um produto cultural de uma “Nova Idade Media” audiovisual. Mas que, no mesmo comprimento de onda, não entende o Amor ao Cinema/Sinema como um infértil vício onanista, frivolamente lúdico e intelectualmente vazio, inconsequente e alienatório. Diálogo e concórdia onde o pensamento único, a sobranceria/preconceito cultural e as tentações censórias não têm o direito de acessar ao ecrã.

 

 

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu em São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, num dia de Vênus  do mês de novembro, sob o signo de Escorpião. No ano em que Agustina Bessa-Luís publicava ‘A Sibila’. Guerra tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

São de sua autoria os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor, Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2014), ‘O Português do Cinemoda’ (2015) e ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Junho de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Costa, Antônio Torres, Diego Mendes Sousa, Beatriz Aquino, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carmen Moreno, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Cláudio Daniel, Danyel Guerra, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Elisa Scarpa, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Hermínio Prates, José Manuel Simões, Julio Inverso, Leila Míccolis, Liliana Ponce ; Rolando Revagliatti, entrev., Luís Giffoni, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Ana Carol Diniz Hassui e Audemaro Taranto Goulart, Ricardo Ramos Filho, Tanussi Cardoso, Vitor Eduardo Simon


Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR