ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Adriano B. Espíndola Santos


Era tarde demais    

Era tarde da noite quando a porta rangeu. “Não se faz isso com uma mulher grávida, Paulo! Pelo amor de Deus!”. Não foram poucas as vezes que o adverti. Ainda que não estivesse mais grávida, Paulo conservava a mania esquisita de entrar de supetão ou à socapa, para surpreender. Não entendia essa artimanha, de sujeito melindroso, sempre alerta a não sei o quê.

 

Naquele dia, Paulo poderia muito bem me dissuadir de algum pensamento torto e dizer que não havia motivo para pânico; mas lógico que me assustei com tracejar. Passava pela casa rondando, deixando cair algo como plumas, leves, que se podia ouvir mesmo através das paredes acústicas da sala. Peguei Ricardinho no colo; dormia feito um anjo, e coloquei-o junto ao peito. Entramos no quarto e nos escondemos até o temor sumir.

 

Atordoava-me o peso da meia-noite, exatamente. Quase madrugada de segunda, e Paulo não dava as caras desde sexta.

 

Quando se instalou a quarentena, não havia espaço entre nós; acotovelávamo-nos sem nos tocar, de tão intrincada nossa relação. A casa era um ovo, uma fina membrana; sem proteção.

 

Ele gritava da sala, e a voz vinha rasgando pelo corredor: “O que cê tá fazendo aí, vagabunda? Só pode estar atrás de macho!”. Com esse tom, sentia o comprometimento do corpo atolado no álcool: 60% a 70%. Nervos à flor da pele. Então, sem pestanejar – as mães compreendem muito bem o que estou falando –, carregava Ricardinho comigo; para onde fosse.

 

Na tocaia, arrumava um jeito: trancava a porta, ia ao chuveiro e liberava a água, por mais que me desse um tremendo desespero, também, de desperdiçá-la; mas a mãe natureza havia de me entender, era a maneira refletida para me despachar da enrascada. “Estou no banho, não consigo ouvir!”. Paulo gritava, gritava; e logo desistia de alguma pretensão maldosa, pois, consumido pela devassidão, não tinha forças para derrubar duas portas.

 

   O fulano jazia largado na casa o tempo que desse, enquanto tivesse bebida. Às vezes, e era a hora que me despreocupava, ia ao bar do Tião e se debandava para lá – ele nunca me dizia aonde e o porquê. Passávamos, então, dois ou três dias em paz, mesmo na quarentena, eu e o Ricardinho; guardados com o benefício e a ajuda das vizinhas, já que minha família é do Norte, e, assim, conseguíamos nos virar.

 

Quando voltava, além das perversidades habituais, de arrebentar os trocinhos que conseguia comprar, como tevê, micro-ondas, rádio etc., o Bicho trazia toda nuvem de desgosto; vinha impregnado de vontade de descarregar as suas desgraças.

 

Esgoelava-se e me engolia, com as exigências mais absurdas, para que desse um jeito de preparar os tira-gostos de moela, de tripa; que arranjasse, na bodega, porque tinha crédito, uma garrafa de cana; e o reabastecesse, semanalmente, com cinco maços de cigarro.

 

E olha o que sucedeu, na primeira vez que o denunciei: nem confiança; voltou tudo para cima de mim. Demoraram um horror para, sequer, levar o cabra à delegacia e, em seguida, o liberaram.

 

Fazer o quê, sem teto e com um filho para criar? Perdoei porque, enfim, acreditava numa recuperação. Mas não demorou e calhou de se repetir; voltei a chamar a polícia, enquanto ele estava no bar, e aconteceu o que mais temia, não deram a mínima: “Senhora, e o flagrante?”.

 

Claro, apertaram o monstro, e isso o enfureceu mais. O que restava de possibilidade de convivência se escafedeu. E ele, para me intimidar, para me cozer de medo, amolava uma faca de cozinha e, volta e meia, colocava-a no cós e desfilava pela casa, dono de tudo. Para não perder o costume, estourava algum prato e me mandava alimpar.

 

É lógico que o espírito demolidor de Paulo alertava; só a Justiça não queria ver.

 

Precária, a calmaria se abafou; os passos definidos marcavam o curto trajeto.

 

Do quarto, ouvi um balbuciar, o que poderia denunciar a presença de outro, além do conjecturado alma sebosa. Ele não era de trazer amigo – muito provavelmente não o tinha.

 

A porta principal foi aberta com certa dificuldade. O nojento tinha a chave. Mas já aconteceu de, na bebedeira, perder até as calças.

 

Os toques passaram a ser mais perceptíveis e cabia a mim, naquele instante, identificar se eram das mãos rudes e dos pés atravessados do tinhoso. Nada. Parecia proposital o vagar, a inconstância no tônus. Escasseavam, por vezes, sons e sentidos, certo de que eu estava afogueada em agonias e não podia transmitir à criança – que, como disse, dormia o sono dos inocentes.

 

Apoiei Ricardinho num chumaço de panos, como uma concha, para que ficasse arrumadinho. Atrás do móvel do quarto, o único de madeira de lei, que ganhei de vó, e que o inútil não conseguiria quebrar, como uma bainha própria para armas, saquei o facão. Esperei ao lado da porta, acocorada, para lascar a barriga do bandido.

 

Dito e feito, aberta a porta por completo, o que demorou um século, desferi um golpe no pé da barriga, como pai me ensinou: “Minha filha, se algum caboclo vier astuciar com você, meta um golpe curto no pé da barriga; cai feito um boi, sangrando!”. O mandamento de meu pai ia e voltava na mente, confirmando a queda abrupta do cornudo.

 

Esperei se vinha mais algum. Olhei em volta. Nem dei fé de quem tinha caído; já estava morto mesmo. Varri a casa e nada. Se havia alguém, com o papoco se espalhou.

 

Na porta, com o pé na poça de sangue coalhado, que dificultava o andar, vi a boca escancarada, com uma dúzia de dentes, e a cara de espanto do espezinhador. Não havia planejado; mas se cumpriu o fim anunciado: o cão voltou para o inferno.

 

 

Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro Flor no caos, pela Desconcertos Editora. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem crônicas e contos publicados nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, Literatura & Fechadura, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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