ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Carmen Moreno


Poesia II    

O VÍRUS

 

São dias sombrios estes de guerra.
Tranco-me na casa, cárcere, quarentena:
o inimigo tomba-me pelo abraço.
As mãos são mísseis, todo toque um temor.
Espreito da janela os suspeitos que passam mascarados.
O poder, desmascarado:
O pequeno se agiganta, toma as rédeas, dá as cartas.
O gênio humano curva-se à destreza invisível do invasor.
São dias sombrios estes de terror.
Não há lado neste front.
Os vip’s não têm bunker, nem escolhem suas
macas.
Áfricas distantes e seus Ebolas são,
num salto, meu quarto e continente.
Itália, Espanha, Leblon, Paracambi.
A China é aqui.
Um Planeta sem fronteiras: igualdade compulsória.
Nem Cristo alcançou tamanha glória.
Na pirâmide social da dor,
hospitais e seus corredores de óbito são notados:
do topo à base, enfim, os homens irmanados!


 

 

 

 

 

*SOMBRAS

 

Uma tristeza que não se revela,
indecifrável. Presságio?
Uma tristeza velada velando o dia.
Uma tristeza como o peso de um trem:
a dor submissa dos trilhos.


 

 

 

 

 

*DO INTRADUZÍVEL

 

O que é o tempo, se não o salto abrupto,
o soco, o sim que não se espera?
O que é o amor, se não o deserto pós-quimera?
O que é a morte, se não a sombra do anjo,
o Sol que se enterra, o beijo amputado, a serra?


 

 

 

 

 

TRATADO SOBRE A MULHER MORTA

 

Prepara-se o crime aos poucos, sob a cegueira dos séculos:
desde cedo, o sangue das moças goteja na poça,
ofertada por fim às manchetes.
Aos poucos, antes de o útero inchar e o fluxo rubro jorrar a primeira vez pelas pernas,
e os pelos pontearem a carne verde do púbis.
Antes de o esperma inaugural macular de posse o prazer,
o sangue das moças vaza, invisível, pelos poros do poder.
Prepara-se o crime aos poucos, no quarto rosa.
Sob os babados dos vestidos, facas fatiam o horizonte em sim e não.
Antes de o buquê murchar e o arroz do altar apodrecer na prateleira,
o sangue das moças segue sua angústia de mar.
Aos poucos, quando o corpo deita-se para deixar:
e um deus delirante demarca bandeiras na terra possuída.
Quando peitos promovem produtos, e a beleza se basta como atributo.
Escorre com o ciúme o sangue das moças:
da fala áspera, ao grito; do soco, à surdez consensual
(e o pedido de perdão, travestido de amor e permissão).
Prepara-se o crime aos poucos, definida a supremacia do falo.
No aconchego das escolas, no colo das mães,
por entre as pernas dos pais e seus paus de pedra,
escorre o sangue das moças.
Pelas vias das tevês, sob o jugo dos jornais,
delegacias, religiões, tribunais.
Pelos trens ejaculando nos vagões seus homens descarrilhados.
Das veias de todos nós, salta o sangue das moças estancado pelo algoz.


 

 

 

 

 

*PARA FABRICAR ASAS

 

Lixar o excesso do amor,
o lixo do querer.
Deixar o amado ser.
– que tanta raiz é arma (dura),
abraço de fechadura,
tentar algemar o vento.
No amparo em demasia,
algum dia, desamparo e desalento.
Lixar o excesso do amor,
podar o medo de perder.
Curar a sede excessiva de ter.
Deixar o amado ser...


 

 

 

 

 

*ORAÇÃO PARA CESSAR ANSIEDADE

 

Nada sei das certezas.
Mesmo as funestas ou felizes
traem o destino que se trança.
Nada sei de mim.
A cada véspera sou outro sol a chover de manhã,
a mostrar-me a mim e aos passantes,
erodida e germinante.
Nada sei do amor e seu desfazer-se sorrateiro,
sob a lupa desatenta dos dias.
Nada sei do amor e seu súbito ressurgir,
pós-tédio e desesperança.
Tudo movimento  e inconstância.
Nada o que temer ou festejar
antes do segundo que avança.
A surpresa é a única certeza que a vida nos lança.


 

 

 

 

*INDAGAÇÕES SOBRE O COMEÇO DO FIM

 

De que recanto do amor o pássaro da morte
levou no bico o teu beijo?
De que célula adoecida alastrou-se, sorrateiro,
o desencanto – o cancro?
Quando teu olhar nublou os raios que acendiam nosso quarto
e a ascensão do fogo rendeu-se à gravidade
qual balão apagado em queda lenta?
Em que subterrâneos do fim o cinismo tecia
seu golpe absoluto?
Que atávicos ruídos neguei ouvir, curvando-me à
cegueira?
Em que átimo o rumor do silêncio apartou
nossos corpos?
Quando o chicote da língua roubou das palavras
o afago?
Em que instante invisível a semente apodrecida
alojou-se sob os tacos da casa,
rompendo a liga dos tijolos,
a proteção das telhas, o ânimo dos abraços?
Quando, em tuas veias, o gotejar do tédio
virou sangramento interno
e a verdade internou-se na ala
dos doentes terminais?
Quando a mentira, adornada de afeto,
deformou o primeiro traço do teu rosto?
Com que barro o artista barroco erigiu,
na praça do meu peito,
tua máscara verossímil (tão bem talhada)
tombada, de súbito, no chão do deserto?
Quando (analfabeto de mim) não pude ler
nos teus gestos a sílaba traiçoeira?
Quando o bafo do abandono
mudou o hálito das bocas
e a mudez (ora implacável)
lançou nas salivas o gérmen do último verbo?


 

 

 

 

 

*BORDADOS

 

O amor não cai do céu.
Não vem adubado, descascado, vestido.
Necessário se faz aprontá-lo aos poucos.
E sabê-lo nunca pronto.
Nem o amor morto deixa de se mover.
Há que se fazer fartas concessões
para se viver.
Há quem mire o amor mito:
Ânsia na lista de quereres
(a estética da hora, corpos rimados
na primeira cena, sapato de cristal
para o seu pé torto,
photoshop na alma do outro).
Um ser imaculado, sem a comunhão
da lapidagem. Se algo na bula
não se apresenta pronto,
não há o segundo encontro.


 

 

 

 

*AMPARO

 

Rio, que Cristo alarga teus braços
em turismo sem pão?
Tour por teus atalhos, asfaltos,
políticos – mãos ao alto, ladrão.
Que Cristo colore teus traços,
benze teus dias, cruza teus dedos em oração?
Rio, que Cristo sobe teus morros, colhe teu lixo,
samba teus pés de barracos, ampara teus
barrancos, sutura teus abismos...
Que Cristo fotografado afaga teu sorriso fraturado?
Rio, que Cristo afamado te estende a mão
– do cartão postal dourado?


 

 

 

 

 

*TODAS AS MANHÃS

 

Despertar é vitória infinda,
a qual o orgulho humano não brinda,
por julgar rotineiro e certo o descerrar das pálpebras.
Por conceber ato consumado a sorte da hora:
a verve rara de Deus rimando vida e aurora.

 

*Poemas de Carmen Moreno (livro Para Fabricar Asas, Ibis Libris Editora).

 

 

Carmen Moreno, escritora e professora carioca, recebeu prêmios em diversos gêneros literários. Membro titular do PEN Clube do Brasil, Carmen é contista, romancista, poeta e dramaturga. Concluiu os cursos de Bacharelado em Artes Cênicas e Licenciatura em Educação Artística, ambos pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Leciona na área de sua formação. Algumas publicações (solo): Para Fabricar Asas (poesia), Rio de Janeiro: Ibis Libris Editora, 2015; Loja de Amores Usados (poesia), Rio de Janeiro: Multifoco, 2010; O Estranho (contos), Rio de Janeiro: Five Star, 2006; O Primeiro Crime (romance policial), Rio de Janeiro: Rocco, 2003; Sutilezas do Grito (contos), Rocco, 1997; Diário de Luas (romance), Rio de Janeiro: Rocco, 1995, finalista da 5ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira. Sua obra foi tema de dissertação de Mestrado pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG - RS), 2006. Carmen integra mais de 30 coletâneas, entre as quais: Mais 30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, Luiz Ruffato (Org.). Rio de Janeiro: Record, e a Antologia da Nova Poesia Brasileira, Olga Savary, (Org.). Rio de Janeiro: Hipocampo. Entre as premiações: Prêmio Casa da América Latina (Concurso de Contos Guimarães Rosa 2003), Rádio França Internacional, Paris; Bolsa de Incentivo ao Escritor Brasileiro (poesia) MINC / Biblioteca Nacional, 1994, e Prêmio de Desenvolvimento de Roteiros Cinematográficos de Longa- metragem (1ª fase: argumento), Ministério da Cultura (MINC) / Secretaria do Audiovisual, 2001.

https://carmenmorenoemprosaeverso.blogspot.com/

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Colaboradores de Junho de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Costa, Antônio Torres, Diego Mendes Sousa, Beatriz Aquino, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carmen Moreno, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Cláudio Daniel, Danyel Guerra, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Elisa Scarpa, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Hermínio Prates, José Manuel Simões, Julio Inverso, Leila Míccolis, Liliana Ponce ; Rolando Revagliatti, entrev., Luís Giffoni, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Ana Carol Diniz Hassui e Audemaro Taranto Goulart, Ricardo Ramos Filho, Tanussi Cardoso, Vitor Eduardo Simon


Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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