ANO 8 Edição 93 - Junho 2020 INÍCIO contactos

Eduardo Madeira


Contos    

Eu tive um sonho que é uma passagem para um lugar rarefeito e consumido pelo breu. Lá eu me senti sozinha, consumida pelo medo. Posso dizer que foi um tipo de sonho que privilegia a sensação, que convoca o corpo muito mais do que a cabeça. Aprendi assim:

 

Todo mundo cria um animalzinho dentro da alma. A alma é a substância de que se alimenta o animalzinho. O animalzinho come sua alma. Se a alma adoece, o animalzinho come você.

 

Depois do sonho eu consigo enxergar o animalzinho das pessoas. Quando se experimenta o escuro e não tem ninguém, isso é o animalzinho crescendo.

 

Desde então eu não consigo tocar ninguém. Quando minha poesia encanta uma pessoa, a pessoa morre.

 

Se o mundo é cheio de eventos fantásticos, eu cubro a cara para ver o que ninguém mais vê, quando chega à noite.

 

Eu conheci alguém que também vê o animalzinho. E aí eu pude fazer amor. No segundo mais dilatado do orgasmo, eu chorei. Nesse mesmo segundo, uma lagartixa avança um passo pra cima de uma formiga, mais de vinte cinco mil homens têm um enfarto, e duas estrelas somem do céu.

 

O mundo estava à salvo, as almas jorrando mais que o sangue, o meu.

 

 

 

 

 

 

BICHO CORTÁZAR

 

Eu queria um apito ou um giroscópio, mas titia me deu logo um cortázar.

 

O cortázar se empertigava lá nos cantinhos mais escuros, lógico que pra não ser visto. Certa vez bateu de frente com a visita. a senhorinha só faltou pedir a missa de tal branca que ficou.

 

"Porra, cortázar, eu já falei pra você se esconder na presença de terceiros, diabo. Você é grande e feio; és grotesco homem! Passa já, guardião de masmorra, mito de índio! Vá já, feio que é!"

 

Mas o cortázar era criatura mole. Vivia consertando asa quebrada de passarinho e polindo jarra de água. Até que num dia tal a moçinha do Seu Arantes, de perdida pela mansão, foi bater logo com a criatura. A pobrezinha falou-se encantada. Tamanha devia ser sua imaginação... Onde já se viu criança destemida assim? Nem  boi da cara preta devia ser tão coisa feia. Estava lá o cortázar, a bocarra cheia de farelos de bolacha velha, fiapos de leite escorrendo pela barba espessa. Acontece que ele dividia sua tigela de leite com uma cadela magra. Uma vira-lata sujinha que ele se entranhava vez ou outra. Ah, se ele bota ela pra dentro! Mas então que a moçinha sorriu pra ele, não sentiu medo. Isso quem sentiu foi o próprio diabucho argentino, quiçá estivesse impressionado pela reação da moça, a primeirinha a não se espantar.

 

Ela acha que viu humanidade nele. Onde já se viu? Quem escreve não tem humanidade. É bicho, é besta, não dou conta de jeito maneira. Mandei logo ele se catar. El belzebu se partiu feito uma mula. Foi muito engraçado. A moçinha fez que de mimada com o pai. Queria o cortázar!, gostava do cortázar!, pra todas as paredes. Ora essa...

 

Deixei  pra ela o diabucho. Fazer uma graça com Seu Arantes. Também não prestava de quase nada o chupa-foice. Que fique com a besta, a princesinha da terra dos ogros! Me tortura saber que diabo que ela vê no servinho. Que fique lá, bem pra lá, escrevendo continhos pelas paredes, derramando poesias pelos móveis, escorregando fantasia pelo quarto, diabito. E aquela gaivota no meio dos córnios?

 

ai que saudade.

 

 

 

 

 

 

ELA ERA ELA

 

Iara acordou sobre o leito da feiticeira Calipso. Não sonhava. Olhou de um lado, de outro. Fustigou os lençóis e não descobriu outro cheiro que não o seu. Podia vestir-se de ambas as formas. Oceano de aconchego, rio entre os lábios. A língua feita pra se afogar.

 

         Terá pensado em mim? Afinal não passei de uma noite. Mais um de seus cobertores. De volta à ilha, talvez lhe escreva uma carta.

 

         Iara essa dos rios impermanentes de Heráclito? Terei me banhado uma vez só nos seus beijos molhados?

 

         Desceu do recinto e se viu Penélope, viu que a cortejavam. Quantos não ambicionavam o trono vazio do seu colo evanescente? Ainda que uma vez, terá sido meu?

 

         Em furioso disparo, atingiu a cólera das matas. O corpo vencia sem relutância o capim-navalha. Correu tanto e de tal modo que se desfiavam suas roupas, desfiguravam-se os blocos da razão, destituíam-se as réstias de alguma saúde mental. Jogou-se ao rio. Seu corpo um carnaval pessoal. Tocou-se, como não pôde Narciso. Terá pensado em mim?

 

         Saiu molhada e calma.

 

        
Novembro de 2018

 

 

 

 

 

 

METAMORFOSES III
(Para T. F. L.)

 

         Ele a amava tanto que doía. Com tal fervor, com tal disposição, que doía. Não pôde senão envolvê-la na cólera de mágoas de seu temperamento intempestivo. Nunca fez transbordar tanto outra criatura que não ela. Talvez seus braços fossem tortos ou desproporcionais. Tinha uma distinta cor dourada, mas seus braços talvez fossem tortos ou desproporcionais demais.  Não foram feitos para amar. E nas suas mãos ela amargou.

 

         Então os senhores os deuses o transformaram. Numa borboleta de pedra o transformaram. Assim talvez aprendesse a dar peso ao que é leve e a dar leveza ao que é maciço.

 

         Depois foi feito gato. E lutou por seu espaço. Pouco sabia de ser gato e acabou que foi atropelado. E teve suas partes reconstituídas.

 

         Pôde dela se reaproximar, sem braços ou pernas grotescamente enormes a molestá-la, colher dela alguma coisa na condição de gato. Sereno na sua disposição de gato, enquanto ela amava quem lhe cabia, enquanto ela amava quem era barco.

 

         Ele a amava tanto, que nada podia senão ser gato e, mesmo gato, incapaz de arranhá-la como outro dia.

 

 

Sou escritor e chamo-me Eduardo Madeira. Vivo no Espírito Santo, Brasil.  Tenho uma novela publicada pela editora Pedregulho (“Bichos que habitam as frestas”), que rendeu bons elogios do nosso supracitado amigo em comum, mote da nossa primeira troca de correspondências. De projetos em andamento, todos em prosa também. Contos e romances. No que tange ao acadêmico, estou para defender dissertação de Mestrado em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito.

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Revista InComunidade, Edição de Junho de 2020


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Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alexandra Vieira de Almeida, Ana Maria Costa, Antônio Torres, Diego Mendes Sousa, Beatriz Aquino, Bruno Brum, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carmen Moreno, Cecília Barreira, Chris Herrmann, Cláudio Daniel, Danyel Guerra, Deusa d’África, Eduardo Madeira, Elisa Scarpa, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Fábio Pessanha, Fernando Andrade, Fernando Huaroto, Hermínio Prates, José Manuel Simões, Julio Inverso, Leila Míccolis, Liliana Ponce ; Rolando Revagliatti, entrev., Luís Giffoni, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, Myrian Naves, Ana Carol Diniz Hassui e Audemaro Taranto Goulart, Ricardo Ramos Filho, Tanussi Cardoso, Vitor Eduardo Simon


Foto de capa:

FRANCISCO DE GOYA, 'Saturno devorando a su hijo', 1819-1823


Paginação:

Nuno Baptista


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